Irene Barata, ex-Provedora da Santa Casa da Misericórdia de Vila de Rei (1998–2024). Foto arquivo: mediotejo.net

Na sequência das declarações dadas ao mediotejo.net pelo atual provedor da Santa Casa da Misericórdia de Vila de Rei, em que Ricardo Aires disse que herdou da anterior administração um passivo de 4.7 milhões de euros, colocando em causa a sobrevivência e sustentabilidade da instituição (AQUI), vem a ex-provedora, Irene Barata, solicitar direito de resposta ‘Em defesa da verdade’, que publicamos na íntegra. “Resposta Pública: Em defesa da verdade. Por Irene Barata, ex-Provedora da Santa Casa da Misericórdia de Vila de Rei (1998–2024).

“Ao longo de 26 anos, tive a honra de servir a Santa Casa da Misericórdia de Vila de Rei como sua provedora, com total dedicação, espírito de missão e profundo respeito pelos valores que regem esta instituição centenária. É com esse mesmo espírito — de responsabilidade e respeito pela verdade — que me vejo hoje obrigada a reagir publicamente às declarações recentemente prestadas pelo atual provedor, Dr. Ricardo Aires, no mediotejo.net.

Em causa está a forma como a atual Mesa Administrativa tem interpretado e comunicado a situação financeira da instituição, procurando reduzir a história da Santa Casa a um número – 4,7 milhões de euros de passivo – apresentado sem contexto, sem enquadramento e numa tentativa de descredibilizar quem até aqui trabalhou arduamente para construir a maior e mais relevante instituição social do concelho.

É importante destacar — como referi aquando da conclusão da minha missão — que as contas de 2023 foram aprovadas com um saldo positivo de 476 mil euros, refletindo uma melhoria de mais de 873 mil euros. Na altura e segundo os responsáveis pela gestão financeira da Santa Casa de Vila de Rei, em declarações ao mediotejo.net, registou-se também um aumento do ativo corrente em 300 mil euros e uma redução do passivo de 6,3 para 5,3 milhões de euros. Naquela data, o património da Misericórdia estava avaliado em cerca de nove milhões de euros.

Uma construção sólida ao longo de décadas

Quando assumi a provedoria em 1998, a Santa Casa era uma instituição pequena, com poucas valências e alcance limitado. Ao longo de mais de duas décadas, com o apoio de equipas técnicas competentes e colaboradores incansáveis, transformámos a Santa Casa da Misericórdia de Vila de Rei numa referência regional e mais tarde nacional. Construímos infraestruturas, ampliámos serviços, contratámos pessoal qualificado e, acima de tudo, respondemos a necessidades sociais reais, numa terra onde o envelhecimento da população e a desertificação humana exigem respostas públicas e sociais fortes.

Este crescimento não foi feito de improviso nem ao acaso.

Tudo foi feito com o objetivo de melhorar a vida dos utentes e dos colaboradores, estes que em grande parte são do concelho. Para isso, procurei e recorri sempre a todos os recursos que tínhamos à disposição em cada momento, candidaturas a fundos comunitários e empréstimos autorizados pelas entidades competentes, incluindo a Segurança Social.

Sim, existe dívida. Mas essa dívida está associada aos investimentos feitos, nomeadamente:

  1.  Em 2000 foi inaugurada a Casa do Idoso (49 camas), com um valor de investimentos superior a 550 mil euros.
  2. Em 2006 efetuou-se a compra do terreno e início da construção do edifício onde ficou instalada a Secretária-geral, cujo valor construção ascendeu a cerca de 155 mil euros.
  3. Em 2008 e 2009 efetuaram-se obras de ampliação no Lar de Sto. António, com um investimento aproximado de 200 mil euros, o qual passou a ter uma capacidade de 60 camas.
  4. Em 2010 foi inaugurada a Unidade de Cuidados Continuados com uma capacidade de 68 camas (média e longa duração), com um custo superior a 3, 1 milhões euros.
  5. Em 2017 foi concluída a construção da 1ª fase do Centro Geriátrico, com um custo de 3,15 milhões de euros e uma capacidade de 60 camas.
  6. Em 2022, conclui-se a 2ª fase (ampliação) do Centro Geriátrico, com um investimento de cerca de 1 milhão de euros, ficando com uma capacidade total de 117 camas.

Numa região onde os empregos escasseavam, estes investimentos permitiram que hoje a Santa Casa empregue cerca de 250 pessoas e sirva mais de 350 utentes com dignidade.

Uma instituição viva, não à beira do colapso

É profundamente injusto – e até desleal – insinuar que a instituição estivesse à beira da falência. As contas foram sempre auditadas, os relatórios entregues dentro dos prazos legais, e todas as dificuldades pontuais foram comunicadas atempadamente às entidades públicas. Um exemplo disso foi o pedido de apoio ao Fundo de Socorro Social, que foi aprovado precisamente por apresentar um plano de reequilíbrio credível, realista e assente em medidas concretas.

A sustentabilidade financeira da Santa Casa estava a ser tratada com seriedade e responsabilidade com a implementação de medidas fundamentadas e comunicadas internamente. Entre as medidas tomadas/previstas, encontrava-se uma redução controlada das despesas, incluindo a difícil decisão de encerrar o jardim de infância motivada pela fraca procura em virtude de haver no concelho a mesma resposta por parte da Câmara Municipal mas sem encargos para os encarregados de educação.

A transição para os novos Orgãos Sociais foi democrática e foi respeitada. Duas listas se candidataram e a lista encabeçada pelo Dr. Ricardo Aires venceu. A ele e à sua equipa caberá agora a responsabilidade de gerir a instituição com a mesma seriedade com que sempre a tratámos.

Mas responsabilidade implica também rigor na palavra e justiça na avaliação do passado.

Desejo sinceramente que a atual Mesa Administrativa consiga dar continuidade ao trabalho feito e melhorar tudo o que for possível.

Com serenidade e consciência tranquila, deixo este testemunho à comunidade.

A verdade pode não ser imediata — mas é sempre duradoura”.

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