Dos 16 refugiados da Ucrânia que chegaram a Sardoal em maio do ano passado, apenas três permanecem no concelho e, neste momento, “não estão com apoio” do município, deu conta ao mediotejo.net o presidente da Câmara Municipal de Sardoal, Miguel Borges.
“Temos alguns refugiados que encontraram emprego e estão a trabalhar. Têm a sua casa, o seu espaço, o seu trabalho, pelo menos dois deles na área da construção civil.” Os refugiados chegados a Sardoal em fuga da Ucrânia conseguiram “vida autónoma” no final de outubro de 2022, acrescentou.
Sardoal acolheu inicialmente 16 refugiados, rapidamente diminuiu para 15 e, três meses após a invasão da Ucrânia pela Rússia, contavam-se 13 pessoas no concelho, tal como o mediotejo.net noticiou, encaminhados pelo Alto Comissariado para as Migrações. Duas casas do município foram desde logo o porto de abrigo de cinco paquistaneses, um turco, um nigeriano e seis indianos, todos homens, maioritariamente chegados de Kharkiv e Kiev.
Desses refugiados “cinco estudavam medicina na Ucrânia e neste momento estão a prosseguir os seus estudos na faculdade de Medicina de Lisboa. Por isso, foram todos encaminhados, sempre em articulação com o Alto Comissariado para as Migrações”, sublinhou o autarca, esperançado que após a licenciatura regressem como médicos a Sardoal. “Era bom para a nossa região”, disse a sorrir.
Os restantes, ou seja cinco, “foram para outros países porque tinham lá ligações familiares ou de amizade”, acrescentou.
Miguel Borges deu conta de um processo de integração na comunidade “muito fácil” apesar da barreira linguística. “Mas para que nada falhasse na comunicação temos um tradutor ao serviço do município”, explicou.
Lembra que o processo “teve várias fases”, tendo o Município dado “todo o apoio; no âmbito da saúde, encaminhámos para o centro de emprego, fazendo registos, e a partir daí entraram naquela situação, como qualquer português que está no desemprego, com subsídios ou Rendimento Social de Inserção – que tinham direito – e tiveram formação de língua portuguesa numa parceria com o Instituto do Emprego e Formação Profissional, ou seja, as várias entidades prepararam os refugiados para terem esta autonomia de vida que agora têm”.
Segundo o presidente da Câmara, permaneceram por terras sardoalenses “sempre de forma pacífica”, recordando “alguns relatos que nos deixaram, algumas comunicações, algumas mensagens manifestando o agrado e a grande satisfação não só como a Câmara os recebeu, mas também a população”.
No entanto, Miguel Borges não passa ao lado daquilo que considerou “um choque inicial para algumas pessoas, sem razão absolutamente alguma. Muito pelo contrário! Houve alguma mau estar de uma parte mínima da população… mínima, mas com alguma responsabilidade”, observou.
O autarca lamenta e confessa “algum constrangimento” pelo facto dessas pessoas estarem à espera de ucranianos e terem chegado pessoas da Ásia ou de África. “Para nós não interessa, são refugiados tenham eles a cor de pele que tenham! Vieram através do Alto Comissariado para as Migrações para os Refugiados e foram bem recebidos. São refugiados e os refugiados são todos iguais”, reforçou.
“Houve alguma mau estar de uma parte mínima da população pelo facto de estarem à espera de ucranianos e terem chegado pessoas da Ásia ou de África. Para nós não interessa, são refugiados, tenham eles a cor de pele que tenham!”
Miguel Borges
Acrescenta que o processo de integração na faculdade de Medicina foi igualmente “fácil”, no cumprimento da legislação. “Articulámos com a reitoria da Universidade e com o Alto Comissariado e no presente ano letivo retomaram as suas aulas de Medicina”.
Portugal atribuiu mais de 57 mil proteções temporárias a pessoas que fugiram da guerra na Ucrânia e cerca de um quarto foram concedidas a menores, informou o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).
A última atualização feita pelo SEF dá conta de que desde o início da guerra, a 24 de fevereiro de 2022, Portugal concedeu 57.119 proteções temporárias a cidadãos ucranianos e a estrangeiros que residiam na Ucrânia, 33.386 dos quais a mulheres e 23.733 a homens.
O SEF avança que o maior número de proteções temporárias concedidas continua a ser registado em Lisboa (12.341), Cascais (3.562), Porto (2.906), Sintra (1.927) e Albufeira (1.414). Aquele serviço de segurança acrescenta que foram autorizados pedidos de proteção temporária a 14.014 menores, representando cerca de 25% do total.
O pedido de proteção temporária a Portugal pode ser feito através da plataforma ‘online’ criada pelo SEF, disponível em três línguas, não sendo necessário os adultos recorrerem aos balcões deste serviço de segurança. No entanto, no caso dos menores, é obrigatória a deslocação a um balcão do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras para que seja confirmada a identidade e filiação.
A ofensiva militar lançada pela Rússia contra a Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022 foi condenada pela generalidade da comunidade internacional, que tem respondido com envio de armamento para a Ucrânia e sanções políticas e económicas a Moscovo.
A invasão russa causou, até agora, a fuga de mais de 14 milhões de pessoas – 6,5 milhões de deslocados internos e mais de 7,9 milhões para países europeus –, de acordo com os mais recentes dados das Nações Unidas, que classificam esta crise de refugiados como a pior na Europa desde a II Guerra Mundial (1939-1945).
As Nações Unidas consideram confirmados 6.952 civis mortos e 11.144 feridos, sublinhando que estes números estão muito aquém dos reais.
*C/Lusa
NOTÍCIA RELACIONADA
