Foto: proTEJO

As migrações estão na ordem do dia, quando homens, mulheres e crianças procuram a sobrevivência em países que olham como mais seguros e que lhes oferecem melhor bem-estar, mas também acontecem na natureza por motivos muito similares.

As aves atravessam os meridianos de sul para norte em busca de refúgios com alimento e boas condições climáticas para a sua nidificação, alojando-se em grande número no nosso maravilhoso estuário do Tejo, um dos maiores da Europa.

Por sua vez, os peixes deixam o oceano Atlântico adotando o estuário do Tejo para berçário das suas progenituras ou escolhendo a aventura de migrarem rio acima, até ao final dos últimos 120 quilómetros de rio Tejo livre de barreiras artificiais.

A migração dos peixes Tejo acima ocorre para se reproduzirem nas suas praias fluviais de cascalho, que ajuda a desova nesses locais mais apropriados à sua sobrevivência, em termos de temperatura, de proteção ou de alimentação.

No entanto, existe uma relevante diferença entre as migrações humanas e as migrações de espécies!

A migração das espécies encontra-se inscrita nos seus cromossomas e rege-se unicamente pela ordem natural dos benefícios de alimentação e reprodução que se sobrepõem aos riscos de exposição aos predadores, enquanto que os seres humanos fogem da guerra e da fome, da destruição que se autoinfligem e da apropriação gananciosa de riqueza que certos grupos impõem a outros.

Em boa verdade, o ser humano desde sempre que se apropria de recursos erguendo muros ou arame farpado em fronteiras que dividem povos, etnias e territórios, limitando a sua própria migração e colocando em risco de vida os seus semelhantes migrantes.

Mas não se fica apenas por aqui, prejudicando as restantes espécies com a construção de barreiras artificiais (autoestradas, canais, turbinas eólicas, barragens, etc.) que dificultam ou impedem os seus movimentos migratórios por terra, ar e água, colocando em causa a sua sobrevivência.

A água flui pelo leito dos rios e ribeiros, numa “migração” da nascente até ao estuário e ao mar, fascinando, inspirando e rejuvenescendo o espírito daqueles que a contemplam.

Nesta contemplação de bem-estar interior esquecemo-nos muito que esta “migração” arrasta no seu curso os elementos essenciais às espécies animais, os nutrientes que as alimentam, as substâncias químicas que as estimulam a migrar rio acima, os sedimentos que fortalecem as margens e a costa, como veias da terra que transmitem os elementos de cada canto da bacia às espécies que a povoam.

Infelizmente, os benefícios da “migração” da água apenas ocorrem sem barreiras artificiais nos últimos 120 quilómetros de rio Tejo livre, de Abrantes até Lisboa, enquanto não cedermos ao facilitismo de construir novas barreiras para regar intensivamente com quase toda a água do rio, quando podemos captar diretamente alguma da água do rio sem necessitarmos de novas barreiras.

Se cedermos, o rio ficará completamente estagnado e regularizado, agravando-se a má qualidade da água, acentuando-se as perdas de água por evaporação, reduzindo-se a chegada de água ao estuário e ao mar, em suma, exponenciando-se a sobre-exploração do rio Tejo.

Consciente de tudo isto resolvi questionar o principal afetado, o rio Tejo.

“Tejo, se pudesses, que farias para assegurar o teu bem-estar ecológico e a Vida daqueles que de ti dependem?”

A resposta taxativa não se fez esperar: “MIGRAVA!!!”

O Tejo e a nossa Vida merecem mais!

Paulo Constantino

Dirigente ambientalista

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