Vendedoras da Tupperware 'acodem' a encomendas que temem que sejam as últimas. Foto: DR

A Tupperware admitiu num comunicado oficial que poderá ir à falência se não conseguir angariar financiamento de emergência nos próximos dias. Depois dos primeiros sinais de alerta no final do ano passado, e que obrigaram à redução de pessoal na fábrica de Montalvo, em Constância, tal como o mediotejo.net adiantou, o CEO da multinacional norte-americana reforçou agora que a empresa “poderá não ter a liquidez adequada num curto prazo”, havendo portanto “dúvidas substanciais sobre a sua capacidade de continuar as operações”.

As declarações tiveram efeitos imediatos na Bolsa de Nova Iorque, com as ações a caírem mais de 50% na passada segunda-feira, 10 de abril. A histórica empresa de recipientes de plástico para alimentos, criada pelo químico Earl Tupper há 77 anos, desvalorizou em apenas seis meses mais de 90% em bolsa.

Além de uma nova renegociação da dívida à banca, a multinacional anunciou agora a venda de património imobiliário e uma redução significativa do número de funcionários, a nível mundial.

Fábrica da Tupperware, em Constância. Créditos: DR

Os planos de recuperação da empresa, iniciados em 2020, apostaram nas vendas online e em lojas para chegar às gerações mais novas (e ultrapassar as limitações impostas às vendas ao domicílio, com a pandemia de covid-19). Em simultâneo, a Tupperware procurava recuperar a confiança dos consumidores no seu plástico de grande qualidade, com “selo” ecológico, justificando o preço superior ao de recipientes similares.

Ainda com quebra nas vendas em 2020 (e com a unidade portuguesa a entrar em lay-off durante um mês e meio), em 2021 a Tupperware alcançou resultados muito positivos. Contudo, o comportamento dos consumidores inverteu-se novamente em 2022 e os prejuízos acumulados (superiores a 700 milhões de dólares) fizeram soar as sirenes em Wall Street: no dia em que a empresa apresentou os resultados do 3º trimestre, as ações na Bolsa de Nova Iorque caíram 45% e a imprensa da especialidade começou a falar na hipótese de falência. Com uma nova crise económica mundial instalada e a inflação galopante na Europa, as vendas caíram também a pique.

A Tupperware Portugal, a funcionar há 42 anos no concelho de Constância, não escapou às ondas de choque de tamanha turbulência na casa-mãe. Dispensou em setembro passado todos os trabalhadores temporários – cerca de 100 pessoas – e iniciou em novembro um processo de rescisão amigável com uma dezena dos 230 trabalhadores efetivos, como então confirmou a direção de Recursos Humanos da empresa ao mediotejo.net.

A redução de pessoal foi sendo progressiva nos últimos cinco anos, altura em que existiam mais de 400 funcionários. Uma situação considerada “inevitável” pela administração da empresa, face à “quebra muito acentuada” vendas. “Não temos praticamente encomendas”, explicou ao mediotejo.net Manuel Pacheco, diretor de Recursos Humanos da Tupperware em Portugal, a poucas semanas da sua reforma. O ano de 2023, avisava, iria ser “muito difícil”.

No final de novembro, a CFO da Tupperware internacional visitou a fábrica de Constância. O mediotejo.net pediu para acompanhar a visita e solicitou uma entrevista com Mariela Matute, que assumira há apenas seis meses na Flórida a responsabilidade de equilibrar as finanças da multinacional, mas não foi concedida autorização. À imprensa foi apenas comunicado que “tudo estava a ser feito para manter em funcionamento” aquela que era a maior das três unidades de produção na Europa.

Entretanto, além da de Constância subsiste apenas uma outra, na Bélgica. O fim das operações na Grécia foi anunciado em fevereiro e os seus 150 trabalhadores ficam agora no desemprego – a fábrica fecha definitivamente esta quinta-feira, 12 de abril, depois de 56 anos de atividade.

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Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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