Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes (EPDRA), em Mouriscas. Créditos: mediotejo.net

Corria o ano de 1983 em direcção à sua finitude quando o Sr. José Dinis, no seu consultório dentário, onde com o senhor seu pai exercia, tal como José Joaquim, o ofício de Tiradentes, me apresentou o Engenheiro José Mingocho de Abreu, na altura professor no Liceu, rebaptizado pela sanha de um igualitarismo por baixo de Escola Manuel Fernandes. Da apresentação à amizade, foi um repente (derrepente) fortalecido até aos dias de hoje.

Desde esse já longínquo ano que o «Zé Abreu» sempre demonstrou um enorme apego à agricultura no sentido de cultivo não só dos campos, também dos espíritos na plena assumpção do profundo entendimento de Paideia. Por assim ser, e foi, após porfiada e longa gestação onde não faltaram o sangue, suor e lágrimas ao estilo do Estadista inglês, logrou criar a Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes, edificada na herdade da Murteira, na periferia de Abrantes.

Concluída a tarefa, lançados cursos e caboucos de futuras produções agrícolas aceitou um honroso convite para lançar o ensino das práticas da milenar arte de arrotear campos em Moçambique e, de igual modo, se salientou na qualidade de gestor, professor e formador.

Pois bem, há dias, tive o ensejo de degustar dois vinhos gerados nessa Escola Profissional, os tintos das colheitas de 2017, 2018.

Trata-se de dois vinhos que registo de modo a quebrar o cânone de apreciação crítica, colocando a ênfase nas suas virtudes organolépticas, apelido de tintos donairosos, rústicos ao modo como o poeta Virgílio e o sábio catedrático Joaquim da Natividade entendiam a rusticidade. No tocante às acima referidas qualidades escrevo: debaixo do manto diáfono da fantasia, a nudez forte de uma dupla de vinhos saborosos, logo apelativos e tentadores à desmesura, com notas de xisto argiloso e aromas vegetais perfumados.

A EPDRA também esta a produzir vinhos brancos, licorosos, frutas e azeites. O visionarismo prático de José Abreu está a cumprir-se! Fico feliz.

PS. As produções são reduzidas.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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