Partiu o Mestre Fernando Correia, nome incontornável do judo em Abrantes e na região. Créditos: DR

Faleceu aos 78 anos o Mestre Fernando Correia, fundador do Judo Clube de Abrantes e responsável pela formação de muitas gerações de judocas na região. Exemplo de resiliência e coragem, não deixou que a perda da audição o diminuísse, trilhando um caminho de sucesso de kimono envergado. Enquanto judoca somou significativos títulos, tendo sido por duas vezes vice-Campeão do Mundo em competições para surdos. Destacou-se também como osteopata e instrutor de Judo e Defesa Pessoal nas Tropas Pára-quedistas.

Fernando António Dias Correia, nascido em 1946 em Abrantes, é reconhecido e respeitado entre os seus pares e na comunidade, classificado como um sonhador, um homem persistente e visionário, alguém que aprendeu a fintar as dificuldades e agruras da vida desde cedo.

Perdendo a audição aos 7 anos, consequência de ter contraído sarampo, Fernando Correia não se acomodou na época e não viu nisso uma fraqueza, mas sim uma motivação para encontrar o seu caminho. Construiu a sua própria história, numa altura em que a sua diferença poderia tê-lo feito recuar. Contudo, acabaria por fazer muita diferença na vida de outros, partilhando a paixão por uma certa modalidade desportiva: o judo.

Já adulto, deixou que o judo norteasse a sua vida e por isso fundou, a 3 de novembro de 1969, o Judo Clube de Abrantes, um dos clubes fundadores da Associação de Judo do Distrito de Santarém e que funcionou durante 31 anos, até 2000. O seu exemplo levou a que a RTP produzisse, em 1979, um trabalho sobre o seu percurso enquanto instrutor de judo com surdez, no Judo Clube de Abrantes, inserido num programa sobre integração social das pessoas com deficiências auditivas.

Generoso e solidário como o caraterizavam, não guardou para si essa relação especial com o judo, e por isso correu a semear a paixão por esta arte marcial junto de crianças, jovens e adultos que o tiveram como Mestre, e impulsionou a criação de muitos outros clubes na região centro do país.

Entre os feitos da sua carreira enquanto judoca, destacam-se os dois títulos de Vice-Campeão do Mundo em Campeonatos para Surdos (Campeonatos do Mundo Silencioso, em França – Dunquerque, 1982 – e Japão – Tóquio, 1989).

Fez também uma carreira de sucesso enquanto osteopata, e manteve ligação às Tropas Pára-Quedistas como instrutor de Judo e Defesa Pessoal até se reformar por incapacidade.

Apesar dos obstáculos e problemas de saúde que o fragilizaram nos últimos anos, Fernando Correia continuou a ser fonte de inspiração para muitos, dando uma grande lição de vida a todos os que consigo tiveram a sorte e o prazer de se cruzarem, comungando dos valores partilhados e apreendidos no tatami.

O corpo de Fernando Correia encontra-se na Igreja da Misericórdia de Abrantes, estando o funeral marcado para esta quinta-feira, dia 3 de outubro, pelas 12h00, com celebração de missa de corpo presente. Seguirá depois em cortejo fúnebre para o Crematório do Entroncamento.

O jornal mediotejo.net endereça as mais sentidas condolências à família enlutada, amigos e conhecidos do Mestre Fernando Correia.

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Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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4 Comments

  1. Uma homenagem sincera no artigo que descreve o percurso de mestre Correia que foi também meu instrutor de judo. Devo dizer que a persistência dele na introdução do Judo em Abrantes começou no Sporting Clube de Abrantes, num local que é hoje a entrada para a Biblioteca e, posteriormente, dada a sua inaudita força de persistência já assinalada, passou por vários lugares do Convento. Na modalidade acompanhei-o sempre – outros também – , sendo que me era muito ligado até por razões particulares. Acompanhei de perto a sua doença e a resistência que sempre opôs à mesma fruto da sua resiliência. Aos seus familiares mais próximos, apesar de ter assistido às cerimónias fúnebres, já expressei as minhas condolências já que são pessoas da minha intimidade.
    Avelino

  2. Utilizando o Facebook da minha esposa, aproveito para apresentar as minhas condolências a toda a família e prestar uma homenagem ao meu MESTRE, não só de judo como da vida em geral. Ensinou-me que a vida é uma luta constante, cheia de dificuldades e obstáculos, que devemos lutar sempre pela vitória mas saber também aceitar as derrotas inevitáveis com humildade e simplicidade; ensinou-me grandes lições de vida. Até sempre MESTRE CORREIA. Com respeito, o seu discípulo JOAQUIM ANTUNES – Agente Principal da P.S.P. de Abrantes.👮

  3. Um obrigado muito especial ao mestre Fernando, foi com ele, aluno do Colégio Lassalle que dei os primeiros passos no judo e também alguém muito importante no meu desenvolvimento pessoal.
    Um abraço Mestre Fernando e até sempre.

  4. Muito grata pelos testemunhos que tenho lido sobre o meu irmão, Fernando Correia, por quem sinto o maior orgulho.
    Partilho o texto que escrevi, há três dias, na sequência do seu falecimento.

    FERNANDO CORREIA, meu irmão, adeus.

    Se nos anos 60 (do século passado), existissem políticas inclusivas no ensino, o meu irmão teria sido engenheiro electrotécnico.
    Contudo, quando foi estudar para Lisboa, no Instituto Industrial (trampolim para entrar depois no Instituto Superior Técnico e fazer uma licenciatura), o melhor que conseguiu foi alguns professores permitirem que deixasse um gravador na secretária a gravar o que era dito nas aulas. Como não havia textos escritos, restava-lhe tentar descodificar as gravações, à noite, num esforço quase inglório pois o seu acentuado défice auditivo dificultava muito.
    Além disso, os tempos não eram de abundância para uma família da classe média e a sua consciência do esforço financeiro que representava estar a estudar longe de casa (e eram dois irmãos) levou-o a procurar um ‘part-time’ para ajudar. Passou então a trabalhar como desenhador num gabinete de arquitectura, sempre que podia, por vezes durante a noite.
    Tinha a confiança do arquitecto, na qualidade e no tempo do seu trabalho, pois lhe confiava a chave.

    Por essa altura, descobre também o Judo. Inscreve-se no Judo Clube de Portugal (JCP), torna-se aluno de Kiyoshi Kobayashi (o chamado pai do judo português, que chegara a Portugal poucos anos antes) e inicia um percurso que não mais deixaria.
    É também então que inicia a aprendizagem de técnicas, com o seu Mestre, que conduziram à osteopatia, para a resolução de lesões ou problemas surgidos no decurso dos treinos.

    Entusiasmado com a modalidade e empenhado como desenhador, esgotava-se nas aulas e o nosso pai, considerando que o seu esforço era excessivo, sugeriu que abandonasse o curso e optasse por trabalhar na loja e armazéns da família.
    Entretanto, já ele tinha superado as mil e uma barreiras que lhe impunham para ter a carta de condução. Foi a onze juntas médicas e só na última lhe concederam permissão para conduzir. Como era surdo, era reprovado logo à partida. Contudo, nunca desistiu e argumentou sempre que tinha todas as condições para poder conduzir. O que veio a provar na prática, ao longo da sua vida. Foi um condutor excelente e responsável, que sempre gostou de conduzir, bons carros de preferência. E foi ele quem me ensinou, aos 16 anos, quando era permitido ter uma licença de aprendizagem. E dessas andanças ficaram histórias inesquecíveis. Só não me convenceu a aprender mecânica como ele pretendia pois achava que eu devia saber para resolver eventuais problemas futuros.

    Deixou o curso como o pai lhe propôs, mas manteve as idas a Lisboa para treinar no JCP. E com o incentivo e apoio do Mestre Kobayashi abriu o seu clube em Abrantes, no final da década de 60. Com ele fui judoca e cheguei a cinto verde, o máximo possível na época pois a passagem a azul fazia-se unicamente por competição e ainda não existia competição feminina. Estávamos no início dos anos 70.
    Agora com a sua partida, li vários textos que o referiam como um sonhador. De facto, o meu irmão talvez fosse um sonhador, mas era também um criativo, que tinha mil ideias e concretizava a maior parte delas, com a sua persistência, entrega e determinação.
    Fui muito bafejada pela sorte com os irmãos que tive. Com diferença de 16 meses entre si, e ambos mais velhos (11 e 9 anos) que eu.
    Eu era como um vidrinho para eles, tinham medo que me partisse, mas se a minha aparência era frágil, no fundo sempre fui forte.
    Fui muito amada por eles, meus belos irmãos, tão diferentes.
    Eles foram exemplo para mim, como os nossos pais: de rectidão, de honestidade, de generosidade.
    O Raul, poeta, um homem sensível embora de aparência dura, brilhante conhecedor de antiguidades, da área comercial, mas que fez tudo à margem das novas tecnologias.
    O Fernando, interessado por tudo, sempre à frente, a descobrir novos avanços, a estudar, com uma sede insaciável de saber. Antes de haver o Excel, ele criou um programa com funcionalidades semelhantes, como me contou recentemente um seu amigo. Fiquei estupefacta, mas era mesmo assim que ele era: surpreendente.
    Na homenagem que lhe foi feita, tão oportunamente em vida, ouvi testemunhos emocionados de mulheres e de homens de barba rija, a darem-me conta de como ele influenciou inegavelmente para o bem as suas vidas.
    E hoje, na sua partida, leio ‘curvo-me perante esse ser humano extraordinário e grande Mestre de milhares de jovens, a maioria deles parquedistas…’. E perante tudo isto, curvo-me também, com humildade e, paradoxalmente, um imenso orgulho no meu irmão.
    Agora sou eu a retaguarda. Já não há ninguém atrás de mim.
    Durante 3 anos e um mês protegi aquele que foi (também) o meu Mestre.
    E termino este ciclo a confirmar que talvez seja uma fada sem magia porque, mesmo quando somos médicos, sentimo-nos infinitamente pequenos perante a morte.
    Resta-me aceitar. E conformar-me. E recordar como prendas bonitas, as vezes que ele me prendia a mão e acrescentava, sumidamente, como se fosse um segredo nosso, nas despedidas: ‘obrigada!’.

    Acho-te tão bonito, mano, nesta fotografia, ainda jovem, que os teus filhos, Hugo e Sara, escolheram. Queriam que fosses recordado com uma imagem de tempos felizes. Que filhos maravilhosos tens!
    Adeus, meu irmão querido. Cumpriste muito bem a tua vida e deixaste uma marca de bem que nunca iremos esquecer.
    Filomena Correia, 3 Outubro 2024

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