Publicado emCiência, Constância, Educação

Constância | Parque de Astronomia assinala 18 anos de janela aberta para o universo (c/VIDEO)

É no alto de Santa Bárbara, rodeado por uma imensidão de verde, que se encontra o Centro de Ciência Viva de Constância – Parque de Astronomia, que tem como principal missão formar e divulgar a ciência, nomeadamente através da astronomia. A completar 18 anos em atividade, nem a sua demanda se esgota nos astros, nem a sua tarefa se resume à divulgação de ciência, pelo que também apoia investigações científicas e contribui para o enriquecimento da formação de milhares de alunos de todo o país, naquele que é, para o astrónomo Máximo Ferreira, diretor e coordenador científico, o principal foco do CCV. Sendo este um ano importante para o Centro de Ciência Viva de Constância, uma vez que que atinge a maioridade este sábado, 19 de março, o mediotejo.net fez uma visita ao parque e falou com o seu diretor, pelo que lhe dá a conhecer um pouco do que pode esperar encontrar neste local de onde se parte à descoberta do universo.

Desde os seus primórdios que o Centro de Ciência Viva aposta na divulgação de ciência em geral, mantendo sempre uma ligação prioritária à astronomia, a qual nunca deixa de ser o seu núcleo central. Se no princípio aliava a astronomia à história, matemática, física e química e de alguma maneira à literatura, ultimamente a atividade do Centro também se tem alargado à biodiversidade e ao ambiente, de modo a rentabilizar todo o espaço envolvente de que dispõe, repleto de árvores, espécies vegetais e até um lago.

No planetário é feita uma simulação do céu e pode-se observar a explosão de uma estrela ou o lançamento de um foguetão. Foto: Centro Ciência Viva de Constância – Parque de Astronomia

Como não podia deixar de ser, os três espaços mais emblemáticos deste complexo e que são utilizados mais vezes, são ligados ao estudo dos astros. Desde logo o Parque de Astronomia, porventura imagem de marca deste Centro de Ciência Viva, que dispõe de um conjunto de módulos que permitem imaginar uma viagem cósmica. Partindo da Via Láctea para o Sistema Solar e os tamanhos relativos dos astros até às velocidades dos planetas à volta do Sol as distâncias que os separam.

Existem ainda alguns módulos que funcionam como carrocéis, onde as pessoas se podem sentar e rodar em simulações daquilo que são os comportamentos de diferentes astros, como Júpiter, Saturno, o Sol, ou a Terra e a Lua. No espaço encontra-se também um Globo terrestre, uma Esfera Celeste e um Relógio de Sol Analemático.

Centro Ciência Viva de Constância.
Foto: mediotejo.net

Outro local, “talvez o mais espetacular”, segundo Máximo Ferreira, é o Planetário. Este espaço, que consiste numa sala onde as pessoas se sentam e observam uma simulação do céu feita através de um projeção na cúpula, permite algumas fantasias, como a simulação de uma estrela a transformar-se numa gigante vermelha, o efeito de um buraco negro, a explosão de uma estrela, a atividade do sol, o lançamento de um foguetão ou um astronauta a caminhar em Marte ou na Lua.

É todo este conjunto de efeitos que tornam a atividade mais atrativa, pois “mesmo quando se trata de sessões de planetário com alguma preocupação didática, podemos abordar o assunto com algum rigor e de vez em quando meter imagens destas para tornar a comunicação mais fácil entre nós e as pessoas”, explica o diretor do Centro de Ciência Viva.

A exposição “Física do Voo – Avião a Jato T33”, conta, entre outas coisas, com um verdadeiro avião a jato (com um motor à vista) e um giroscópio humano. Foto: mediotejo.net

A exposição “Física do Voo – Avião a Jato T33”, que apresenta como elemento expositivo central um avião a jato Lockeed T33 cedido pela Força Aérea Portuguesa, é o terceiro local que Máximo Ferreira coloca em destaque. Nesta exposição é possível ver e entrar no avião, e explorar a forma de funcionamento dos aviões e as forças envolvidas no voo. Aos visitantes é ainda concedida a possibilidade de experienciarem algumas atividades, nomeadamente experimentarem um giroscópio humano, uma réplica do dispositivo que os astronautas utilizam para se treinarem no que respeita à orientação espacial.

Paralelamente e dependente daquilo que são as intenções da visita, existem outros espaços utilizados ocasionalmente, como o Observatório Solar, onde são realizadas três ou quatro experiências recorrendo a um sistema de espelhos e lentes que permitem o estudo do Sol, nomeadamente o seu espetro e a identificação de alguns elementos químicos existentes na sua composição.

E mesmo que nuvens traiçoeiras ameacem esconder o Sol, há sempre uma alternativa: o Centro tem a possibilidade de se ligar, via internet, a um satélite que está no Espaço e que permite, quando o Sol está tapado por nuvens, captar imagens deste astro através do satélite e mostrá-las no ecrã.

Representação do planeta Terra, uma das imagens de marca do Parque de Astronomia de Constância. Foto: mediotejo.net

Mais ligado à biodiversidade e à educação ambiental, o CCV criou o lago Arquimedes, em torno do qual têm sido colocadas algumas alfaias agrícolas “dos tempos em que a agricultura era incipiente aqui na região, essencialmente com os processos de retirar a água para regar, as noras, as picotas, um parafuso de Arquimedes, que na nossa região não era utilizado para elevar líquidos (…) mas que é idêntico àquele que se utilizava nos lagares de azeite para elevar a azeitona, portanto o parafuso sem fim ou parafuso de Arquimedes”, explica Máximo Ferreira.

Há ainda a possibilidade, mais indicada para a estação primaveril ou de verão, de se aproveitar a área florestal do Centro e calcorrear o percurso pedestre que conduz desde o Centro de Ciência Viva até à Ribeira de Carvalho, e daí até ao Rio Zêzere.

Através de canoas, os participantes descem depois o rio Zêzere até à zona histórica de Constância, naquela que é um outro tipo de atividade que “completa este leque de atividades que o Centro de Ciência Viva de Constância produz, prepara e oferece ao público em geral, umas atividades mais lúdicas e mais ligadas à natureza, outras mais ligadas à astronomia e aspetos mais da ciência”, explica o coordenador científico, Máximo Ferreira. O percurso é acompanhado por uma pessoa especializada em biologia, que vai falando sobre as plantas e os insetos.

Foto: mediotejo.net

Aliás, “todas as atividades são desenvolvidas e conduzidas por pessoas com formação pedagógica, mediadores de ciência que sabem bem interagir com o público e perceberem previamente até que ponto podem aprofundar um ou outro assunto”, refere Máximo Ferreira.

Neste sentido, o Centro dispõe atualmente de 12 colaboradores: duas pessoas ligadas à parte da receção, um serralheiro “faz tudo”, e nove ligadas à ciência e à efetiva função do Centro, duas com formação em matemática e ciências (professores do 1º e 2º ciclo), duas professoras do 1º ciclo (destacadas pelo Ministério da Educação), outros três professores (com contrato a termo no centro, incluídos e financiados até junho 2023 por um projeto candidato ao Balcão 2020), um professor de ensino secundário da área das ciências físicas e químicas, e o próprio Máximo Ferreira, que figura como diretor e coordenador científico.

Esta valência de pessoal “permite assim abranger praticamente todos os níveis, desde o pré-escolar até ao secundário e nalguns casos universitários”, diz Máximo Ferreira, recordando em particular a visita de alunos da Escola Naval, cujos jovens oficiais da Marinha “praticamente já não conhecem a navegação astronómica como se fazia antes”, pois “agora os satélites e os GPS fazem tudo”.

Embora já funcionasse como observatório astronómico desde o ano de 2000, o Centro de Ciência Viva nasceu com esta designação a 19 de março de 2004, o que significa que 2022 é sinónimo de maioridade, data importante e assinalada através da inauguração de uma cúpula automática e robotizada de grande tamanho, onde cabem 10 a 15 pessoas, para alojar um telescópio de grandes dimensões, o maior telescópio público do país, moderno e controlado por computador, o telescópio Ritchey-Chrétien, de 20 polegadas (510mm). 

O Ritchey-Chrétien é o maior telescópio público do país. Foto: mediotejo.net

Esta necessidade, suprimida agora através de fundos comunitários, começou a sentir-se de forma cada vez mais premente uma vez que, no espaço onde o telescópio ainda se encontra, o teto da sala tem de sair para o céu ficar à vista e permitir apontar o telescópio para uma certa região, o que colocava alguns inconvenientes, especialmente no que toca a pedidos de investigadores portugueses (a trabalhar quer em Portugal quer no estrangeiro), para a recolha de dados para trabalhos de investigação.

Muitas vezes, essas recolhas requerem três ou quatro horas de observação, naquele que é um local bastante reconhecido pelo vento e pelo frio que se fazem sentir, pelo que o observatório se torna demasiado incómodo.

Esta aquisição “constituirá então mais um passo importante no que toca aos equipamentos que o Centro de Ciência Viva dispõe para continuarmos por um lado a divulgar a ciência, por outro a cooperar com a comunidade científica”, afirma o diretor do Centro.

No dia seguinte ao aniversário, domingo, dia 20 de março, o Centro de Ciência Viva vai também fazer uma apresentação na freguesia de Montalvo, onde irá ser criado um espaço de memória e inovação, no local que tem o nome de Museu de Quintas do Tejo.

Nesse espaço vão ser desenvolvidas aos poucos algumas atividades que sensibilizem a população para a preservação do património, sendo que, na opinião de Máximo Ferreira, aquele é o local “ideal” uma vez que, das várias quintas agrícolas que existiram na região, foi a que preservou alguns equipamentos.

O “Lago Arquimedes” alberga alguns utensílios que eram usados no passado, como noras, alfaias ou o “Parafuso de Arquimedes”, que empresta o seu nome ao lago. Ao fundo, está uma nora de tração animal. Foto: mediotejo.net

É nesse espaço, e aos poucos, que vai ser desenvolvido “um museu que há de fazer perdurar as memórias quer das pessoas que ainda são vivas e que trabalharam aqui nas quintas do concelho de Constância”, sendo que o objetivo é também “ligar a alguns aspetos científicos, a alguma ciência que existe nas tradições, ciência que as pessoas praticavam mesmo sem lhe atribuírem este nome – como a acidez do azeite, porque é que o azeite é menos denso do que a água ou como podemos medir isso e fazer observações – todos estes aspetos que não sendo muito da prática comum, permitirão aos mais novos perceber e entender melhor o que foram as vidas dos seus avós, dos seus antepassados, e eles próprios perceberem melhor a ciência que estará, no azeite por exemplo com que temperam a comida”, explica Máximo Ferreira.

A afluência a este Centro localizado em Constância, que quer dar a descobrir estrelas e planetas – não esquecendo no entanto o que também está aos nossos pés e não só acima da cabeça – atingia os cerca de 25 mil visitantes nos anos 2009/2010/2011. Com a crise da Troika e as dificuldades que se fizeram sentir, esse número decaiu para cerca de 15 mil. Numa nova oscilação, nos anos de pré-pandemia, nomeadamente em 2019, o número de visitantes voltou para a ordem dos 25 mil.

Máximo Ferreira, diretor e coordenador científico do Centro de Ciência Viva de Constância, é também um conceituado astrónomo. Foto: mediotejo.net

“Agora, enfim, estes anos de pandemia não contam para nada”, desabafa Máximo Ferreira, acrescentado que “nós fartamo-nos de trabalhar, preparamos coisas e depois vem mais um confinamento e o trabalho da preparação acaba por não ter resultados e em particular do ponto de vista do público”. O diretor, no entanto, mostra-se confiante de que logo que as preocupações com a pandemia sejam aliviadas o Centro de Ciência Viva de Constância voltará facilmente a atingir os 25 mil visitantes.

“E tendo em conta o tamanho da equipa, os equipamentos que temos, a diversidade, não podemos ir muito para lá dos 25 mil. Pensamos que 25-30 mil deve ser o nosso objetivo para estabilizarmos, para realizarmos cada vez melhor as coisas que fazemos agora e, à medida que formos tendo disponibilidade, ir criando algumas inovações”, até porque também existe a preocupação de as pessoas que já tenham visitado o Centro mais do que uma vez, não se cansem de o fazer “por ser sempre a mesma coisa, e tenham sempre novidades”.

O Centro de Ciência Viva de Constância pretende também aguçar a curiosidade dos seus visitantes. Foto: mediotejo.net

Nos próximos tempos, o motivo de conversa principal vai ser o telescópio espacial James Webb (JWST), avisa Máximo Ferreira, pelo que depois, se tudo correr bem, se vai passar a falar das descobertas que este telescópio fizer, pelo que a missão dos colaboradores do Centro “é a mediação entre os aspetos científicos duros para uma linguagem mais simplificada para todas as pessoas perceberem que todo este barulho que estamos a fazer sobre o telescópio e a sua importância se justifica porque estamos a saber isto, isto e isto”, explica o astrónomo.

O diretor deste Centro de Ciência Viva, não deixando de apelar para que as pessoas não deixem passar a vontade de visitarem e se integrarem “neste entusiasmo que nós todos temos de mostrar como é interessante olhar para o céu e perceber as estrelas e os fenómenos que acontecem por aí”, pede para que os visitantes não fiquem por aí.

“O que nós gostávamos era que as pessoas tivessem curiosidade e nos colocassem questões (…) que as pessoas quando vão daqui, que vão refletindo nas coisas que ouviram e nas impressões que trocaram connosco, mas que depois concebam novas perguntas e novas curiosidades e que se mantenham permanentemente ligados à ciência, tendo em conta que podem-nos perguntar coisas para além da astronomia. Nós temos na nossa equipa pessoas que são de ciências físicas e químicas, biologia, ciências da educação, dos diferentes níveis de ensino, e portanto há coisas sobre as quais nós podemos falar, com a garantia de que falaremos até onde temos a certeza que não dizemos asneiras”.

Rafael Ascensão

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

Publicado emCiência, Constância, Educação, Reportagem

Constância | Parque de Astronomia assinala 18 anos de janela aberta para o universo (c/VIDEO)

É no alto de Santa Bárbara, rodeado por uma imensidão de verde, que se encontra o Centro de Ciência Viva de Constância – Parque de Astronomia, que tem como principal missão divulgar a ciência, nomeadamente através da astronomia. Mas nem a sua demanda se esgota nos astros, nem a sua tarefa se resume à divulgação de ciência, pelo que também apoia investigações científicas e contribui para o enriquecimento da formação de milhares de alunos de todo o país, naquele que é, para o astrónomo Máximo Ferreira, diretor e coordenador científico, o principal foco do CCV. Sendo este um ano importante para o Centro de Ciência Viva de Constância, uma vez que é em 2022 que atinge a maioridade, o mediotejo.net fez uma visita ao parque e falou com o seu diretor, pelo que lhe dá a conhecer um pouco do que pode esperar encontrar neste local de onde se parte à descoberta do universo.

Desde os seus primórdios que o Centro de Ciência Viva aposta na divulgação de ciência em geral, mantendo sempre uma ligação prioritária à astronomia, a qual nunca deixa de ser o seu núcleo central. Se no princípio aliava a astronomia à história, matemática, física e química e de alguma maneira à literatura, ultimamente a atividade do Centro também se tem alargado à biodiversidade e ao ambiente, de modo a rentabilizar todo o espaço envolvente de que dispõe, repleto de árvores, espécies vegetais e até um lago.

No planetário é feita uma simulação do céu e pode-se observar a explosão de uma estrela ou o lançamento de um foguetão. Foto: Centro Ciência Viva de Constância – Parque de Astronomia

Como não podia deixar de ser, os três espaços mais emblemáticos deste complexo e que são utilizados mais vezes, são ligados ao estudo dos astros. Desde logo o Parque de Astronomia, porventura imagem de marca deste Centro de Ciência Viva, que dispõe de um conjunto de módulos que permitem imaginar uma viagem cósmica. Partindo da Via Láctea para o Sistema Solar e os tamanhos relativos dos astros até às velocidades dos planetas à volta do Sol as distâncias que os separam.

Existem ainda alguns módulos que funcionam como carrocéis, onde as pessoas se podem sentar e rodar em simulações daquilo que são os comportamentos de diferentes astros, como Júpiter, Saturno, o Sol, ou a Terra e a Lua. No espaço encontra-se também um Globo terrestre, uma Esfera Celeste e um Relógio de Sol Analemático.

Centro Ciência Viva de Constância.
Foto: mediotejo.net

Outro local, “talvez o mais espetacular”, segundo Máximo Ferreira, é o Planetário. Este espaço, que consiste numa sala onde as pessoas se sentam e observam uma simulação do céu feita através de um projeção na cúpula, permite algumas fantasias, como a simulação de uma estrela a transformar-se numa gigante vermelha, o efeito de um buraco negro, a explosão de uma estrela, a atividade do sol, o lançamento de um foguetão ou um astronauta a caminhar em Marte ou na Lua.

É todo este conjunto de efeitos que tornam a atividade mais atrativa, pois “mesmo quando se trata de sessões de planetário com alguma preocupação didática, podemos abordar o assunto com algum rigor e de vez em quando meter imagens destas para tornar a comunicação mais fácil entre nós e as pessoas”, explica o diretor do Centro de Ciência Viva.

A exposição “Física do Voo – Avião a Jato T33”, conta, entre outas coisas, com um verdadeiro avião a jato (com um motor à vista) e um giroscópio humano. Foto: mediotejo.net

A exposição “Física do Voo – Avião a Jato T33”, que apresenta como elemento expositivo central um avião a jato Lockeed T33 cedido pela Força Aérea Portuguesa, é o terceiro local que Máximo Ferreira coloca em destaque. Nesta exposição é possível ver e entrar no avião, e explorar a forma de funcionamento dos aviões e as forças envolvidas no voo. Aos visitantes é ainda concedida a possibilidade de experienciarem algumas atividades, nomeadamente experimentarem um giroscópio humano, uma réplica do dispositivo que os astronautas utilizam para se treinarem no que respeita à orientação espacial.

Paralelamente e dependente daquilo que são as intenções da visita, existem outros espaços utilizados ocasionalmente, como o Observatório Solar, onde são realizadas três ou quatro experiências recorrendo a um sistema de espelhos e lentes que permitem o estudo do Sol, nomeadamente o seu espetro e a identificação de alguns elementos químicos existentes na sua composição.

E mesmo que nuvens traiçoeiras ameacem esconder o Sol, há sempre uma alternativa: o Centro tem a possibilidade de se ligar, via internet, a um satélite que está no Espaço e que permite, quando o Sol está tapado por nuvens, captar imagens deste astro através do satélite e mostrá-las no ecrã.

Representação do planeta Terra, uma das imagens de marca do Parque de Astronomia de Constância. Foto: mediotejo.net

Mais ligado à biodiversidade e à educação ambiental, o CCV criou o lago Arquimedes, em torno do qual têm sido colocadas algumas alfaias agrícolas “dos tempos em que a agricultura era incipiente aqui na região, essencialmente com os processos de retirar a água para regar, as noras, as picotas, um parafuso de Arquimedes, que na nossa região não era utilizado para elevar líquidos (…) mas que é idêntico àquele que se utilizava nos lagares de azeite para elevar a azeitona, portanto o parafuso sem fim ou parafuso de Arquimedes”, explica Máximo Ferreira.

Há ainda a possibilidade, mais indicada para a estação primaveril ou de verão, de se aproveitar a área florestal do Centro e calcorrear o percurso pedestre que conduz desde o Centro de Ciência Viva até à Ribeira de Carvalho, e daí até ao Rio Zêzere.

Através de canoas, os participantes descem depois o rio Zêzere até à zona histórica de Constância, naquela que é um outro tipo de atividade que “completa este leque de atividades que o Centro de Ciência Viva de Constância produz, prepara e oferece ao público em geral, umas atividades mais lúdicas e mais ligadas à natureza, outras mais ligadas à astronomia e aspetos mais da ciência”, explica o coordenador científico, Máximo Ferreira. O percurso é acompanhado por uma pessoa especializada em biologia, que vai falando sobre as plantas e os insetos.

Foto: mediotejo.net

Aliás, “todas as atividades são desenvolvidas e conduzidas por pessoas com formação pedagógica, mediadores de ciência que sabem bem interagir com o público e perceberem previamente até que ponto podem aprofundar um ou outro assunto”, refere Máximo Ferreira.

Neste sentido, o Centro dispõe atualmente de 12 colaboradores: duas pessoas ligadas à parte da receção, um serralheiro “faz tudo”, e nove ligadas à ciência e à efetiva função do Centro, duas com formação em matemática e ciências (professores do 1º e 2º ciclo), duas professoras do 1º ciclo (destacadas pelo Ministério da Educação), outros três professores (com contrato a termo no centro, incluídos e financiados até junho 2023 por um projeto candidato ao Balcão 2020), um professor de ensino secundário da área das ciências físicas e químicas, e o próprio Máximo Ferreira, que figura como diretor e coordenador científico.

Esta valência de pessoal “permite assim abranger praticamente todos os níveis, desde o pré-escolar até ao secundário e nalguns casos universitários”, diz Máximo Ferreira, recordando em particular a visita de alunos da Escola Naval, cujos jovens oficiais da Marinha “praticamente já não conhecem a navegação astronómica como se fazia antes”, pois “agora os satélites e os GPS fazem tudo”.

Embora já funcionasse como observatório astronómico desde o ano de 2000, o Centro de Ciência Viva nasceu com esta designação a 19 de março de 2004, o que significa que 2022 é sinónimo de maioridade, data importante e assinalada através da inauguração de uma cúpula automática e robotizada de grande tamanho, onde cabem 10 a 15 pessoas, para alojar um telescópio de grandes dimensões, o maior telescópio público do país, moderno e controlado por computador, o telescópio Ritchey-Chrétien, de 20 polegadas (510mm). 

O Ritchey-Chrétien é o maior telescópio público do país. Foto: mediotejo.net

Esta necessidade, suprimida agora através de fundos comunitários, começou a sentir-se de forma cada vez mais premente uma vez que, no espaço onde o telescópio ainda se encontra, o teto da sala tem de sair para o céu ficar à vista e permitir apontar o telescópio para uma certa região, o que colocava alguns inconvenientes, especialmente no que toca a pedidos de investigadores portugueses (a trabalhar quer em Portugal quer no estrangeiro), para a recolha de dados para trabalhos de investigação.

Muitas vezes, essas recolhas requerem três ou quatro horas de observação, naquele que é um local bastante reconhecido pelo vento e pelo frio que se fazem sentir, pelo que o observatório se torna demasiado incómodo.

Esta aquisição “constituirá então mais um passo importante no que toca aos equipamentos que o Centro de Ciência Viva dispõe para continuarmos por um lado a divulgar a ciência, por outro a cooperar com a comunidade científica”, afirma o diretor do Centro.

No dia seguinte ao aniversário, o Centro de Ciência Viva vai também fazer uma apresentação na freguesia de Montalvo, onde irá ser criado um espaço de memória e inovação, no local que tem o nome de Museu de Quintas do Tejo. Nesse espaço vão ser desenvolvidas aos poucos algumas atividades que sensibilizem a população para a preservação do património, sendo que, na opinião de Máximo Ferreira, aquele é o local “ideal” uma vez que, das várias quintas agrícolas que existiram na região, foi a que preservou alguns equipamentos.

O “Lago Arquimedes” alberga alguns utensílios que eram usados no passado, como noras, alfaias ou o “Parafuso de Arquimedes”, que empresta o seu nome ao lago. Ao fundo, está uma nora de tração animal. Foto: mediotejo.net

É nesse espaço, e aos poucos, que vai ser desenvolvido “um museu que há de fazer perdurar as memórias quer das pessoas que ainda são vivas e que trabalharam aqui nas quintas do concelho de Constância”, sendo que o objetivo é também “ligar a alguns aspetos científicos, a alguma ciência que existe nas tradições, ciência que as pessoas praticavam mesmo sem lhe atribuírem este nome – como a acidez do azeite, porque é que o azeite é menos denso do que a água ou como podemos medir isso e fazer observações – todos estes aspetos que não sendo muito da prática comum, permitirão aos mais novos perceber e entender melhor o que foram as vidas dos seus avós, dos seus antepassados, e eles próprios perceberem melhor a ciência que estará, no azeite por exemplo com que temperam a comida”, explica Máximo Ferreira.

A afluência a este Centro localizado em Constância, que quer dar a descobrir estrelas e planetas – não esquecendo no entanto o que também está aos nossos pés e não só acima da cabeça – atingia os cerca de 25 mil visitantes nos anos 2009/2010/2011. Com a crise da Troika e as dificuldades que se fizeram sentir, esse número decaiu para cerca de 15 mil. Numa nova oscilação, nos anos de pré-pandemia, nomeadamente em 2019, o número de visitantes voltou para a ordem dos 25 mil.

Máximo Ferreira, diretor e coordenador científico do Centro de Ciência Viva de Constância, é também um conceituado astrónomo. Foto: mediotejo.net

“Agora, enfim, estes anos de pandemia não contam para nada”, desabafa Máximo Ferreira, acrescentado que “nós fartamo-nos de trabalhar, preparamos coisas e depois vem mais um confinamento e o trabalho da preparação acaba por não ter resultados e em particular do ponto de vista do público”. O diretor, no entanto, mostra-se confiante de que logo que as preocupações com a pandemia sejam aliviadas o Centro de Ciência Viva de Constância voltará facilmente a atingir os 25 mil visitantes.

“E tendo em conta o tamanho da equipa, os equipamentos que temos, a diversidade, não podemos ir muito para lá dos 25 mil. Pensamos que 25-30 mil deve ser o nosso objetivo para estabilizarmos, para realizarmos cada vez melhor as coisas que fazemos agora e, à medida que formos tendo disponibilidade, ir criando algumas inovações”, até porque também existe a preocupação de as pessoas que já tenham visitado o Centro mais do que uma vez, não se cansem de o fazer “por ser sempre a mesma coisa, e tenham sempre novidades”.

O Centro de Ciência Viva de Constância pretende também aguçar a curiosidade dos seus visitantes. Foto: mediotejo.net

Nos próximos tempos, o motivo de conversa principal vai ser o telescópio espacial James Webb (JWST), avisa Máximo Ferreira, pelo que depois, se tudo correr bem, se vai passar a falar das descobertas que este telescópio fizer, pelo que a missão dos colaboradores do Centro “é a mediação entre os aspetos científicos duros para uma linguagem mais simplificada para todas as pessoas perceberem que todo este barulho que estamos a fazer sobre o telescópio e a sua importância se justifica porque estamos a saber isto, isto e isto”, explica o astrónomo.

O diretor deste Centro de Ciência Viva, não deixando de apelar para que as pessoas não deixem passar a vontade de visitarem e se integrarem “neste entusiasmo que nós todos temos de mostrar como é interessante olhar para o céu e perceber as estrelas e os fenómenos que acontecem por aí”, pede para que os visitantes não fiquem por aí.

“O que nós gostávamos era que as pessoas tivessem curiosidade e nos colocassem questões (…) que as pessoas quando vão daqui, que vão refletindo nas coisas que ouviram e nas impressões que trocaram connosco, mas que depois concebam novas perguntas e novas curiosidades e que se mantenham permanentemente ligados à ciência, tendo em conta que podem-nos perguntar coisas para além da astronomia. Nós temos na nossa equipa pessoas que são de ciências físicas e químicas, biologia, ciências da educação, dos diferentes níveis de ensino, e portanto há coisas sobre as quais nós podemos falar, com a garantia de que falaremos até onde temos a certeza que não dizemos asneiras”.

Rafael Ascensão

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.