Instalado entre almofadas, no escano da cozinha, três grandes potes de ferro rechinavam carnes de porco provenientes do tradicional festejo da matança, observava deleitado o labor da minha avó materna, da minha madrinha e duas primas, todas afogueadas, todas risonhas. Era dia de festa.
Muitos anos mais tarde li vários textos referentes à matança dos cevados, admirei o saboroso estilo de Aquilino Ribeiro, Azinhal Abelho e Agustina Bessa-Luís, no entanto, o encanto, o sortilégio, o transcendente, sempre ancorou na expressividade da Festa/festejada na hoje minha casa sita numa vetusta aldeia do concelho de Vinhais, Lagarelhos, assim é conhecida desde os finais do século XVII.
Ora, na contemplação da azáfama os meus olhos perderam-se a observar os movimentos de duas escumadeiras. Uma tirava os loiros rojões para ampla travessa de loiça cavalinho, a outra executava a mesma tarefa vertendo arroz doce cremoso noutra travessa e malguinhas pequenas de idêntico desenho.
As escumadeiras existem de vários materiais, destinadas a legumes, carnes, caldos, molhos e doçaria líquida pertencem ao leque de utensílios de uma qualquer cozinha tradicional e cujas funcionalidades sejam exercitadas frequentemente.
Escumadeiras sem grande exercício significam casa onde se come quase sempre desprovida de gosto e bom senso culinário, imperando a uniformidade «burocrática» da elaboração de todos os géneros de comida. Acreditem!.
