Os leitores e eu somos uns felizardos porque apesar de todos os contratempos vivemos muito melhor que os nossos ancestrais e, neste território à beira-mar plantado, imensamente mais livres. Só por esse benefício impossível de quantificar devíamos fazer jejuns, não digo durante os quarenta dias da época quaresmal conforme o preceituado pela religião católica (nas restantes religiões cristãs e ortodoxa existem diferenças), mas pelo menos uma semana. Porquê?
Porque a abstinência na Quaresma foi cumprida de modo rigoroso durante séculos, e até bem dentro do século XX nas comunidades rurais constituía prova provada de cumprimento do preceituado e lembrado a tempo e horas nas homilias dominicais. Alguns leitores lembram-se do aperto de jejuns especialmente nas sextas-feiras levando à interdição de consumo de toda a espécie de carne. A interdição alimentar na época medieval e moderna expressa em jejuns carregava todo o calendário anual, daí o recurso às bulas que serviram de ariete a Lutero no seu violento arremesso contra o Papado.
Não é possível tratar aprofundadamente a notação simbólica salvífica dos jejuns e consequente representação prática, no entanto, o receio do penar eternamente nas chamas infernais era de molde ao escrupuloso cumprimento dos mandamentos com especial observância dos menos poderosos, logo dos mais carentes, entenda-se: a esmagadora maioria das populações.
Os nossos avós mal alimentados entregues maioritariamente ao desempenho de pesados trabalhos agrícolas – arrotear, semear, gradar, regar, colher e ceifar, malhar e guardar – trabalhando de sol a sol, obrigados a prescindirem de gorduras animais, chegavam ao fim do dia moídos, extenuados. À sua espera magro caldo e um naco de pão, deitados no catre teriam pouca vontade de ensaiar avanços carnais sobre as legítimas ou mancebas, sonhando, isso sim, com travessas, escudelas e panelas repletas de carne, muita carne, de porco em primazia.
Agora, o Inferno deixou de constituir ameaça, a liberdade de consciência no tocante à abstinência de gorduras animais é pautada conforme mandam os nutricionistas, os pneus à volta da cintura e os sorrisos de comiseração ante a largura do corpo e de mofa quando a obesidade é ofensiva segundo o modelo anoréxico a fazer prevalecer a magreza ante a gordura. Tempos de jejuns, de bulas e pecados da carne na época de – gordura é formosura – cujo exemplo de fecundidade e exacerbado amor à comida é a palpitante Catarina de Médicis.
Na Idade Média e na Idade Moderna construíram-se astuciosos receituários de molde a superarem as agruras dos jejuns de observância de ressonância dogmática, dos mares e dos rios retiravam-se peixes e mariscos que graças ao denodo interesseiro dos almocreves e recoveiros logravam atingir o interior agora tão badalado em consequência da fuga das populações para o litoral e estrangeiro.
Empregavam-se técnicas de conservação dos peixes e dos mariscos de modo a chegarem frescos e nalguns casos vivos ao destino. Sem o custo e o aparato em uso na corte filipina a fim de o sibarita e formidável comilão Carlos V poder deliciar-se com linguados idos da Ericeira até ao seu reduto de exilado em Yuste (Cáceres).
O Imperador de um império onde o sol brilhava durante as vinte e quatro horas do dia temia as consequências do seu desmesurado apetite e paixão alimentar. Praticava o jejum deliciando-se com os frutos do mar, onde a lampreia suscitava grande apetência porque supria o não consumo de carniça durante aqueles referidos quarenta dias.
Eu e o leitor somos felizardos, repito, isso não significa ter desaparecido o fundamento do jejum não só por motivos religiosos, também os discípulos de Hipócrates e Galeno não se cansam de avisar contra o perigo da demasiada ingestão daquelas coisas que sabem bem, mas fazem mal. Jejuar é o remédio!
