Vale das Onegas, 2017 Foto: Paulo Jorge de Sousa

O engenheiro eletrotécnico que hoje foi detido é suspeito de ter sido o autor de pelo menos 16 incêndios, incluindo o grande fogo que devastou Mação, em 2017, consumindo 33 mil hectares – foi o concelho com a maior área ardida a nível nacional, nesse terrível ano que fica na memória de todos pelas mortes ocorridas em Pedrógão Grande. 

A Polícia Judiciária avançou a informação esta tarde, em conferência de imprensa, explicando que a investigação começou em 2018 e culminou esta segunda-feira com a detenção deste homem, de 38 anos, que reside na Sertã. A PJ teve no terreno a colaboração da GNR da Sertã e do Grupo de Trabalho para a Redução das Ignições em Espaço Rural, do Centro.

A Judiciária realizou nos últimos três anos um levantamento exaustivo de várias áreas ardidas entre 2017 e este ano, e está convicta de que o homem poderá ser o autor de pelo menos 16 incêndios, afirmou o coordenador do gabinete de investigação de incêndios da Diretoria do Centro da PJ, Fernando Ramos.

“É provável que haja mais”, admitiu, salientando que muitos dos engenhos que eram usados para pegar fogo podem passar despercebidos ou terem acabado destruídos nos incêndios, quase todos de grandes dimensões.

O suspeito usaria um temporizador programado, por isso podia estar até no trabalho ou numa festa e tinha alibi para o momento em que o fogo começava

Segundo Fernando Ramos, este engenheiro eletrotécnico é suspeito de ter sido o autor do grande incêndio de Mação, em 2017, em que houve 33 mil hectares destruídos pelas chamas, e também, em 2020, dos incêndios em Oleiros e Proença-a-Nova, em que os fogos resultaram, respetivamente, em 5.000 e 14.000 hectares de área ardida.

Em nenhum dos incêndios identificados em que o detido é suspeito de ter sido o autor houve vítimas mortais ou feridos graves. Contudo, como no caso de Mação, as consequências da devastação foram enormes, quer a nível ambiental, quer a nível económico e social.

De acordo com Fernando Ramos, o suspeito usava um temporizador programado para uma certa hora ou dia (tinha capacidade de programar até 11 dias de distância), sendo que o fecho do circuito provocava a incandescência no filamento de uma lâmpada, que estava exposto e que permitia a ignição da matéria combustível próxima.

Tal engenho permitia que o autor podia “estar no trabalho ou no plano social e não ter nada a ver com o momento em que o incêndio começava”, realçou o diretor nacional adjunto da PJ, Carlos Farinha, referindo que os incêndios, muitas vezes, eram programados para coincidirem com eventos sociais de maior impacto – foi o caso de um incêndio em 2020, em que aconteceu ao mesmo tempo que decorria a Festa do Maranho, na Sertã.

O autor terá também conhecimento sobre a evolução de um incêndio e da forma como este se comporta mediante linhas de água, declives ou temperaturas, explicou.

Carlos Farinha realçou que, aquando da detenção do indivíduo, já a PJ tinha feito muita investigação e estava munida de mandados de busca, aproveitando o momento.

Esta é uma investigação “com muitas páginas e alguns volumes”, destacou, notando ainda que se inovou na investigação de incêndios florestais, ao terem sido usados métodos intrusivos, como a localização celular ou a interceção telefónica, meios pouco usados nesta área.

Questionado pela agência Lusa sobre qual terá sido a motivação do suspeito, Carlos Farinha escusou-se a avançar com uma resposta, acrescentando, porém, que tudo leva a crer que se trata de uma atuação de uma pessoa só.

“Isto não caiu do céu”, salientou o subdiretor da Diretoria do Centro da PJ, Valter Constantino, realçando a investigação complexa que foi levada a cabo.

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Agência Lusa

Agência de Notícias de Portugal

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