Peregrinos participaram na procissão das velas junto aos portões do Santuário. Foto: Armando J N Mendes

A 13 de maio de 2020, pela primeira vez em 103 anos, não houve multidões na Cova da Iria. Vive-se, tal como há 100 anos, uma pandemia provocada por um vírus que causa infeções pulmonares. Tal como há um século, os jornalistas acorreram, fotografaram e reportaram como puderam o que de noticioso havia a tratar. Mas, desta vez, houve pouco para contar, no meio de lojas vazias, comerciantes desanimados, ruas desertas. Os fiéis não podiam assistir às cerimónias, mas alguns teimaram em estar presentes. É deles que pretende tratar esta crónica.

Costumo afirmar, talvez com alguma pretensão, que Fátima para mim é mais ou menos como a Igreja paroquial da terra. Sempre ali esteve, com uma magnitude para mim inata, e sempre vi o santuário mais vezes vazio do que cheio. Os dias de multidão são para turistas e peregrinos, não para os locais.

A minha mãe diz com frequência que somos privilegiados por vivermos tão perto e só me ia apercebendo disso por alturas do 13 de maio, repetidamente, ano após ano, quando a imponência das cerimónias me chegava também pela televisão.

Neste dia 12 de maio, falando para os jornalistas num santuário vazio de fiéis, D. António Marto chamou-nos também “privilegiados”. Fiquei a remoer o assunto.

Junto à entrada do Muro de Berlim juntaram cerca de meia centena de pessoas por altura do Adeus à Virgem Foto: mediotejo.net

Depois um italiano (espanhol?, irlandês? ainda não consegui confirmar a naturalidade), conseguiu saltar a cerca de segurança e correu recinto dentro, querendo apenas chegar a Nossa Senhora. Foi placado pela GNR e pelos seguranças do Santuário. Desapareceu, para não mais ser visto.

Passado um primeiro momento de pânico, em que devido aos seus gritos temi que fosse um bombista, regressei em passo acelerado para tentar perceber quem fora o peregrino ousado a empreender tamanha façanha.

Eu estava ao fundo do recinto e tinha acabado de fazer um direto do Santuário iluminado com mais de mil velas. No momento em que escrevo, essas imagens, que pretendiam transmitir o cenário de silêncio e luz que se vivia no recinto, têm mais de mil partilhas e 1700 gostos.

O Cardeal tem a sua razão. Nesta pandemia fatimense houve privilegiados, e não foram os crentes, que ainda assim encontraram as suas formas de cumprir promessas, vindo mais cedo ou mantendo-se discretamente do lado de fora dos portões enquanto decorriam as cerimónias.

A força da fé, seja ela de natureza religiosa ou ideológica, dá sempre aos jornalistas as melhores expressões de humanidade, as narrativas que parecem descrever com precisão o que é mais importante na vida.

O santuário vazio aparenta ser uma imagem poderosa. Mas não é assim tanto. O recinto está vazio frequentemente, basta por ali passar num dia de inverno.

Recinto vazio neste 13 de maio de 2020 devido à pandemia de Covid-19 Foto: mediotejo.net

O pequeno grupo de pessoas que se reuniram na noite do dia 12 frente aos portões fechados, em silêncio, cumprindo com o seu distanciamento social e usando as suas máscaras, de velas em punho sob o olhar vigilante das forças de segurança, isso sim, é para mim uma imagem poderosa.

Talvez pela leve transgressão às regras, talvez pela teimosa impertinência, pelo querer estar quando o proibiram a bem da saúde pública, talvez pela força da fé, talvez pelo calor humano, talvez pelas muitas contradições que parecem rodear esta pandemia.

Foi um momento que não captei porque, no meu “privilégio”, fotografava a Nossa Senhora em procissão, fazia planos fotográficos das pequenas velas sob a magnitude iluminada da Basílica do Rosário e procurava saber quem era o espanhol/italiano/irlandês que fora placado pela polícia. Soube que esse momento aconteceu porque hoje algumas dessas pessoas voltaram a estar junto ao mesmo portão, para rezar “mais perto” da Capelinha das Aparições.

Santuário de Fátima, 13 de maio de 2020 Foto: mediotejo.net

Fala-se numa pandemia de medo e podia facilmente publicar uma narrativa a puxar para o literário sobre um 13 de maio feito de ausências, onde as velas substituíram as pessoas, um vácuo de emoção mas pejado de sentido desde essa primeira peregrinação de há 100 anos. Podia lembrar a gripe espanhola e fazer um paralelismo com os tempos atuais que, embora aparentemente correto, é cientificamente forçado.

Mas saí do santuário sem saber bem o que escrever e, num espírito bastante judaico-cristão, senti-me culpada. Porque o 13 de maio devia ser dos crentes, não dos jornalistas. E, contrariando tudo e todos, acabou por ser, fora dos portões do Santuário.

Cláudia Gameiro

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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