Figos. Foto: DR

Estamos na época dos figos, fruto tão conhecido nesta região como vocábulos empregamos a nomear pessoas, terras e bens, Figueira, Figueiredo, invadindo todos os domínios, desde a agricultura até às artes culinárias nas suas múltiplas representações, entradas, sopas, acompanhamento de carnes e peixes fumados, para lá da sua presença em sopas frias, peixes brancos, assados de carne, caldeiradas, ensopados, pastelaria, compotas, gelados e sorvetes.

Desde há milénios a história regista milhares de episódios onde a figueira e o figo são elementos principais a lembrarem personagens que contribuíram para essa mesma História. Três exemplos:

O famoso senador Catão via em Cartago potência ameaçadora dos interesses de Roma, daí procurara argumentos capazes de levarem os restantes senadores a declararem guerra à importante cidade do Mediterrâneo. Um dia, no Senado, apareceu segurando viçoso e maduro figo informando que o fruto tinha sido colhido de uma árvore há três dias. Tinha vindo de Cartago, os senadores perceberam a mensagem. A cidade foi destruída.

Todos nós sabemos o significado de uma figa, até se vendem reproduções em vários materiais, há o costume de os recém-nascidos receberem figas de ouro e prata como presente significativo de desejo de sorte. Os milaneses não pensavam e pensam assim. Num conflito com o Imperador Frederico venceram a pugna expulsando a imperatriz colocando-a virada ao contrário no dorso de uma mula velha. O imperador prendeu e condenou os cabecilhas obrigando-os a retirarem do rabo da alimária um figo e levarem-no ao carrasco. Muitos recusaram preferindo morrer a suportarem a humilhação. Daí a repulsa pelas figas.

O responsável pelas sementeiras do Palácio Real das Plantas em Paris, encarregou um criado simplório de levar dois soberbos figos ao famoso Buffon. Pelo caminho não resistiu ao apelo da guloseima e comeu um. O celebrado naturalista, consternado, perguntou-lhe: como pudeste fazer isto? O estouvado abriu a boca, deglutiu o segundo figo e exclamou: assim!

Os figos comem-se frescos e secos, os secos desempenharam sobranceiro papel no retemperar calorias (rico em açúcares) de mulheres e homens empregues em ofícios rudes de enorme gasto de energias, nas terras transmontanas os figos secos continuam a serem imprescindíveis no dia da matança do porco, no Algarve na doçaria, um pouco por todo o País na época natalícia.

Vários pratos de caça de pêlo e pena ganham suculência pelo valor gustativo e nutritivo dos figos. Um cálice de aguardente de figo coroa refeições de untar a barbela, logo nas antípodas das dietas e fundamentalismos alimentares.

Os passarinhos papa-figos cantam não estarem sujeitos a regimes sanitários debicando os figos que puderem, os porcos chamam-lhe um figo a vianda dos porcos integra maçãs, milho, centeio, castanhas e/ou bolota, nabos e figos. A sua carne sápida e perfumada resulta em presuntos de eleição, de obrigar à prática da gula até termos direito a um lugar junto ao Diabo. Por isso uns comem os figos e a outros rebentam-lhe os beiços!

Armando Fernandes

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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