Há tempos, durante uma prova de azeites, perguntei a uma especialista o que significava Extra Virgem, pois no meu entender o vocábulo Extra não passava de uma redundância porque sendo virgem significava pureza, que não tinha sido extraído de forma impura ou conspurcado.

A Senhora encetou uma explicação gaguejada envolvendo métodos e modelos de extracção dos azeites e refugiou-se no apuro da sua acidez a conceder-lhe o galão de extra. No meu entender de significado comercial, pois virgem é virgem e os dicionários etimológicos explicam minuciosamente a origem, percurso e o valor virginal das virgens sejam pessoas, coisas ou produtos nunca objecto de qualquer tipo de profanação. Assim pensava até há pouco tempo.

No decurso de uma investigação sobre o percurso e as contribuições científicas do sábio Herculano de Carvalho encontrei uma comunicação (1948) do professor Aníbal de Aguiar referindo um caso de Bi-Revirginação Espontânea, ao contrário dos casos de reposição da virgindade executadas por parteiras e barbeiros de boas mãos e discípulas de mestras na arte de recompor o profanado a prejudicar seriamente no futuro a furada antecipadamente.

Estamos na época do Entrudo onde a pretexto de tudo passar, as Donas caídas em tentação tal como o azeite misturado suscitavam repúdio e chufas ao ponto de nas «serrações» das velhas serem vozeadas pelos pregoeiros para desespero das progenitoras temerosas do futuro das desfloradas.

O caso apontado pelo ilustre médico foi a prova comprovada para ele explicar minuciosamente os trâmites da virgindade e o modo como os especialistas descobrem as cicatrizes dos restauros porque a certificação podia ser exigida aquando da celebração do contrato de casamento. Não vem ao caso enunciar o complexo significado simbólico da virgindade feminina em muitas sociedades, no entanto, não faltam relatos das consequências de a antecipada defenestração do virgo ter provocado zangas, zaragatas e até conflitos duradouros.

Se o azeite extra virgem é considerado como produto gourmet, no Ocidente a hermenêutica representativa da vantagem de uma rapariga manter a virgindade até ao dia dos esponsais deixou de ser qualidade ou virtude a assinalar no seu currículo mesmo quando se trata de aspirantes a partilharem os tronos reais.

O cronista Jaime Peñafiel, anos e anos director da HOLA espanhola, agora no El Mundo, não se cansa de escrever e falar na necessidade das meninas ou mulheres em causa chegarem aos braços dos futuros esposos sem currículo (imaculadas), os seus queixumes aumentam de tom ano após ano porque no seu entender o virgo só vale no que tanga aos azeites e outras delicadezas gastronómicas. Ora, a Mulher deixou de pertencer a tal categoria. Os apelos lacrimejantes do aferidor do valor das princesas acabam sempre numa melosa crítica a Filipe VI, pois este contrariou a mãe e enlaçou uma jornalista divorciada, logo desprovida do selo de garantia.

Os leitores façam o favor de desculpar o tom do presente escrito, é fruto da época onde abunda o excesso (vejam o Parlamento) antes de chegar a Quaresma, do período de jejuns, da época de a lampreia auxiliar a dona Quaresma (Arcipreste de Hita) no combate a Dom Carnal, entenda-se a gula e a luxúria.

Noutra crónica explicarei o método empregue pelos reparadores do espaço penetrado antes das maravilhas de agora muito apreciadas e bem pagas nos sítios onde os extras são sempre pagos à parte. Bom Carnaval!

Armando Fernandes

  1. Quem puder ouça a Carmina Burana e as trovas de Matteo Salvatore.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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