Para os astrónomos e, pensam eles, para todos os terrestres, o ano não poderia ter começado da melhor maneira. Na verdade, tinha sido a prenda de Natal que, lançada para o espaço a 25 de dezembro, começava – nos primeiros dias do ano – a anunciar mais um feito notável da ciência e da tecnologia, ao mostrar o cumprimento perfeito do plano elaborado para enviar um telescópio gigante para um ponto do espaço quatro vezes mais longe da Terra do que a distância a que gira a Lua, à nossa volta!

Telescópios, existem muitos, a grande maioria instalados em terra e, alguns, no espaço. Mas, estes últimos, giram presos à gravidade da Terra, a distâncias inferiores a mil quilómetros, o que facilita a tarefa de – sendo necessário – substituir alguns equipamentos e mesmo proceder a alguma reparação.

O Telescópio Espacial James Webb (JWST, abreviaturas da designação, em inglês) para além de ter sido concebido para “ver” radiações que os olhos humanos não enxergam, vai começar a funcionar em pleno, numa região do espaço situada a um milhão e meio de quilómetros e … sempre em posição oposta ao Sol, ou seja, na direção em que se projeta a sombra da Terra e onde passa a Lua (aproximadamente) na fase de Lua Cheia.

Embora chegue lá em finais deste mês de janeiro, serão necessários alguns meses para – a partir da Terra – estabilizar toda a estrutura e colocá-la a girar em torno da tal posição (o ponto L2) numa trajetória perpendicular à linha imaginária que liga os centros do Sol e da Terra e o L2.

Para quê, todos estes detalhes?

Não fosse a dimensão e qualidade extraordinárias das centenas de físicos, matemáticos, engenheiros, informáticos e outros profissionais – e os anos que gastaram na elaboração do Projeto – alguns dos detalhes considerados poderiam ter escapado:

O telescópio estabilizará demasiado longe da Terra para ser possível ir lá substituir componentes ou efetuar reparações, logo, foram indispensáveis todos os cuidados para que nada falhe; a posição L2 (tal como as outras 4 – L1, L3, L4 e L5) são regiões onde o efeito conjugado da gravidade do Sol e da Terra dá um resultado quase nulo, e giram em redor do Sol, mantendo as suas posições relativas, pelo que, qualquer corpo ali colocado girará também, necessitando apenas de ligeiros fornecimentos de energia para pequenas correções de posição; a órbita perpendicular do JWST é indispensável para que seja permanentemente atingido pela luz solar (sem interferências da Terra e da Lua) da qual se obterá boa parte da energia de funcionamento dos equipamentos; como o telescópio foi concebido para “ver” luz infravermelha muito fraca (correspondente a calor libertado na formação de estrelas em galáxias longínquas), ele terá de ser mantido com temperaturas muito baixas (mais negativas do que -200 graus Celsius), pelo que foi necessário colocar entre os painéis solares e os equipamentos, uma tela – o “escudo solar” – (do tamanho de um campo de ténis) muito especial, para impedir que transitem para o outro lado efeitos de temperaturas elevadas resultantes da radiação solar.

Estes foram alguns dos “detalhes” que contribuíram para que os participantes neste Projeto internacional considerem, talvez, a mais fantástica aventura das suas vidas, embora seja elevado o número de homens e mulheres que, por serem muito jovens, vão, certamente, ter oportunidade de contribuir para outros sucessos científicos dos quais resultará não só a satisfação de aprender e saber sempre mais, mas também benefícios para domínios diversos da vida e bem estar de todos os povos da Terra.

O JWST foi lançado a 25 de dezembro e o escudo solar foi aberto a 4 de janeiro. Três dias depois foi iniciado o processo de abertura do leque de espelhos – 18 – em forma hexagonal, com mais de um metro de tamanho cada um, o que originará a composição de um único espelho com seis metros e meio de diâmetro.

No final de janeiro, chegará ao L2 uma “estrutura espacial”, uma espécie de vela gigante, com mais de vinte metros e se colocará “de costas” para o Sol, protegendo do calor uma autêntica obra de arte de ciência e tecnologia que, permanentemente, apontará para os confins do Cosmos, em busca de elementos que satisfaçam a curiosidade e a sede de conhecimento de uma espécie que habita um pequeno grão de poeira (Terra) em rodopio permanente à volta de uma modesta estrela (Sol).

No próximo artigo far-se-á referência à chegada do JWST ao (“ponto de Lagrange”) L2 e às expectativas da comunidade científica quanto aos resultados desta extraordinária aventura.

Máximo Ferreira

Coordenador científico do Centro de Ciência Viva de Constância é um dos mais conceituados astrónomos do país e um divulgador entusiasta do seu conhecimento dos astros. Nasceu em 1946 em Montalvo, Constância, formou-se em Física na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e trabalhou no Planetário Gulbenkian, no Museu de Ciência da Universidade de Lisboa e no Ministério da Ciência e da Tecnologia antes de regressar às origens.

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