Cíclica e inevitavelmente, o espetáculo eleitoral sai à rua, animando a, quantas vezes circunspeta, sisudez quotidiana.

Os candidatos ao poder e os candidatos no poder, envergam de novo roupagens democráticas e ensaiam expressões sorridentes, dando corpo à necessidade premente de conquistar, ou preservar, um eleitorado cada vez mais distante e alheado.

O “pão e o circo” envolvem, de novo, os militantes do costume. Aqueles, poucos, que são fregueses habituais e que, na sua adesão emocional, não têm lugar pressupostos de dúvida.

Esses e aqueles (bem mais perspicazes) que aí veem uma excelente oportunidade de se mostrar ou afirmar e sabem ser, este, o momento de estabelecer alianças, congregar seguidores, demonstrar apoios, mostrar disposições, afirmar convicções e, de alguma forma criar as condições necessárias e, eventualmente suficientes, para um futuro (ou presente) gratificante.

Mas, todos eles, são hoje escassos.

Longe vai o tempo dos grandes comícios que enchiam praças e avenidas.

Das grandes causas e desígnios, mais ou menos utópicos, que nos faziam sentir estar na antecâmara de um novo mundo: eventualmente mais justo, mais solidário, mais equitativo.

Hoje são os suficientes para um jantar de campanha em que à proximidade pessoal (que se espera proporcionadora de contactos desejáveis) se junta a satisfação comensal que abre corações e tolda disposições. Mas para pouco mais.

A não ser que o fator agregatório seja algum artista da Rádio, TV, Disco (ou afim) e, deste modo, transcenda qualquer motivação política.

Naturalmente, nos partidos de poder, a mais numerosa clientela atual (e potencialmente futura) contribui, pelo menos, para disfarçar maiores insuficiências.

Afinal, a ascensão partidária e o acesso direto aos cargos públicos (e indiretamente a cargos privados) é, hoje por hoje, um dos mais eficazes processos de progressão de carreira (a que alguns chamam “carreirismo”) e portanto, estar presente nestas alturas é, naturalmente, obrigatório. Como diz o povo: “quem não aparece; esquece!”

Nas iniciativas (hoje, quase em família) repetem-se, de novo, discursos anteriores com escassas alterações de forma e crónicas insuficiências de conteúdo.

A conjunturalidade domina, as promessas campeiam, as acusações aos adversários sustentam compromissos de melhoria se, finalmente, os resultados forem favoráveis ou, tão favoráveis que permitam garantir executivas autonomias.

As oratórias dirigidas apenas aos jornalistas (os outros servem, simplesmente, de cenário panegírico) parafraseiam o tantas vezes discursado. A sensação de “déjà vu” é omnipresente.

A falta de imaginação e criatividade (e, afinal, a falta de ideias) tende a incrementar-se, também, pela limitação de mandatos (apesar de tudo justificada) que torna os candidatos à Administração Local, não já segundas escolhas mas se calhar terceiras ou quartas.

Parecendo cada vez mais os, muitas vezes acéfalos, comentadores clubistas dos nossos abomináveis debates futebolísticos.

A necessidade de potenciar a forma face ao conteúdo, reduz o conteúdo à forma e a forma ao estereótipo! Tornando ainda mais herméticos os respetivos discursos. Nalguns casos, até para os próprios oradores. Que têm apenas uma ideia vaga daquilo que estão a dizer!

É por isso que, embora velhos e ultrapassados e apesar de (por força da lei) substituídos enquanto sujeitos de poder, dezenas de dinossauros das nossas lides autárquicas possuem, ainda, a força e a influência que lhes permite agora regressar de novo (dir-se-ia fora de tempo) e constituírem mais uma vez candidatos partidários (e favoritos até) nas atuais eleições.

A sua hegemonia concelhia e distrital é tão perdurante que resiste, afinal, a quatro anos de afastamento e ao consulado de novos (e, supor-se-ia, mais bem preparados) dirigentes e autarcas. É a democracia no seu melhor! A marca, indelével, do seu caráter “caciquista”!

Situação ainda mais grave, quanto o mundo do poder autárquico, pela sua natureza quase absoluta e intocável, torna frequentemente os sujeitos do mesmo (presidentes especialmente, rodeados que estão de subservientes “yes mans”) alguém inapropriado para lidar com o contraditório: com a objeção, com a diferença. E perceber assim a heterogeneidade e a multivalência das coisas.

De facto, nada é mais prejudicial à verdade que a certeza de que a mesma (a nossa, já se vê) é absoluta e inquestionável. A mediocridade torna assim mais chocante a já chocante pobreza de ideias e opiniões – facilmente visível, nos recentes debates televisivos. Hilariante, se não fosse tão grave!

Afinal, não nos podemos esquecer que, se a ignorância (apesar de tudo) tem limites, a incompetência não!

Aurélio Lopes

Investigador universitário na área da cultura tradicional, especialmente no que respeita à Antropologia do Simbólico e à problemática do Sagrado e suas representações festivas, tem-se debruçado especialmente sobre práticas tradicionais comunitárias culturais e cultuais, nomeadamente no que concerne à religiosidade popular e suas relações sincréticas com raízes ancestrais e influências mutacionais modernas. É Licenciado em Antropologia Social, Mestre em Sociologia da Educação e Doutorado em Antropologia Cultural pelo ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa.

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