Depois de uma noite coroada de momentos de grande aflição, a população das aldeias de Ferreira do Zêzere que foram afetadas pelo incêndio deste sábado, 17 de junho, mantém-se alerta e receia novos reacendimentos. Muitos não foram à cama ou optaram apenas por dormitar um pouco.

Na manhã deste domingo, 18, ao longo de toda a freguesia de Ferreira do Zêzere era possível ver bombeiros, alguns deitados no chão a descansar o corpo de uma noite árdua onde as chamas chegaram a lamber muitas habitações. O fumo era intenso e nas ruas vêem-se mangueiras estendidas e muitos populares de ancinho na mão. Falam do sucedido e das horas de aflição mas o incêndio de Pedrogão Grande – onde pereceram 57 pessoas (segundo a última contabilização) – acaba sempre por vir à tona.
Na localidade de Chão da Serra, Fernando Roberto viveu a noite de ontem com o coração nas mãos, cheio de preocupação e a tentar ajudar os outros. “Senti o perigo e molhámos os terrenos em redor da casa mas sei que houve situações mais preocupantes”, referiu o morador que passou a noite em branco.
José Batista, morador na aldeia dos Outeiros, andou a cortar mato em redor da sua casa e a regar tudo com mangueiras, tendo só descansado quando eram quatro da madrugada. “O fogo andou aqui muito pertinho. A minha casa é aqui em cima e ardeu muito feno. Foram momentos de bastante aflição”, disse.

De lágrimas nos olhos, encontrámos Maria Emília Santana, moradora na Varela, que viu arder um eucaliptal/pinhal do qual é proprietária. “Andei a por água no quintal. Tinha aqui um terreno grande e ardeu tudo. Era para vender os eucaliptos e agora fiquei sem nada”, referiu, recordando que o fogo se propagou de forma muito rápida. “O meu marido morreu há sete meses. Não consegui dormir nada. Eu acho que o mundo acaba todo em lume”, confessou, entre soluços.

Na localidade de Outeiros ardeu um barracão agrícola que estava abandonado, sendo este o dano material mais considerável a considerar. De resto, não houve feridos nem outros danos pessoais a registar apenas “um grande, grande susto” para as populações nas palavras de Pedro Alberto, presidente da Junta de Freguesia de Ferreira do Zêzere. “Estamos na fase de rescaldo, afim de evitar os reacendimentos mas penso que não vai ser fácil. Há uma zona mais complicada, a da Cabreira, mas penso que está tudo no bom caminho. Se não houver vento as coisas vão ficar mais calmas”, disse.

O autarca refere que houve casos em que se deu o risco do fogo atingir as habitações especialmente nas localidades de Fonte Fojo, Carvalhal e Carrascal, obrigando à evacuação dos moradores. “Felizmente o pior não aconteceu e as habitações foram salvas. Os meios eram escassos mas os poucos que estiveram no terreno estiveram bem”, disse Pedro Alberto, confessando que na sua vida de autarca nunca viu projecções de fogo tão grandes como nesta noite. “Vivemos mesmo momentos de aflição, especialmente no início”, refere.


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