O recém-inaugurado percurso pedestre PR8, designado Rota da Sirga, no concelho de Gavião, encontra-se interditado. Créditos: mediotejo.net

Em causa está a proximidade de parte do percurso do passadiço, formalmente inaugurado pelo Município de Gavião no dia 27 de março, de duas colónias de grifos e de um ninho de abutre-do-egipto.

A entidade nacional responsável pela conservação da natureza já havia confirmado ao nosso jornal que, no início de abril, os seus técnicos verificaram “o abandono da colónia [de grifos] de Vale de Cerejeira, e a colónia de Vale da Marinha apresentava evidências de ter sido parcialmente abandonada”. Por outro lado, garantiu, “a permanência do casal de abutre-do-egipto, que se encontra a nidificar”.

Inauguração do PR8 no concelho de Gavião, na margem esquerda do Tejo, designado Rota da Sirga. Créditos: mediotejo.net

Por isso, o impacto dos passadiços da Rota da Sirga (PR8) – entretanto interditada aos caminhantes – na perturbação das colónias das referidas aves, foi alvo de avaliação pelo ICNF.

Mais informou a instituição que a situação identificada ““foi comunicada à Câmara Municipal de Gavião e solicitada a implementação de medidas que condicionem a utilização do passadiço da Rota da Sirga”. Tal como entretanto, aconteceu.

Esta sexta-feira, 27 de maio, o ICNF confirmou que essa interdição do circuito foi solicitada à autarquia pelo Instituto. Esclarece, ainda, que entre as recomendações dirigidas à Câmara Municipal de Gavião encontra-se a colocação de avisos a apelar ao silêncio, na Rota, junto às colónias dos grifos. Explica que “na fase de reprodução deve existir a menor perturbação possível das espécies”.

O recém-inaugurado percurso pedestre PR8, designado Rota da Sirga, no concelho de Gavião, encontra-se interditado. Créditos: mediotejo.net

O alerta surgiu quando, em abril, o biólogo Carlos Pacheco, especialista em aves necrófagas, deu conta ao mediotejo.net que haviam “desaparecido sinais de qualquer nidificação nos 22 ninhos de uma colónia de grifos” existente na margem esquerda do rio Tejo, precisamente onde foi construída a Rota da Sirga, falando de “três núcleos, e o desaparecimento de um casal de abutre-do-egipto” – espécie ainda mais rara nestas paragens, pois só nidifica em zonas inóspitas e tranquilas.

Devido à situação criticou “a construção de passadiços prejudiciais” ao ambiente, designadamente o da Rota da Sirga, por “perturbar” a nidificação das referidas aves.

O biólogo, que não se manifestou contra os investimentos de lazer, lamentou que a pressão turística, e as respetivas infraestruturas, sem qualquer tipo de parecer ou estudo de impacte ambiental, alheia à fauna existente, “inviabilize” a reprodução das aves que têm naquele local “as boas escarpas” que necessitam para a nidificação. “O fator limitante destas espécies é o habitat de nidificação”, insistiu.

Caminhada no dia da inauguração do PR8, a 27 de março, no concelho de Gavião, designado Rota da Sirga. Créditos: CMG

Na ocasião, o presidente da Câmara de Gavião, José Pio, admitiu ao nosso jornal que antes de construir a infraestrutura, o município “não pediu qualquer parecer, nem solicitou um estudo de impacte ambiental, porque não é obrigatório” vincando, no entanto, que “a questão da preservação da colónia de grifos foi acautelada pela equipa projetista”.

Assegurou, nesse momento, disponibilidade por parte da Câmara “para alterar e resolver algum problema que venha a ser identificado no futuro”. Tal como veio a acontecer.

Esta sexta-feira, o jornal mediotejo.net tentou obter mais esclarecimentos junto do presidente José Pio, que confirmou que o PR8 permanece encerrado por recomendação do ICNF. Acrescentou que a Câmara aguarda instruções. “Esperamos que aconteçam na próxima semana”, referiu.

A Rota da Sirga que propõe uma caminhada ao lado do Tejo, em trilho, xisto e passadiços de madeira num percurso de 5.8 quilómetros, é um investimento municipal de cerca de 200 mil euros. Localiza-se na encosta, na margem esquerda do rio, iniciando junto à ponte metálica de Belver, no final do passadiço do Alamal, fazendo a ligação entre o PR1 e PR2. O percurso encontra-se “temporariamente encerrado”.

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A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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