Tudo começou em 2020, com a pandemia de covif-19, que não permitia a Teresa Nicolau sair de casa mas que lhe deu tempo para investigar, testar, recuperar, produzir e promover a receita do ‘Pirilau do Frade Ambrósio, um doce conventual produzido no séc. XV em resultado de “marotices” de um frade do Convento do Loreto, em Vila Nova da Barquinha. Teresa Nicolau, de 48 anos, é enóloga há 27 anos, e é natural de Vila Nova da Barquinha, onde reside. Especializou-se em enologia e tirou mestrado em controlo e sistemas de prevenção alimentar. Antes da pandemia começou a produzir licores, numa marca própria, a Tesouro d’Almourol, vendendo para vários pontos do país e estrangeiro, seguindo este seu gosto pessoal e os conhecimentos adquiridos ao longo da carreira profissional.
Hoje, a enóloga, que virou também empresária e estudiosa das tradições locais, tem a funcionar a Licoraria “Tesouro D’Almourol”, em Vila Nova da Barquinha, onde, além de produzir a sua gama de licores, com os de amêndoa amarga e de castanha e zimbro premiados com medalha de ouro em concursos internacionais, produz o bolo “Pirilau do Frade Ambrósio“” e o bolo “Calafates de Noz”, que evoca e homenageia as tradições dos barquinhenses e a sua ligação ao Tejo.
Todos estes produtos estiveram presentes na Feira do Tejo em Vila Nova da Barquinha onde encontrámos Teresa Nicolau a promover os seus produtos e a própria história e tradições do concelho e das suas gentes.
“Este é um projeto de fim de semana e que faz a recriação dos licores com alguns frutos que existiram outrora na nossa região, nomeadamente a castanha, no tempo dos templários, que existia muito. Fizemos a recriação de licores com alguns frutos ancestrais, mas com alguns frutos ainda existentes, nomeadamente a laranja, a amêndoa, e o medronho”, disse ao mediotejo.net a enóloga, que conquistou, com os licores reconhecimento além-fronteiras.




ÁUDIO | TERESA NICOLAU, LICORARIA TESOUROS D’ALMOUROL:
Em Inglaterra, no London Tasting Awards 2025, onde estiveram em competição produtos de 36 países, Teresa Nicolau conquistou uma medalha de ouro para o licor de castanha e zimbro “Tesouro D’Almourol”, e em Espanha três medalhas de ouro com outros licores.
Também este ano, mas em França, no Concours International de Lyon, onde estiveram a concurso 7.854 amostras de 4 países, os licores de Tersa Nicolau, produzidos de forma artesanal, conquistaram mais duas medalhas de ouro, para o licor de castanha e zimbro “Tesouro D’Almourol” e outra para o licor de amêndoa amarga, que foi mesmo considerado o melhor licor de Portugal em prova.



Questionada sobre o segredo do sucesso na produção e reconhecimento internacional destes licores, a empresária apontou ao gosto pelo que faz, ao toque pessoal e aos saberes transmitidos por populares e profissionais.
“Eu tive a sorte, quando comecei a trabalhar na enologia, de ter começado a trabalhar com o meu mestre de profissão, que era um pró em vinhos, mas que tinha algum conhecimento em infusões. E foi com ele que eu fui começando a apurar o conhecimento da ginja, na altura, que era só o que se fazia. E depois comecei a fazer os outros licores, e foi daí”, declarou.
“E depois, claro, tem tudo a ver também com o nosso gosto pessoal, o nosso toque pessoal, o fazer o reconhecimento de que todos os nossos licores são produzidos de forma artesanal, com a filtração a pano, cada um tem o seu ponto de fervura distinto, e é isso que faz com que os licores depois sejam diferentes, ponto a ponto”, explicou.
Além da exposição e venda dos licores, no seu pavilhão na Feira do Tejo, Teresa Nicolau promovia também a degustação dos produtos a quem a visitava, incluindo os doces conventuais, como o Pirilau do Frade Ambrósio e os “Calafates de Noz”, um bolinho que acabou de receber medalha de bronze no concurso nacional de doçaria na Feira Nacional da Agricultura.

“Os calafates de noz é um bolo que nós patenteamos em reconhecimento e em homenagem aos calafates, que se instalavam na altura do inverno nas nossas margens e que cuidavam e calafetavam os nossos barcos. E também temos a tradição da troca dos bolinhos no dia 1 de novembro. Como nós tínhamos muitas nogueiras aqui nas margens do rio, os miúdos dos calafates apanhavam as nozes, partiam-nos à mão, faziam umas bolinhas, e eram os nossos bolinhos de noz. E nós patenteamos como sendo o calafate de noz para que a tradição deste bolo não se perca, porque era deles, e foi feita aqui, também em homenagem a quem os criou”, declarou Tersa Nicolau, uma enóloga nascida e criada em Vila Nova da Barquinha que apostou em recuperar as tradições ancestrais da Barquinha.
“Isto também vem tudo do meu contacto com as pessoas. Os meus pais têm um comércio e desde sempre eu contactei com as pessoas, e uma das coisas que eu sempre tive prazer era que quem nos visitasse conhecesse quem nós éramos. Mas nós não éramos só aquilo que parecíamos, também as nossas tradições, o saber porque é que aquele produto nasceu assim, essa é a nossa cultura, e é isso que nós devemos preservar nestas regiões para que quem nos visita ter aquilo que nós temos”, explicou.
“E também é nesse sentido que nós, na Licoraria, recebemos grupos para fazer visitas, podem participar na produção do seu licor, e esta transferência de conhecimento é feita durante essa visita, que integra também uma visita ao Castelo de Almourol e ao Centro de Interpretação Templário, para que quem nos visita tenha a degustação dos produtos, um pouco da história e a sua envolvência”.

Na Feira do Tejo, para além da panóplia de licores, muitos deles premiados e reconhecidos internacionalmente, e os doces em mostra também estão a fazer o seu percurso, com os Calafates de Noz a receberem a primeira medalha.
“Estão a fazer o seu percurso, felizmente, e neste momento o Pirilau do Frade Ambrósio vai estar patente no Museu de Santo António, numa exposição a partir do dia 18, em Lisboa, e depois a sua comercialização também começa a ser feita no Museu de Santo António”, declarou, num brinde à história e à tradição.
