“Não. Não é só turismo. É também preservação e tradição”. A ideia é deixada por António Louro da ACROM – Associação Cultural das Rotas de Mouriscas, que a partir da árvore mais antiga de Portugal, a oliveira do Mouchão, em Cascalhos, levou-nos pelo Roteiro das Oliveiras Centenárias, de braço dado com o projeto Apadrinha Uma Oliveira, sempre junto ao Tejo.
A Rota das Oliveiras Centenárias, que está para nascer na freguesia de Mouriscas (Abrantes) conta presentemente com 15 oliveiras de proprietários que aderiram ao projeto, mas “são já 80 oliveiras potencialmente milenares identificadas”, diz o responsável.

Para o poder comprovar, durante a caminhada a ACROM realizou medições a alguns exemplares, com o objetivo de tentar, junto da Universidade de Trás-os-Montes (UTAD) que desenvolveu o sistema de datação das oliveiras, comprovar a idade de mais uma oliveira, tal como aconteceu com a do Mouchão, com mais de 3.350 anos.
A medição na realidade são três; na base, a meio da árvore e uma medida vertical até ao ponto onde nascem as pernadas.
A oliveira de Sérgio Fernandes, no Casal dos Cordeiros, foi uma das oliveiras medidas, e um exemplar especial tem uma base de 8,50 metros (de perímetro), 2,30 metros na vertical até às primeiras pernadas e 6,00 metros a meio (de perímetro).
Porém, o processo “é mais complexo do que isto”, explica António Louro, as medidas da árvore não bastam. Pelos “anéis, vários diâmetros, conseguem saber a idade”, disse afastando o teste através de carbono 14 por ser “muito invasivo”, considera. A ACROM pretende, para já, mandar analisar uma única oliveira, no caso aquela que apresentar medidas mais relevantes, uma vez que o teste de datação das oliveiras custa cerca de mil euros, uma valor “elevado” para a Associação.



A Rota das Oliveiras Centenárias, que percorremos no domingo, dia 23 de março, é um percurso pedestre de pequena rota, calcorreámos cerca de cinco quilómetros, ainda sem marcas indicadoras, embora as árvores cedidas ao projeto Apadrinha Uma Oliveira estejam todas identificadas.
O grupo, com cerca de 50 caminhantes, partiu da Oliveira do Mouchão em direção à rua da Fonte Cagada, uma fonte de mergulho bastante célebre naquela freguesia precisamente pelo nome caricato. Depois passámos pelo Beco das Melas. No caminho, os cursos de água embelezam o verde dos campos e acrescentam-lhe o som próprio da rapidez e do bater nas pedras. As azenhas também compõem um ramalhete, entretanto, emoldurado por uma tímida primavera.
A estrada leva-nos até Alojas, junto aos portões do empreendimento turístico Colinas do Tejo. Passámos pelo olival do mourisquense Eduardo Grácio, com muitos exemplares junto ao rio Tejo, ao cuidado do Apadrinha Uma Oliveira que “tem como objetivo recuperar as oliveiras que estão abandonadas em Abrantes”, referiu ao nosso jornal Jéssica Oliveira.

Devido ao envelhecimento da população e da migração para as grandes cidades “várias oliveiras, tanto nas Mouriscas como noutras freguesias foram sendo abandonadas e este é o nosso objetivo principal. O projeto nasce com essa intenção, com o apoio do projeto primo, em Espanha, e com o apoio da Endesa que com o encerramento da Central [Termoelétrica do Pego] assumiu o compromisso social e ambiental do Fundo de Transição Justa. Também temos o objetivo de criar postos de trabalho”, indicou.
Isto porque “os olivais têm de ser cuidados todos os dias. Diariamente estão aqui colegas nossos a tratar das oliveiras. Neste momento temos quatro mil oliveiras a serem cuidadas espalhadas por 60 hectares de parcelas de terreno e já empregamos cinco pessoas a tempo inteiro, há alturas, por exemplo da campanha ou da poda, em que empregamos trabalhadores temporários, quando há mais trabalho no olival”, explicou.
A ideia passa por criar uma comunidade de “padrinhos” sejam pessoas ou empresas, no sentido de apoiar o projeto e a sua missão de cuidar dos olivais, cedidos pelos proprietários.
“Fazem um contrato connosco, o olival continua a ser dos proprietários. Dependendo do estado do olival, a partir do sexto ano se o olival estiver em muito mau estado ou do segundo ano se não estiver, o proprietários recebe uma percentagem do azeite que o olival produz. Para além disso todo o terreno é tratado, além das oliveiras”.





Na parceria com a ACROM, pretende-se aliar o trabalho desenvolvido pelo projeto Apadrinha Uma Oliveira a uma rota turística pensada pela Associação.
“Muito do nosso trabalho é nas Mouriscas, por isso temos todo o interesse em apoiar o desenvolvimento local e juntámo-nos à ACROM. Há algum tempo que estamos a preparar esta rota, a ideia é da ACROM e temos todo o interesse em ajudar a desenvolver a ideia. Isto é quase como um ‘teste drive’ da rota, depois todas as oliveiras vão estar sinalizadas e, posteriormente, a rota pode crescer para o Norte da freguesia. Isto é só um bocadinho daquilo que a rota pode ser”, conclui Jéssica Oliveira.

No horizonte, a alta chaminé da Central Termoelétrica do Pego lembrando a coexistência entre o Homem e a Natureza. A área apresenta-se como detentora de referências que retratam uma atividade económica assente na agricultura. As quintas e as casas guardam charcos ou poços, e as figueiras, que caracterizam o território.
O cultivo da terra, e a ruralidade, deixa marcas na paisagem, não só pelo tipo de construção do casario para habitação disperso pela freguesia, como pelas unidades de apoio à agricultura (lagares, azenhas, fornos).
Aliás, Mouriscas é terra de fornos de cerâmica, e os vestígios dessa história ainda por lá permanecem em ruínas. Um passado no qual as famílias trabalhavam as telhas. Ali se fabricava o tijolo de burro e as telhas mouriscas ou de cana que, noutros tempos, iam Tejo abaixo até Lisboa. “A maior parte das casas dos bairros tradicionais de Lisboa têm telhas feitas em Mouriscas”, lembra um dos caminheiros.

No fim da Travessa Casal dos Cordeiros, virámos à direita, passámos pela Rua do Tejo , descemos a Rua da Estação e virámos à esquerda, em caminho paralelo à linha do comboio, ou seja, da Linha da Beira Baixa. A meio encontrámos um expositor explicativo do percurso Caminho do Tejo, com indicações e referências sobre o Canal de Alfanzira, que o grupo não pode visitar devido à “Tejada”, uma expressão muito utilizada quando o caudal do rio vai grande ou causa cheias.
De regresso à oliveira do Mouchão, subimos a Rua da Estação, observámos e fotografámos as oliveiras imponentes, e virámos à direita para a Rua da Lomba Fundeira.
Para além dos figos, coexiste a produção de azeite. No decorrer deste percurso encontrámos basicamente a variedade galega e zambujeiro, e será natural, ouvir e ver, nos meses de novembro a dezembro, os ritmos da apanha da azeitona, e perceber o percurso que a azeitona realiza desde a apanha até à obtenção do azeite. Ou pode surpreender-se daqui a dois meses, com o percurso de maio a junho, em que o verde do olival estará pintado com o branco da flor da oliveira.
Do legado da ocupação humana da terra e de memórias do quotidiano, subsistem ainda fragmentos de construção de identidades, na Sifameca, onde as ceiras e os capachos são fruto de produção artesanal, no Grupo Etnográfico os Esparteiros ou ainda na Cerâmica Tejo, a única fábrica que ainda faz tijolo de burro em Mouriscas.
Pelo meio da biodiversidade e das tradições ainda convivem os espaços de religiosidade e a gastronomia, como as passas fritas, que definem a unicidade deste território. Esperavam por nós, as passas, bem como a prova de azeites da região, no final da caminhada, num repasto oferecido pela Tagus – Associação para o Desenvolvimento Integrado do Ribatejo Interior.


















