O Museu dos Rios e das Artes Marítimas, e a equipa composta por Anabela Cardoso, Miguel Luís e Tatiana Constantino, quis “trazer de novo à memória” a Guerra Colonial. Um período traumático da nossa história coletiva e admitem ser “fácil cair na glorificação de heróis que não existiram, valores bafientos e ultrapassados, ideias que não nos representam. Por isso mesmo, é importante olharmos criticamente para o nosso passado”.
Podemos afirmar que o 25 de Abril nasceu em África. Mas foi de 24 para 25 de abril de 1974, que o Movimento das Forças Armadas (MFA) composto por jovens oficiais progressistas, descontentes com o arrastar da Guerra Colonial, coordena a machadada final no regime do Estado Novo. Nos países do chamado Ultramar, os quartéis iam sendo informados dos acontecimentos.
Apreensão tornou-se alegria: a guerra ia acabar. Iam regressar aos braços da terra, rever a família e os amigos. Rapidamente, o que podia ter sido apenas um golpe militar ou palaciano, transformou-se numa revolução popular, contra a censura, contra a ditadura e a opressão – finalmente – conta a Guerra Colonial.

No dia 25 de abril de 1974, Manuel Oliveira Alberto “estava muito longe daqui. À espera para vir para cá, na Beira, em Moçambique”. Soldado na Guerra Colonial foi ferido ao fim de um mês e cinco dias de chegar ao conflito, no dia 30 de dezembro de 1973. A sua companhia caiu numa emboscada, “com cinco mortos e cinco feridos”, conta ao mediotejo.net.
Manuel, de Santa Margarida da Coutada, é um dos ex-combatentes do concelho que deu o seu testemunho para o documentário ‘Memórias de Guerra’, apresentado na quinta-feira, 25 de abril. A iniciativa foi do Museu dos Rios e das Artes Marítimas e do Município.
Com apenas 19 anos, ferido em combate, com sete ferimentos em vários locais do corpo, estava agendado o seu regresso à metrópole precisamente para o dia que a Revolução dos Cravos fez cair o regime do Estado Novo. Soube do “golpe militar porque primeiro havia avião, depois já não havia. Dizia-se que o avião que levava a gente da Beira para cá tinha servido para levar Marcello Caetano e Américo Tomás não sei para onde. Tretas!”, considera.





Nestes 50 anos do 25 de Abril, em Constância, escolheu-se celebrar o anticolonialismo, a república, a democracia e a liberdade, valores com um passado e – segundo pretendem os organizadores da exposição ‘Adeus, até ao meu regresso! Memórias da Guerra Colonial de ex-combatentes do concelho de Constância’ – um futuro. Mostra inaugurada igualmente no âmbito das celebrações do cinquentenário da Revolução.
A tarefa começou pelos livros de recenseamento militar do concelho de Constância. Uma equipa a três, constituída pela responsável pelo Museu dos Rios e das Artes Marítimas, Anabela Cardoso, por Tatiana Constantino, realizadora do documentário, e por Miguel Luís, historiador que trabalhou os conteúdos da exposição fotográfica e do catálogo. Recolheram cerca de 40 testemunhos de ex-combatentes na Guerra Colonial e de familiares, num universo de 200 soldados naturais do concelho, presentes nos então chamados territórios ultramarinos.
Porém, muitos outros soldados chegaram a Constância, quer por via do Campo Militar de Santa Margarida quer pela Unidade Militar de Tancos ou ainda pela Unidade de Abrantes.
A recolha da história oral destes soldados enviados para África – normalmente com comissões de dois anos – e das mulheres que ficaram para trás, resulta na exposição ‘Adeus, até ao meu regresso! Memórias da Guerra Colonial de Ex-combatentes do Concelho de Constância’, no documentário intitulado ‘Memórias de Guerra’, ambos apresentados este 25 de abril, e num catálogo com cerca de 100 páginas que estará disponível gratuitamente no verão.
A resistência armada ao colonialismo português começou muito antes de 1961, data em que eclodiu a Guerra Colonial. Angola haveria de ser o primeiro palco dessa resistência, a norte, nos campos de algodão. O gatilho desta guerra, que haveria de durar 13 anos, foi as más condições de trabalho a que os agricultores estavam sujeitos, em Malange, na baixa do Cassange.

A maioria dos combatentes que regressava a 25 de abril “era pessoal ferido, uns sem pernas, outros sem vista, outros sem braços. Eu apanhei sete tiros”, relembra Manuel. Chegado a Portugal, hoje com 72 anos, foi para o quartel da Graça “de lá fomos distribuídos. Fui para o hospital da Estrela”, recorda. A memória ainda lhe permite detalhar onde assentou praça, por onde passou na recruta, para no dia 25 de novembro de 1973 chegar à Beira com a missão de “fazer segurança aos civis”.
Manuel regressou, então, a Portugal no dia 28 de abril de 1974, sabendo apenas que tinha ocorrido “um golpe militar” sem saber se de direita ou se de esquerda ou qualquer outro pormenor. Mas afirma que a Revolução “não me beneficiou em nada, nem na altura nem agora. Ainda hoje o dia 25 de abril é um dia como outro qualquer. Liberdades?, questiona, ao mesmo tempo que lamenta que os atuais comportamentos das pessoas sejam “diferentes” daqueles que defende.
“As pessoas não souberam respeitar a liberdade que lhe deram. Gosto de ver as pessoas livres mas tem de haver um certo respeito”, opina.






A Guerra Colonial não foi uma guerra clássica, de cercos e grandes batalhas campais. Nesta guerra, opôs-se um exército tradicional a um conjunto de movimentos políticos que usavam a luta armada como ferramenta para a sua emancipação. Os inimigos usavam as táticas da guerrilha para os seus objetivos. Os guerrilheiros beneficiavam do seu pequeno número, grande mobilidade e conhecimento do terreno.
Eram comuns as emboscadas, sabotagens e a colocação de minas e armadilhas. Eram eles que, quase sempre, iniciavam o ataque, tal como se pode ler na exposição que ficará patente na sala polivalente do Cineteatro de Constância até setembro.
Secções como “o combate”, “as ex-colónias portuguesas em África”, “assentar praça”, “datas marcantes”, “ir às sortes”, ou o “quotidiano” organizam uma exposição que lembra logo à entrada que “sem memória não há futuro”.
Num Portugal em guerra, ao longo de 13 anos foram mobilizados milhares de cidadãos de norte a sul do País e também das ilhas mas metade eram africanos recrutados localmente. Portugal termina a guerra com 150 mil homens em armas, 60 mil em Angola, 27 mil na Guiné e 55 mil em Moçambique.
E a vida no mato era dura. Os soldados procuravam conforto da maneira que podiam. No quartel, além dos serviços auxiliares, essenciais ao funcionamento da sua vida quotidiana, os soldados procuravam ocupar os tempos livres com jogos de cartas e o convívio típico da juventude. A correspondência diminuía a distância com a família. O Movimento Nacional Feminino garantia a gratuitidade dos aerogramas. Cartas essas que também integram a exposição.





Numa sala cheia, esteve também presente na inauguração da mostra, o presidente da Câmara, Sérgio Oliveira, afirmou que “o concelho, enquanto comunidade, deve estar orgulhoso desta exposição que tem na sala polivalente do Cineteatro, que marca os 50 anos do 25 de Abril”.
Grande parte dos ex-combatentes continua a manter relações de amizade com os seus camaradas da tropa. Essas são muitas vezes mantidas através de grupos de convívio, almoços das companhias ou dos anos de inspeção. Nestes, recordam-se os tempos mais tristes ou mais felizes, os companheiros mortos e feridos, as histórias mais caricatas ou emocionantes.

António do Vale Quaresma também tem uma história para contar apesar de não ter sido mobilizado para a Guerra Colonial. Nem ele nem os irmãos, devido ao estado de viuvez da mãe. Hoje tem 74 anos e recorda ao nosso jornal que foi à inspeção no ano de 1970. “Assentei praça no dia 26 de janeiro no Regimento de Artilharia Ligeira 1, em Lisboa. Como era bombeiros em Constância – e padeiro – mandaram-me fazer o curso de maqueiro para Coimbra”, conta.
É nessa sequência que manifesta satisfação com a Revolução porque, após três anos e 40 dias na tropa, a “Guerra no Ultramar ia acabar”, cansado que estava de ver jovens “estropiados” apesar de ter deixado o serviço militar no dia 6 de março de 1974. Terminou a tropa no anexo da Estrela, em Lisboa, conhecido por “Texas”, um hospital na Artilharia 1 onde os combatentes, feridos na Guerra Colonial, recuperavam. Esteve naquele hospital dois anos.
“Todos os dias chegavam lá 15 ou 16 evacuações do aeroporto, dos aviões que traziam os militares da Guerra todos partidos. Eu via aquela miséria”, refere.
Uma “miséria” que na verdade estava habituado a ver desde tenra idade, porque a sua mãe trabalhava como funcionária de limpeza na repartição de Finanças e na Câmara Municipal de Constância. António ajudava a mãe a acartar água para lavar o chão e viu “os livros de Angola, da Guerra, dos anos 1960, que vinham para o presidente da Câmara, em cima da secretária”.
Segundo conta essa informação mostrava que “os turras iam às quintas, com catanas e flechas, e aos homens cortavam o sexo e às mulheres os peitos que penduravam em paus à entrada das quintas”.







A qualquer altura os soldados conscritos podiam ser convocados para a participação no esforço de guerra. Estavam mobilizados e teriam apenas dez dias para visitar a família e regressar ao quartel. Nos primeiros anos da guerra, até à década de 1970, o transporte de tropas e de material de guerra era feito por barcos afretados ao Estado por companhias privadas.
São célebres os navios Vera Cruz, Pátria, Império e Uíge. Destaca-se na memória dos ex-combatentes o acenar dos lenços brancos no cais, enquanto o navio se afastava da costa portuguesa. Havia quem chorasse, quem risse; alguns não diziam nada.
António após “a tropa cumprida” foi chamado para trabalhar na Caima, em Constância. Recorda que no dia 25 de abril de 1974 entrou na fábrica às 08h00 onde lhe deram a notícia da Revolução. “Foi bom! A melhor conquista de Abril foi a liberdade de expressão; a gente pode dizer tudo. Apesar de haver um bocadinho de falta de respeito, mas o 25 de Abril foi o melhor que aconteceu!”.
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