Refugiados da Ucrânia acolhidos em Sardoal. Créditos: mediotejo.net

A cidade de Irpin, na Ucrânia, a cerca de 10 km de Bucha, foi um dos principais palcos da guerra, antes das tropas russas retirarem do local. Contava com 62 mil habitantes antes do início do conflito. Usama, de 21 anos, era um deles. O jovem paquistanês frequentava o primeiro ano de medicina na universidade. Agora está em Sardoal, a milhares de quilómetros de distância da destruição, lugar para onde não quer regressar mesmo quando chegar a paz.

“O local, a casa onde vivia na Ucrânia foi totalmente destruída. Mas quando a guerra começou consegui escapar”, conta ao nosso jornal. Agora só pensa em continuar os estudos em Portugal porque na Ucrânia “não resta nada”, lamenta.

Num improviso organizado Sardoal acolheu inicialmente 16 refugiados sendo agora 13 chegados da Ucrânia, encaminhados pelo Alto Comissariado para as Migrações. Duas casas do município são desde então o porto de abrigo de cinco paquistaneses, um turco, um nigeriano e seis indianos, todos homens, maioritariamente chegados de Kharkiv e Kiev. Uma das casas encontrava-se totalmente mobilada e a outra, entretanto, apetrechada com produtos da Loja Social, num trabalho do serviço de Ação Social da Câmara mas também do Aprovisionamento, da Contabilidade e dos Serviços Operacionais, refere Sandra Esteves, a técnica municipal responsável pelo acolhimentos dos refugiados no concelho.

Sarfraz Ahmad, paquistanês, tem 22 anos e tal como Usama é estudante de medicina mas em Uzhhorod, uma cidade perto da fronteira com a Hungria, Eslováquia e Polónia. Serão cerca de 20 mil os estudantes paquistaneses na Ucrânia, devido a protocolos entre as várias universidade e o Paquistão.

O jovem conseguiu sair do país “quase uma semana depois” da guerra ter começado, a 24 de fevereiro. Sarfraz fugiu, cruzando de comboio a fronteira com a Hungria. “Para nós [o jovem e alguns amigos] foi fácil escapar porque não estávamos numa zona problemática como Lviv ou Kiev”. Mas admite que o dia 3 de março “foi complicado”.

Explica que a viagem até Portugal “de certa maneira foi difícil”. Transportava consigo o mínimo, materializado numa pequena mala com roupa e documentos pessoais. Da Hungria, onde esteve dois dias acomodado num hotel pela embaixada, entrou na Áustria onde permaneceu cinco dias num templo Sikh, religião que não abraça mas que lhe abriu as portas num país totalmente desconhecido.

Antes disso, na Hungria, um dos amigos ao passar a fronteira foi detido. Sarfraz diz desconhecer o motivo, até porque o rapaz tinha consigo os documentos. Nem ele falava húngaro nem os húngaros em serviço na fronteira falavam russo, língua aliás que quase todos os refugiados no Sardoal dominam, com exceção do nigeriano. Curiosamente nenhum deles fala ucraniano.

Refugiados da Ucrânia acolhidos em Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Sarfraz Ahmad conta que o amigo ficou preso durante um dia num centro de detenção para emigrantes, mas não atribui a detenção a questões raciais, uma vez que igualmente ucranianos foram detidos e também outros paquistaneses, reconhece, embora esses sem passaportes que, na urgência da fuga, deixaram os documentos nas universidades. O grupo teve de esperar por ele na estação de comboios, local onde os jovens passaram uma noite.

A ajuda humanitária chegou, fornecendo comida, cobertores e roupas, sendo que as tendas de acolhimento foram montadas por indianos.

Na Ucrânia ficou a vida como a conheciam. “Nunca tivemos este tipo de experiência antes. Tudo é novo e muito difícil”, confessa. Sabe que a cidade onde morava “não está completamente destruída, embora todas as cidades da região com aeroportos tenham sido alvo de ataque russos. A sirenes tocavam repetidamente”, num sinal de antecipação de bombardeamentos .

Logo na primeira semana de guerra a universidade, onde estudavam também cerca de 500 indianos, evacuou todos os estudantes e solicitou à embaixada, na Hungria, apoio no transporte, tendo esta enviado autocarros para a fronteira.

Sarfraz tinha acesso a internet e a comunicações, conversava com amigos estudantes de Ciência Política e seguia atentamente as notícias e portanto, quando a guerra rebentou não foi surpresa. “Sim, esperávamos por esta guerra, mas na região Este do país como em 2014 e não no Norte ou no Centro da Ucrânia. Esperávamos por causa da guerra no Donbass. Se em 2014 o ataque teve pouca expressão militar agora eram milhares de militares estacionados junto à fronteira, desde a Bielorrússia, a Norte. Dois dias antes da guerra vi uma entrevista do embaixador russo na América, garantindo que não iam atacar. Os russos sempre negaram a situação até ao dia da guerra”, recorda.

Como paquistanês, ataques e explosões desde a infância é quase algo banal, ainda assim afirma temer a guerra desde sempre, particularmente devido à guerra no Afeganistão e suas consequências no Paquistão.

Presentemente, o maior medo prende-se com a continuidade dos estudos. Sarfraz Ahmad está no terceiro ano de medicina. “Foi para estudar que fomos para a Ucrânia”. E a escolha de Portugal também está ligada a essa vontade de ser médico. “No Paquistão estudar medicina é muito complicado. As vagas são poucas e é muito caro. Não podemos ir para o Paquistão. Tivemos de escolher um país da Europa onde nos fossem dadas as melhores oportunidades e Portugal oferecia essa possibilidade”.

Esse processo de integração na universidade, em Lisboa ou na Covilhã já está em curso. Contudo Sandra Esteves teme que o processo “não seja simples” apesar de estar previsto na lei, e portanto já deu conhecimento dessas dificuldades ao Alto Comissariado para as Migrações.

“Gosto de Portugal, não há qualquer tipo de racismo, somos muito bem recebidos, as pessoas são sorridentes. Lembro-me que na Áustria, quando viajámos de comboio, as pessoas tinham um ar triste, fechado, não percebo porquê”, nota.

Para Sarfraz a pior memória que tem da guerra, embora não tenha assistido a destruição em larga escala, é a urgência da fuga. Lembra um relato de um amigo indiano, no aeroporto já na linha de verificação do passaporte quando “houve um ataque. As pessoas largaram tudo para fugir, deixando para trás os passaportes, os cartões de embarque. Na rua as longas filas, no táxi andavam três ou quatro quilómetros e o taxista pedia 400 dólares. De repente os preços aumentaram. Longas filas para o combustível e na Eslováquia, na cidade perto da fronteira, as pessoas reservavam os hotéis por dois ou três meses. Foi realmente a pior situação”, conta.

De Portugal recolhe só boas memórias. Garante que não se esqueceu de nada, nem de Lisboa “onde as pessoas realmente ajudaram”, nem em Sardoal. “Quando entrámos na casa, o jantar estava na mesa e um cartaz com a palavra ‘Welcome’. Tínhamos cobertores, pasta de dentes, escova de dentes e muitas laranjas”, lembra a sorrir. Agora, o tempo é aproveitado a dormir ou a ter aulas online embora de forma irregular porque alguns professores também fugiram do país. Depois da guerra? “Não sei se volto à Ucrânia”.

Refugiados da Ucrânia acolhidos em Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Quem está certo do não regresso é Manoj Malakar. O indiano de 38 anos estuda línguas na Ucrânia, na universidade de Kharkiv, embora no dia 24 de fevereiro estivesse em Kiev. Perto da hostal onde estava hospedado existia um campo militar. “Ficámos muito preocupados. Às 9h00 deixámos a hostal e vi os militares ucranianos a destruir documentos, queimando-os. Nesse momento percebi que a guerra tinha começado. Ao mesmo tempo ouvi as sirenes e o som de ataques com misseis. Fiquei com medo. A minha família ligou-me a dizer que a guerra tinha começado e havia pouco tempo para fugir. Naquele momento não conseguimos pensar, queremos fugir dali. Para voltar à Índia não tinha dinheiro para o bilhete. Na verdade não tínhamos opções, os voos foram cancelados”.

Também para Manoj a guerra não foi uma surpresa. Acompanhava as noticias transmitidas no seu país e recorda o aviso dos pais para sair da Ucrânia. Saiu, mas só depois da guerra ter iniciado. “Andei 45 ou 50 km a pé de Lviv até à fronteira com a Polónia. Um dia a caminhar, sem comida, levando comigo apenas a roupa e alguns documentos importantes”, relata.

Manoj Malakar e os amigos decidiram escolher Portugal “por ser o país mais seguro” no sentido de ser o mais distante, situando-se na ponta mais ocidental da Europa. “Todos os países perto da Ucrânia estão em perigo”, acredita porque “quem ajudar é um alvo. Portugal também ajuda mas é muito longe”, justifica.

Portanto, a ideia é arranjar um emprego e fixar raízes em Portugal, trazendo a família da Índia, a mulher e uma filha de 14 anos. “Gosto de Portugal, é muito tranquilo, e especialmente de Sardoal que é uma vila religiosa”.

Estabelecer-se em Portugal também é a ideia de Mehmet Ekmen, um empresário turco de 60 anos que ficou sem o seu investimento, de 50 mil dólares, em Kiev. Emigrou para a Ucrânia há 7 anos, para trabalhar na indústria têxtil e acabou por abrir uma loja de roupa. A família permanece na Turquia.

“A loja está fechada. Os meus vendedores foram para a França e para Inglaterra. Quero abrir um negócio em Portugal mas antes tenho de aprender a língua. Na Ucrânia falava russo”, refere ao mediotejo.net.

Chegou a Portugal muito pela recomendação de amigos que lhe garantiram ser um país ideal para avançar com um negócio. Mas “neste momento tenho zero capital, que ficou na Ucrânia. Com esta idade perdi tudo e tenho de recomeçar do zero. Estou muito preocupado, não durmo de noite só a pensar no meu futuro. Se a guerra acabar, se houver um lugar seguro talvez regresse à Ucrânia, caso contrário fico em Portugal”, assegura.

Refugiados da Ucrânia acolhidos em Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Onyeogo Sanday Emeke trabalhava há dois anos na construção civil, em Kiev. É nigeriano e tem 45 anos. Quando os russos invadiram a Ucrânia fugiu pela fronteira da Hungria mas quando a atravessou tentaram bloquear-lhe a entrada. “Disse; não! Por isso escolhi Portugal. Disseram-me que era lindo, não havia racismo e que os portugueses gostavam das pessoas”, refere. No entanto, a viagem não foi pera doce. “Encontrei dificuldades. Por causa da estrada, pedíamos transporte gratuito. Foi complicado porque, embora tivesse passaporte, só tinha a roupa do corpo”.

Sanday confessa-se “apaixonado por Portugal” e está decidido a ficar por cá, neste “país com lindas paisagens” e onde “fui bem recebido”, embora a família esteja na Nigéria, com quem falou uma única vez desde que chegou a Portugal para dizer que estava seguro, “não há dinheiro para ligar mais vezes”, nota. Agora, em terras sardolenses passa o tempo a passear e a jogar futebol com esperança de, entretanto, encontrar um trabalho.

Na Ucrânia “a empresa ficou destruída. A pior imagem que guardo na memória é de bombas a cair em Kiev, ver amigos e colegas mortos na rua. Tive sorte porque não morri naquele cenário”. Ao contrário dos restantes refugiados, o nigeriano diz que “ninguém esperava aquela guerra. Senão tínhamos saído antes. Pensámos que Putin seria sensato”.

Estava informado da guerra no Donbass mas “não esperávamos esta escalada do conflito e que chegasse a este ponto”, diz.

Também instalado numa das duas casas municipais de Sardoal está o indiano Himanshu Jasodani, chegado de Kharkiv. Aos 33 anos o informático especializado em software e com fascínio por inteligência artificial traça um plano de futuro longe do seu país natal e do país que escolheu para fazer o mestrado que não conseguiu concluir por causa da guerra. Agora espera conseguir trabalhar até setembro e depois retomar os estudos.

Himanshu acompanhava de perto a situação política na Ucrânia. “Ouvia o presidente Putin, e o sr. Scholz e conversava com os locais. Todos os anos os russos faziam exercícios militares junto à fronteira da Ucrânia, com regularidade. Portanto, esperava esta guerra e ao mesmo tempo não esperava, uma situação de 50% sim e 50% não”.

Mas naquela madrugada, era o único acordado na hostal onde morava e assistia às notícias “quando o presidente Vladimir Putin ordenou uma operação militar especial na Ucrânia. Pouco depois o bombardeamento começou, o edifício a tremer, as janelas a tremer. Sabia que não era o normal procedimento de exercícios militares”.

Essa certeza levou-o até ao seu quarto e aos outros quartos a acordar todos os hospedes. “Dirigimo-nos para a estação de comboios, mas as filas eram enormes, três horas, e quando chegámos à estação disseram-nos que os bilhetes tinham sido todos vendidos para os próximos três dias, até 28 de fevereiro. Voltámos para o hostal para falar sobre o que iríamos fazer. Acabámos por ficar lá porque não tínhamos opção”.

Entretanto a situação agudizou-se e chegaram as recomendações de abandono do local. “Fomos para o metro e ouvíamos continuadamente as explosões até que conseguimos um comboio para Khmel’nyts’kyi a 150 km de Lviv”, conta.

Himanshu teve a vida um pouco facilitada por ter acompanhado de perto a situação ucraniana e dias antes ter trocado a moeda ucraniana por dólares, uma vez que os murmúrios de uma possível guerra já alertavam para a troca da moeda local. “Ajudou-me imenso porque consegui pagar o táxi e outras coisas”.

Mas os problemas prolongaram-se mesmo depois de ter conseguido atravessar a fronteira para a Polónia. “Eu e o meu amigo perdemos a memória porque estivemos 5 ou 6 dias sem dormir e a comer mal. Estava muito frio, sete graus negativos e vento”.

No entanto, se fosse possível nesta história haver finais felizes, encontraram “um apoio fantástico dos polacos. Saímos de Kharkiv a 4 de março e demoramos sete dias até à fronteira”, refere.

Da Polónia partiu para a Suíça e depois para o nosso país. “Escolhi Portugal porque é muito longe dos perigos da Ucrânia e permite que prossiga os estudos. Gostava de estudar em Lisboa ou no Minho onde estão boas universidades”.

Para estes refugiados da Ucrânia está em curso o processo para obtenção do Rendimento Social de Inserção na Segurança Social. Apenas para dois dos 13 esse processo ainda não está em desenvolvimento. Todos encontram-se inscritos no Instituto do Emprego e Formação Profissional e na próxima semana começam em aulas de português.

O Gabinete de Apoio ao Empresário de Sardoal também desenvolve contactos para a colocação dos seis refugiados que querem trabalhar. Todos têm estatuto de refugiado e apoios sociais como acesso ao Serviço Nacional de Saúde, tendo já realizado um rastreio à tuberculose, registo na Segurança Social e registo na Autoridade Tributária.

Refugiados da Ucrânia acolhidos em Sardoal com a técnica municipal Sandra Esteves. Créditos: mediotejo.net

A Rússia iniciou na madrugada de 24 de fevereiro uma ofensiva na Ucrânia que causou já a fuga de mais de 13 milhões de pessoas de suas casas – mais de oito milhões de deslocados internos e mais de 5,6 milhões para os países vizinhos -, de acordo com os mais recentes dados da ONU, que classifica esta crise de refugiados como a pior na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Também segundo as Nações Unidas, cerca de 13 milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária na Ucrânia.

A invasão russa – justificada pelo presidente russo, Vladimir Putin, com a necessidade de “desnazificar” e desmilitarizar a Ucrânia para segurança da Rússia – foi condenada pela generalidade da comunidade internacional, que respondeu com o envio de armamento para a Ucrânia e a imposição à Rússia de sanções que atingem praticamente todos os setores, da banca ao desporto.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.