Foto ilustrativa: Pexels

Há pessoas infetadas com Covid-19 sem conseguir comprovar o isolamento à entidade patronal e jovens a perder aulas e exames por não saberem quando chega a indicação de alta da doença. Após a denúncia do presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, de que muitos dos casos de infeção ou estão a ser contactados com dias de atraso ou nem chegarão a receber tal contacto, o mediotejo.net falou com duas famílias na cidade do Entroncamento que têm a vida em suspenso por não obterem qualquer resposta por parte das autoridades de saúde locais.

“Não sei quantos dias tenho de estar em casa. Agora a Saúde 24 é tudo monitorizado por perguntas, não temos acesso a qualquer profissional de saúde com quem comunicar. Entretanto, fartei-me de ligar para o Centro de Saúde, esqueça, não vale a pena porque é impossível”, confessa ao mediotejo.net Catarina (nome fictício), infetada com Covid-19.

O primeiro a testar positivo foi o seu filho, a 4 de janeiro, através de um teste rápido. Na altura, conta Catarina, ligou para a SNS 24 que lhe facultou um código para “testes PCR para mim e para ele, porque a minha filha já teve Covid há dois meses e disseram-me que como foi há menos de seis meses está imune e não precisava”.

Três dias depois, a 7 de janeiro, os testes PCR davam resultado negativo à mãe e positivo ao filho. Um dia depois, era a filha, supostamente imune, que manifestou sintomas. “Fiz um autoteste à minha filha porque ela andava a queixar-se com dor de cabeça e deu positivo. Entretanto, como não estava descansada e tinha muitos sintomas, fui fazer um teste rápido este domingo [9 janeiro] e dei positivo”, explica.

Esta terça-feira, 11 de janeiro, Catarina e a filha foram pela Saúde 24 fazer testes PCR que comprovaram o resultado dos autotestes. “A minha filha já teve Covid-19 em novembro. Supostamente devia estar imune seis meses (…) se ela não tivesse tido sintoma nenhum, ela tinha ido para a escola infetada. Afinal, não há imunidade”, expõe a entroncamentense.

No passar do tempo e no meio de testes e incertezas, o filho de Catarina já estava há cinco dias em isolamento e sem qualquer contacto por parte da autoridade de saúde local.

“Fartei-me de ligar para o Centro de Saúde, é impossível. Supostamente alguém me devia ter contactado… nada. Não sei quando é que o meu filho é suposto ter alta, ninguém contactou, estou à espera”, conta, explicando que o rapaz, estudante universitário, já faltou a duas frequências.

A esta falta de resposta, junta-se a não elegibilidade dos códigos fornecidos pela Saúde 24 para Catarina justificar à sua entidade patronal a situação de isolamento. “Tem sido uma complicação tremenda”, admite.

De acordo com o site da Direção-Geral da Saúde, atualizado a 11 de janeiro, as faltas às entidades patronais devem ser justificadas através de uma declaração emitida pela autoridade de saúde da área de residência ou do clínico que acompanha o utente. O utente pode ainda, mediante código fornecido pelo SNS 24, pedir uma declaração de isolamento via online.

“Eu disse para a minha mãe ir ao Centro de Saúde e explicar a minha situação, que não consigo aceder aos códigos, e lá responderam que não podem fazer nada que é com a Saúde 24. E estamos nisto”, desabafa Catarina ao nosso jornal.

“Agora, em princípio, a médica de família deve ligar-me para saber da situação, mas não sei. Não sei quantos dias tenho de estar em casa”, admite, com a intenção de esperar até ao final desta quinta-feira por um contacto das autoridades de saúde. “Vou esperar. Se não me disserem nada, sexta-feira passo o dia a ligar para o Centro de Saúde. E se não me atenderem, vai lá a minha mãe outra vez”, assume Catarina.

Mas os casos de espera, incerteza e indignação para com a falta de respostas multiplicam-se.

“Estou desagradada é com o não atenderem o telefone. Há pessoas que estão no Centro de Saúde e ligam e veem as funcionárias no paleio e não atendem. Não estou a pôr em causa a competência dos médicos, não é isso que está em causa. Mas o atendimento nos balcões deixa muito a desejar. O telefone toca, toca, toca, elas estão lá e não atendem. É falta de responsabilidade. Se não têm mãos a medir, têm de meter mais pessoal”, aponta Joana (nome fictício).

No seu caso, a história começou a 30 de dezembro, quando um contacto de risco levou a família a fazer teste à Covid-19. O filho foi o único a testar positivo e na altura as indicações da técnica que lhes fez o teste foram claras: “Perguntei o que é que fazia e a senhora de lá disse-me que não fazia nada, ele vai já para casa em isolamento e ela ia comunicar para o Ministério da Saúde. Disse que ligar para a Saúde 24 não valia a pena porque aquilo estava um caos e para ficarmos a aguardar contacto”.

“Assim fiz. Vim para casa com o miúdo, à noite recebi a mensagem do Ministério da Saúde a dizer que tinha dado positivo, para preencher os dados. Fui ao site que indicam, preenchi os dados do miúdo e depois dizia lá para aguardar o contacto do delegado de saúde… estou a aguardar até hoje”, expõe.

Sem nenhum telefonema nem orientação para fazer mais testes, aproximava-se o regresso às aulas, a 10 de janeiro. Na quinta-feira anterior, já uma semana após o teste positivo, Joana procurou saber informações junto do Centro de Saúde. “Liguei para vários números, primeiro pedi para falar com o delegado de saúde, atendeu-me uma moça que disse esse assunto era com a médica de família, mas estamos sem médico de família. Passou a chamada para o centro de saúde, ninguém atendeu. Depois fui tentando para o número direto do Centro de Saúde. Às tantas lá me atenderam, ouvi falar do outro lado, desligaram-me o telefone na cara, nada”, lembra.

“Na sexta-feira depois fui lá para ver o que é que se passava porque o meu filho começava a escola esta segunda-feira e precisava que a situação ficasse resolvida [isto é, de apresentar justificação às faltas] porque está a tirar um curso profissional e não pode faltar como a gente pensa. Se tiver muitas faltas tem de fazer o plano de recuperação de aulas, não é brincadeira”, prossegue Joana, que admite ter feito teste a si mesma antes de se deslocar ao local, tendo o mesmo dado negativo.

“Expliquei a situação: o meu filho segunda-feira tem que ir para a escola, até agora ninguém me contactou. E disseram-me que agora é só uma médica que está com esses casos e não tem capacidade de resposta porque são muitos. Efetivamente, disse-me que nos registos está lá que o meu filho deu positivo no teste antigénio mas não o contactaram, não o mandaram fazer teste PCR, nada”, diz.

Centro de Saúde do Entroncamento. Foto: mediotejo.net

“Depois disseram que a médica só vinha esta segunda-feira [10 de janeiro] e disseram para deixar o meu email que haviam de mandar a alta do miúdo na segunda-feira para poder ir à escola só na terça-feira. Chegou segunda-feira, email nem vê-lo. O meu marido foi lá e percebeu que a médica estava infetada”, refere Joana. Sem resposta por parte do Centro de Saúde, por contactos pessoais a munícipe teve conhecimento de que a alta do filho já estava passada mas que a única médica a tratar destes casos não está ao serviço, motivo pelo qual a alta não chegou às mãos do rapaz.

“O miúdo tem que levar a alta até amanhã [referindo-se a esta quinta-feira]. Já foi às aulas e na escola não lhe dizem nada, só que a alta tem de ir para justificar as faltas”, diz Joana, que vai, tal como Catarina, continuar a insistir na esperança de uma resposta por parte das entidades de saúde locais.

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Ana Rita Cristóvão

Abrantina com uma costela maçaense, rumou a Lisboa para se formar em Jornalismo. Foi aí que descobriu a rádio e a magia de contar histórias ao ouvido. Acredita que com mais compreensão, abraços e chocolate o mundo seria um lugar mais feliz.

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