A tarefa começou pelos livros de recenseamento militar do concelho de Constância. Uma equipa a três, constituída pela responsável pelo Museu dos Rios e das Artes Marítimas, Anabela Cardoso, por Tatiana Constantino, realizadora do documentário, e por Miguel Luís, historiador que trabalha os conteúdos da exposição fotográfica e do catálogo. Recolheram cerca de 40 testemunhos de ex-combatentes na Guerra Colonial e de familiares, num universo de 200 soldados naturais do concelho, presentes nos então chamados territórios ultramarinos. Porém, muitos outros soldados chegaram a Constância, quer por via do Campo Militar de Santa Margarida quer pela Unidade Militar de Tancos.
A recolha da história oral destes soldados enviados para África – normalmente com comissões de dois anos – e das mulheres que ficaram para trás, resulta na exposição ‘Adeus, até ao meu regresso! Memórias da Guerra Colonial de Ex-combatentes do Concelho de Constância’, no documentário intitulado ‘Memórias de Guerra’, ambos apresentados no dia 25 de abril, e num catálogo com cerca de 100 páginas que estará disponível gratuitamente no verão.
“Começamos a tentar identificá-los. Somos um concelho relativamente pequeno e fomos tentando falar com eles. No início houve alguma reticência mas depois gostaram. Alguns sabiam coisas incríveis e trouxeram peças”, como uma setas que os guerrilheiros nas províncias ultramarinas usaram como armas ou figuras religiosas, que integrarão a exposição patente até setembro, refere Anabela Cardoso.

O projeto arrancou com a construção de um guião relativo ao “ciclo de vida” de cada um dos combatentes, “de onde eram, como chegaram a Constância, de onde eram os pais, qual a ocupação dos pais… a agricultura ainda estava muito presente. E depois pelo processo; onde fizeram a inspeção, a recruta, a especialidade. Alguns jovens nunca tinham saído de Constância, nunca tinham viajado de comboio. Depois o ser mobilizado, o ir para qual colónia e a experiência no combate, no apoio de saúde. Também os que ficaram cá, alguns levaram as esposas, e o regresso. É um mundo de perguntas”, explica a responsável.
Quatro soldados de Constância morreram no Ultramar, um da Marinha e três do Exército, um deles em combate e três em acidentes, por exemplo na extração de minas. Essas histórias e algumas marcas trouxeram na bagagem, memórias que agora registam de forma oral. “Só falam do que querem. Alguns com mais abertura e outros nem tanto. Alguns recusam falar em nomes, não querem que se saiba o que pensavam de militares com patentes superiores ou até da PIDE, não que temam a vinda dos agentes mas de os melindrar ou os filhos deles. Ainda existe essa sombra”, revela.
Para os soldados “os tempos foram difíceis, houve a separação da família mas eram jovens. Há por isso uma certa saudade daqueles tempos. Porém, trazem muitas marcas”. Também quem ficou, as mães, as mulheres “que se responsabilizaram por tudo e por vezes sem dinheiro para sequer enviar uma carta. Os aerogramas eram gratuitos, e portanto era escrever tudo naquele espaço limitado”, diz.

A resistência armada ao colonialismo português começou muito antes de 1961, data em que eclodiu a Guerra Colonial. Angola haveria de ser o primeiro palco dessa resistência, a norte, nos campos de algodão. O gatilho desta guerra, que haveria de durar 13 anos, foi as más condições de trabalho a que os agricultores estavam sujeitos, em Malange, na baixa do Cassange.
Mas a Guerra “não era só combate, não era só mato. Muitos passavam o tempo a escrever – havia muitas madrinhas de guerra – havia futebol e fotografias. Trouxeram muitas fotos. Só os álbuns são autênticas obras de arte. O que têm é um espólio fantástico!”, afirma Anabela Cardoso.
Revela que os ex-combatentes, homens que hoje têm mais de 70 anos, “dão muita importância, alguns fazem mesmo dedicatórias aos que vêm, da família. Tentar que não acabe, dar continuidade aquela vivência, àquele testemunho, aquele episódio que foi tão triste. Geralmente aos netos, há essa preocupação. Muitos escrevem, onde estiveram e como foi”.




O catálogo tem como objetivo fixar em papel as conclusões dos autores do projeto, uma vez que a exposição será desmontada, embora o documentário, com 30 a 40 minutos, fique para a posteridade, pretenderam dar um formato “físico” ao documento histórico.
O trabalho de Miguel passa por “fixar estas memórias no papel, porque há coisas que no filme ou na exposição não é possível desenvolver, como em texto. Tentar contextualizar aquilo que eles dizem e não só ouvir o que eles dizem, portanto pegar em muita bibliografia, em muitos livros, e entrosar as coisas umas nas outras”.
Destaca uma entrevista, que nunca esperou encontrar, referindo o primeiro batalhão de paraquedistas que foi para Angola dois dias depois do massacre da UPA, em 1961. “Tenho essa transcrição e quero pô-la no catálogo. Não dá para pôr no filme 3 ou 4 minutos” desse testemunho.
Além disso, “fazer uma espécie de introdução ao tema da Guerra Colonial, ou seja quem quiser saber mais sobre a Guerra Colonial pode pegar nesse catálogo”, explica Miguel Luís.
A equipa deu conta do “envolvimento” das pessoas de Constância. “Muito! Mesmo com documentos mais pessoais, como as cadernetas, imensas fotos, peças como uma medalhinha que os soldados traziam ao pescoço. Em caso de morte partia-se, metade ficava com o morto e a outra metade levava o superior para informar da morte. Muitos aerogramas”. E testemunhos diversificados: “São experiências muito diferentes porque a guerra em África também foi diferente dependendo da colónia”, diz Anabela.
O historiador acrescenta que “a Guiné foi muito difícil, sobretudo a partir de 1970. Um terreno mais difícil, tinha muita água, os campos do arroz, sobretudo para as doenças como a malária, as condições sanitárias não eram as melhores. Também Moçambique. Angola já não tanto, sobretudo a partir de 1965, estava mais controlado por causa das dissidências entre os grupos, enquanto na Guiné e em Moçambique um único grupo monopolizava”.
A exposição ‘Adeus, até ao meu regresso! Memórias da Guerra Colonial de Ex-combatentes do Concelho de Constância’ será então essencialmente fotográfica, com conteúdos explicativos em texto e “uma sala” com o filme a ser exibido, nesse espaço criado para o efeito.
“O filme vai ser baseado nas entrevistas dos ex-combatentes e nos testemunhos. Também temos algumas imagens de arquivo, da RTP, e vamos tentar intercalar com músicas da época, que marcaram o 25 de Abril e a ida dos soldados. O filme tem uma voz-off com algumas partes dos textos que vão estar no catálogo e na exposição”, explica por sua vez Tatiana.
O Museu dos Rios e das Artes Marítimas tem um acervo constituído, principalmente, por peças de etnografia fluvial, com especial relevo para os instrumentos de trabalho e miniaturas de embarcações tradicionais de Constância, mas Anabela Cardoso desde a infância que tem um especial interesse pela Guerra Colonial, até porque o pai esteve a combater em África. Portanto, essa ideia surgiu-lhe de imediato aquando do planeamento municipal das celebrações dos 50 anos do 25 de Abril.
“O tema da Guerra Colonial está um bocado esquecido, esses jovens que durante essa década foram para África em condições precárias. Os barcos não tinham condições nenhumas, eram de carga, viajavam como se fossem animais. Temos os livros de recenseamento e havia muita gente que não sabia ler nem escrever, muita gente da agricultura, a população era pobre, a despedida em Lisboa era terrível, muitos pais nem tinham dinheiro para ir lá despedir-se dos filhos. Muitos nunca tinham saído de Constância, não tinham consciência para onde iam, nem tinham a ideia que podiam morrer… sabiam, mas não pensavam nisso. Foi tudo uma descoberta”, afirma Anabela.

Num Portugal em guerra, ao longo de 13 anos foram mobilizados milhares de cidadãos de norte a sul do País e também das ilhas mas metade eram africanos recrutados localmente. Portugal termina a guerra com 150 mil homens em armas, 60 mil em Angola, 27 mil na Guiné e 55 mil em Moçambique.
Falando do presente, Anabela Cardoso considera que os jovens conhecem “muito pouco” esta história recente do nosso País, por isso dá conta da ambição de dinamizar a exposição, envolvendo a escola e militares no ativo, com mesas-redondas onde seja possível discutir o papel social das mulheres “num tempo de muita pobreza, especialmente na nossa região”. O desafio está lançado para se prolongar até 2026, quando cumpre 50 anos das primeiras eleições para a Assembleia da República.
O projeto do Museu dos Rios, para celebrar Abril, arrancou no verão do ano passado mas para a responsável “podíamos ter começado mais cedo, podíamos ter falado com mais gente. Por exemplo com os nossos presidentes de Câmara, o primeiro presidente esteve na Guiné, o Máximo Ferreira também e o António Mendes. Não falámos porque não há tempo… mas quem sabe para o ano não possamos fazer um destaque, como vamos fazer aos nossos mortos. Conseguimos através dos arquivos o registo dessas pessoas. A ideia é dinamizar a exposição e continuá-la”.
Para Tatiana, cuja área de estudo é Cinema Documental, este documentário tem sido “um gosto” apesar das infindáveis horas passadas à volta das entrevistas e das fotos. O trabalho obrigou a “catalogar todas as entrevistas, ouvir o que cada um fala, qual o tema que vai ligar à exposição”, explica. Tal como Miguel que se dedicou à transcrição dos testemunhos, para posteriormente criar os textos.
Anabela ainda iniciou, mas sem concluir, um glossário, com palavras, termos, que os ex-combatentes aprenderam em África e trouxeram para Portugal e que ainda hoje recordam ou usam, como por exemplo capim. Mas esse projeto ficará para outro desafio.
“A ligação com as pessoas faz a diferença. É diferente ler num livro ou estar a ouvir pessoas que conhecemos” a relatar uma parte da sua vida que é parte da história de Portugal, conclui Miguel Luís.
No dia que se comemora a Revolução dos Cravos, o salão nobre dos Paços do Concelho de Constância recebe, às 10h00, a sessão solene evocativa do 50º aniversário do 25 de Abril, momento que inclui a cerimónia de inauguração da Galeria dos Presidentes. À tarde, o Cineteatro Municipal recebe, às 16h00, a inauguração da exposição ‘Adeus, até ao meu regresso! – Memórias da Guerra Colonial de Ex-combatentes do Concelho de Constância’ e a exibição do documentário: ‘Memórias de Guerra’.

