A terceira vigília em frente à Câmara Municipal do Entroncamento, esta terça-feira, 1 de fevereiro, em homenagem a Beatriz Pereira, vítima mortal do acidente de 28 de janeiro no Entroncamento. Imagem: DR

A Câmara Municipal do Entroncamento cumpriu na terça-feira um minuto de silêncio em memória da menina de 4 anos que morreu no passado dia 28 de janeiro numa colisão automóvel no cruzamento entre a Rua da Barroca e a Rua da Maruja. Na sessão do executivo camarário, uma munícipe em representação dos cidadãos que organizaram as vigílias em homenagem a Beatriz interveio para expor a revolta e indignação para com os episódios de insegurança na cidade. O funeral da menina decorreu esta quarta-feira, 2 de fevereiro.

“Um acidente trágico que a todos afeta, é desolador para todos”, foram as palavras usadas pelo presidente da Câmara Municipal do Entroncamento na terça-feira, em sessão de executivo que decorreu por videoconferência, para descrever o fatídico acidente ocorrido no cidade e que vitimou uma criança de 4 anos.

Propondo o cumprimento de um minuto de silêncio em homenagem à menina, a Câmara Municipal parou, à semelhança daquilo que acontecia cá fora, em frente ao edifício dos Paços do Concelho, onde pelas 14h40 decorria a terceira das vigílias organizadas por munícipes, nas quais a indignação para com a situação do Entroncamento a nível da segurança são bem visíveis através de cartazes a clamar por mais e melhores condições.

Foi essa revolta que foi trazida até à autarquia, através de uma munícipe que interveio no período da sessão camarária destinado ao público, através de um vídeo gravado e dirigido ao presidente da Câmara Municipal.

“Encontro-me hoje aqui não sozinha, mas em uma única voz para que, de uma vez por todas, pare de ignorar o sentimento da maioria dos cidadãos desta cidade. (…) A nossa cidade tornou se num palco de espetáculos dignos de vergonha, afastando as pessoas de bem que aqui residem ou tinham intenção de o fazer. O Entroncamento é neste momento uma manchete vermelha nos jornais”, começou por dizer a cidadã, que relembrou a máxima do autarca aquando da sua eleição como presidente do Município em 2013.

Vigílias em homenagem à menina de 4 anos que faleceu em colisão automóvel a 28 de janeiro decorrem até esta terça-feira, 1 de fevereiro, em frente à Câmara Municipal. Imagem: mediotejo.net

“Quando o senhor foi eleito a sua máxima era ‘uma cidade para as pessoas’. Com o antigo presidente a trazer famílias pouco desejadas para a cidade todos os seus votantes depositaram esperança na sua palavra. ‘Uma cidade para as pessoas’. Agora que nos apercebemos que género de pessoas o senhor pretende na cidade, a nossa esperança desvaneceu totalmente, mas não o nosso sentido de dever e justiça!”, afirmou, defendendo ainda: “Pediram-lhe para agir antes de ser tarde de mais, mas neste momento já o é.”

“A população está revoltada, senhor presidente, e duvido que não mais consiga calá-la. Quanto mais sangue será necessário para tomar uma ação positiva? Nós não precisamos. (…) A mobilização do dia 30 [de janeiro] mostrou o que a sua governação fez em prol dos cidadãos a si entregues. A lamentarmos a fatalidade de uma criança em tão tenra idade, com a verdade do acidente escondida, oficialmente desconhecida, e o seu causador em liberdade, como sempre”, disse também.

Um dos cartazes presentes nas vigílias apelam a justiça e segurança no concelho. Imagem: mediotejo.net

Referindo-se aos episódios recorrentes de corridas ilegais que tornaram a cidade “numa pista gigante de ralis, peões, e aceleradelas como se fosse um jogo de consola”, a munícipe reiterou a insuficiência das forças de segurança. “São complementarmente insuficientes, eles próprios são humanos e cidadãos, temem pelas suas próprias vidas e famílias também. Estão em número reduzido e impossibilitados de exercer as suas funções. Psicologicamente também afetados e frustrados”, expôs.

Criticando ainda a autarquia entroncamentense por se “fechar os olhos”, daí resultando “insegurança e impunidade”, na intervenção a munícipe disse ainda que apesar de lamentar que a cidade não é segura “os fundos provenientes que o senhor fez para receber este tipo de gente sabem-lhe bem”.

ÁUDIO | Intervenção de munícipe sobre acidente que vitimou criança de 4 anos

É feito ainda um último apelo ao presidente da Câmara Municipal para que “inverta esta situação rapidamente, antes que mais fatalidades venham a acontecer”.

“Não vamos seguir o seu exemplo e entregar a cidade aos bichos! Temos cá as nossas vidas investidas. (…) Não trabalhe contrariamente ao nosso esforço de tornar esta cidade realmente ‘para pessoas’ ” é pedido, ao mesmo tempo que são deixadas um conjunto de questões relativas aos episódios que têm acontecido pelo concelho.

“Porque são ouvidos tiros constantemente? Porque existem condutores sem carta sob conhecimento das autoridades? Porque existem dezenas de condutores que não usam cinto de segurança e não cumprem normas no transporte de crianças? Porque existem corridas de carros dentro dos limites urbanos? Quando e realmente foram pedidos reforços para as nossas forças de segurança pública? Que ações têm planeadas para aumentar a segurança dos munícipes? Por que motivo planeiam construir pelo menos mais 126 frações habitacionais e para quem são? Diga-nos também porque existem nesta cidade pessoas acima da lei? Onde se faz essa inscrição para ter liberdade total de ações?”, questionou.

Presidente da Câmara admite insistência para mais meios junto da PSP

Câmara Municipal cumpriu minuto de silêncio pela morte da jovem Beatriz Pereira, de 4 anos. Imagem: Youtube CME

O presidente entroncamentense, Jorge Faria, reiterou a ação da Câmara no sentido de reforçar a segurança na cidade, nomeadamente através do envio de novo ofício ao Comando Nacional da PSP, bem como ao Comando Distrital, “a insistir e a exigir o reforço dos meios e a operacionalidade da esquadra do Entroncamento”.

“Vamos continuar a fazê-lo, como temos vindo a fazer até aqui”, assumiu na sessão desta terça-feira, não deixando de tecer comentários à intervenção da munícipe.

ÁUDIO | Jorge Faria (PS) responde a intervenção de munícipe

“Não vou comentar as afirmações, vou apenas clarificar três factos: primeiro, nós não fechamos os olhos à insegurança e tudo temos feito para tentar inverter esta situação na nossa cidade; segundo, a responsabilidade da manutenção de segurança e bens é uma missão da PSP, junto da qual – comando local, comando regional, comando distrital e comando nacional – nós temos reiteradamente insistido para o reforço de meios humanos e melhoria da operacionalidade da esquadra local; e um terceiro que agradecia que tivesse em conta – porque já ouvi essa mentira veiculada por outras pessoas – quando afirma que a Câmara terá recebido apoios, terá feito um acordo para receber dinheiro para receber pessoas no Entroncamento – é mentira, é falso”, declarou.

FUNERAL DE BEATRIZ PEREIRA MARCADO PARA ESTA QUARTA-FEIRA

O funeral da menina de 4 anos vítima mortal do acidente de 28 de janeiro decorreu esta quarta-feira, 2 de fevereiro.

De acordo com a informação divulgada pela agência funerária a cargo das cerimónias fúnebres, o corpo da menina saiu do serviço de medicina legal de Tomar com chegada à Casa Mortuária de Pussos (concelho de Alvaiázere) por volta das 14h30. Pelas 15h30 decorreram as cerimónias religiosas na Igreja dos Pussos, às quais se seguiu o funeral no Cemitério de Pussos.

Imagem: Nova Agência Funerária de Tomar

Quanto ao estado de saúde dos outros dois feridos no acidente que vitimizou a jovem Beatriz, de 4 anos, o mediotejo.net sabe que a mãe, Margarida Antunes, de 47 anos – que nunca correu risco de vida – já teve alta hospitalar no domingo, 30 de janeiro. Já o filho mais velho, Gabriel, de 13 anos, foi transferido do Hospital de Abrantes após intervenção cirúrgica para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde se encontra atualmente nos Cuidados Intensivos Pediátricos.

PSD realça onda de solidariedade da comunidade e apela à implementação de sistema de videovigilância

Ao final de segunda-feira, 31 de janeiro, o Partido Social Democrata partilhou através das redes sociais uma nota de pesar pelo falecimento de Beatriz. Referindo que o falecimento de uma criança “deixa a todos uma imensa tristeza e a certeza da nossa impotência face à incapacidade de impedir essa perda”, o PSD deixa “as mais sentidas condolências” à família e amigos da vítima mortal da colisão de 28 de janeiro.

Já esta terça-feira, 1 de fevereiro, em sessão do executivo camarário, o vereador Rui Madeira (PSD) assinalou o momento “significativo e marcante na vida do nosso concelho” e que exige uma assunção de responsabilidades por parte do executivo.

“Queremos realçar a contagiante onda de solidariedade que se verificou em toda a cidade e enaltecer as homenagens que foram realizadas para simbolizar o sentimento das pessoas. Mas também mostram outra coisa: uma vontade das pessoas para evitar a repetição de situações semelhantes. E aquilo que percebemos destas manifestações é que são também um apelo para quem de direito meter em prática medidas que possam resolver o problema da insegurança rodoviária. (…) Isto é um dever nosso, do nosso executivo”, defendeu.

Relembrando o reporte de situações de insegurança por parte do PSD em sessões camarárias anteriores, o social-democrata voltou a insistir na importância da implementação de um sistema de videovigilância. “Pode não haver lombas, pode não haver radares de velocidade, (…) mas se tivermos um sistema de videovigilância será uma ajuda muito significativa para identificar comportamentos de riscos bem como os condutores e responsáveis”, disse, alertando ainda que “quanto mais tempo se demorar até entrar em funcionamento de um sistema equivalente a este, maiores serão os problemas. Isso tem implicações significativas na estabilidade social”, acrescentou.

Local onde o acidente de 28 de janeiro aconteceu, no cruzamento entre a Rua da Barroca e a Rua da Maruja, no Entroncamento. Imagem: mediotejo.net

Rui Madeira exigiu ainda que sejam efetuadas reuniões com entidades nacionais responsáveis pela segurança, de modo a solucionar os problemas, e que as mesmas contem com a participação do PSD.

ÁUDIO | Vereador Rui Madeira (PSD) sublinha urgência de sistema de videovigilância na cidade

Já o vereador eleito pelo Chega, Luis Forinho, deixou também as condolências à família enlutada pela “terrível tragédia” e focou a importância de se criar um grupo de trabalho para “clarificar o que se está a passar”.

“Há um grande desfasamento entre a ideia que a população tem e a realidade dos factos, isto é, das responsabilidades que a Câmara Municipal tem em relação à segurança na cidade e também aos deveres da PSP na cidade”, expôs, tendo obtido a garantia por parte do presidente da Câmara, Jorge Faria, de que irá a breve trecho ser promovida uma reunião pública para se discutir o problema da segurança “de forma objetiva”.

ÁUDIO | Vereador Luis Forinho (Chega) sugere que se crie grupo de trabalho

Líder do CDS-PP Entroncamento envia Carta Aberta ao Ministério da Administração Interna

Também o presidente da concelhia do CDS-PP, Pedro Gonçalves, na qualidade de cidadão, tornou pública uma carta aberta endereçada à ministra da Administração Interna, ao comandante do Comando Geral da PSP e ao comandante do Comando Distrital da PSP de Santarém, na qual expressa o sentimento de “revolta, tristeza e profundo pesar” pela situação de “total abandono [do concelho] por parte do Ministério da Administração Interna e dos comandos da PSP”.

“Há mais de 20 anos que temos uma esquadra sem condições para os agentes e desde essa altura que se promete uma nova esquadra. Parece que agora vem aí uma nova esquadra, que talvez em 2024 esteja operacional. Mas com o passar destes anos à espera da almejada esquadra, houve algo que foi imensamente descorado – o corpo de agentes da nossa esquadra”, diz, defendendo que os mesmos são “poucos para as necessidades”.

“O corpo está envelhecido com bastantes agentes perto da idade da reforma, bastantes agentes de baixa e uma enorme falta de comando na esquadra, salvo raras exceções. A falta de um comando eficaz, a falta de um comando presente, faz com que os poucos agentes que estão disponíveis tenham um melhor desempenho, já diz o povo, fraco rei faz fraca gente… Este é um problema que nós, entroncamentenses, sentimos na pele todos os dias, a falta de um policiamento eficaz, robusto e visível faz proliferar nesta cidade um clima de insegurança. Faz com que a população não se reveja na PSP e faz com que os agentes que se esforçam diariamente para inverter este paradigma se sintam frustrados, cansados e muitas vezes resignados a esta situação”, expõe.

Referindo também que a cidade vive hoje num “sobressalto constante”, com os comerciantes “a fecharem as portas, pois os visitantes que outrora vinham à cidade hoje preferem não vir com medo de terem algum dissabor e perderem os seus pertences”, Pedro Gonçalves lembra ter já alertado a Câmara Municipal e a PSP para este cenário há cerca de seis anos.

“Esta insegurança e a falta de agentes da PSP faz com que os que cometem delitos, os que conduzem em excesso de velocidade, sem carta e sem seguro, se sintam à vontade para prosseguir em frente. Fazendo com que o comum cidadão, o cumpridor dos seus deveres, veja o seu dia-a-dia afetado. Isso causa danos irreversíveis na vida das pessoas, danos tão graves como os que aconteceram na última sexta-feira [referindo-se ao acidente que vitimou a jovem Beatriz, de 4 anos]”, acrescentou Pedro Gonçalves, que termina a sua carta aberta vincando a sua indignação e clamando por uma intervenção dos responsáveis.

“Estou indignado com a falta de ação de vossas Exas, com a falta de capacidade de reforçar a esquadra da minha cidade com agentes da PSP. Estou indignado pela incapacidade de manter as pessoas do Entroncamento seguras. Estou indignado por tudo o que se passa em relação à segurança da nossa cidade. (…) É preciso intervir, depois desta minha carta, a responsabilidade moral recairá sobre cada um de vós, terão a responsabilidade de cada incidente que aconteça na nossa cidade, por cada vida que se possa perder, por cada dano que possa acontecer. Os Exmos Srs tem a responsabilidade de manter as nossas vidas seguras, a cidade segura. Mas tal não tem acontecido. Não queremos mais este clima de insegurança, não queremos mais que as nossas ruas sejam uma pista automóvel, não queremos mais viver com medo e receio de que a nossa vida ou dos nossos esteja em perigo”, termina.

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Ana Rita Cristóvão

Abrantina com uma costela maçaense, rumou a Lisboa para se formar em Jornalismo. Foi aí que descobriu a rádio e a magia de contar histórias ao ouvido. Acredita que com mais compreensão, abraços e chocolate o mundo seria um lugar mais feliz.

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