Algumas dezenas de crentes e peregrinos concentraram-se junto aos portões do Santuário de Fátima durante as cerimónias de 12 e 13 de maio. Alguns eram moradores locais, mas também havia peregrinos que cumpriam promessas e decidiram vir a Fátima, independentemente das restrições. Junto ao portão da praceta de Santo António reuniram-se perto de 50 pessoas no final das cerimónias de terça-feira. A GNR vigiou o ajuntamento, mas não interferiu com a oração.

Com o Santuário vedado por grades e os portões fechados, com seguranças a vigiar e a GNR sempre a circular, não foi possível entrar no recinto a partir do meio dia de terça-feira, 12 de maio, e até à tarde de quarta-feira, dia 13. Com poucas lojas e hotéis abertos, apenas alguns curiosos espreitavam.

Durante a procissão das velas, porém, um grupo de crentes e peregrinos concentrou-se junto ao portão norte do Santuário, acompanhando as cerimónias como puderam, sendo vigiados pelas forças de segurança. O mesmo grupo, que no final das cerimónias ascendia a perto de 50 pessoas, voltou a reunir-se no mesmo lugar no dia 13.

Peregrinos participaram pelo exterior na procissão das velas Foto: Armando J N Mendes

Amélia Campos, peregrina de Trofa, veio para cumprir uma promessa com uma década. Doente, já foi sujeita a múltiplas operações. No início vinha a pé, mas há alguns anos que já não consegue.

Apesar das restrições, decidiu vir novamente a Fátima no 13 de maio, procurando cumprir mais uma vez a sua promessa da forma que lhe fosse possível. Emocionada, com uma máscara, mantendo-se à distância das restantes pessoas, acompanhou o final das cerimónias e aguardava que os guardas do santuário reabrissem os portões.

Leia também “Crónica do 13 de Maio: A pandemia, os privilegiados e os que saltam a cerca”

O bispo de Leiria-Fátima alertou na homilia desta quarta-feira que já se está a gerar uma pandemia mais dolorosa do que a da covid-19, “a da extensão da pobreza”, pedindo também solidariedade para combater “o vírus” da indiferença e do individualismo.

“A pandemia, com a longa interrupção da vida normal, traz terríveis consequências económicas, sociais e laborais. Já está a gerar uma pandemia mais dolorosa, a da extensão da pobreza, da fome e da exclusão social”, afirmou o Cardeal António Marto, numa peregrinação internacional de maio que decorreu, de forma inédita, sem peregrinos devido à pandemia da covid-19.

Durante a intervenção, o cardeal lembrou que as consequências económicas da pandemia já batem “à porta das Caritas diocesanas e de várias paróquias e soa a sinal de grito de alarme”.

Essa “pandemia” social, notou, é “agravada pela cultura da indiferença e do individualismo”, salientando que “o vírus da indiferença só é derrotado com os anticorpos da compaixão e da solidariedade”.

Esta situação “dramática e trágica” expõe também “a vulnerabilidade e fragilidade da condição humana”, frisou, considerando que essa fragilidade também exige uma união entre povos e classes, já que a covid-19 “ultrapassa todas as barreiras geográficas e todas as condições sociais, económicas, hierárquicas”.

As cerimónias foram realizadas apenas com participação dos funcionários do Santuário de Fátima, num recinto vazio Foto: mediotejo.net

“Sentimo-nos unidos e pertencentes a uma humanidade comum, na fragilidade, mas também mais unidos na fraternidade e na solidariedade”, frisou.

Afirmando que “ninguém está imune”, António Marto frisou a necessidade de solidariedade perante uma pandemia que revela a interdependência entre seres humanos.

“Ou nos salvamos todos juntos ou nos afundamos todos juntos”, sublinhou, recordando as palavras do papa Francisco, que defende um impulso de solidariedade para orientar a resposta mundial a uma “anunciada quebra” do sistema económico e social.

Para António Marto, este é também um tempo para refletir e repensar os hábitos e estilos de vida, vincando que “não se pode viver só para consumir”.

Perante um recinto de oração vazio, o cardeal também voltou a afirmar que, apesar de para muitos esta ser uma peregrinação triste por se realizar num santuário de Fátima fechado, é também uma oportunidade para “aprender como é uma peregrinação em estado puro, o peregrinar com o coração”.

“Há coisas que se aprendem melhor na calma e outras na tempestade”, disse, citando a escritora norte-americana Willa Cather.

A peregrinação internacional de maio realizou-se pela primeira vez na sua história sem peregrinos no recinto do santuário de Fátima, devido à pandemia da covid-19, estando apenas presentes as pessoas diretamente implicadas nos diferentes momentos celebrativos e alguns convidados.

c/LUSA

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

Deixe um comentário

Leave a Reply