O Campo de Futebol Municipal, situado em Montalvo (Constância), inaugurado em 2014, num investimento de 300 mil euros, continua sem operacionalidade a 100%. No final de janeiro, em declarações aos jornalistas, à margem de uma reunião de executivo, após a vereadora eleita pela CDU, Manuela Arsénio, ter pedido um ponto de situação relativamente aos balneários do Campo de Jogos em Montalvo, o presidente da Câmara, Sérgio Oliveira (PS), explicou faltar “a nova baixada” da responsabilidade da E-Redes, estimando que seja realizada “durante as duas próximas semanas”, estando ainda em falta “alguma parte do equipamento do interior dos balneários. Também temos a garantia, por parte da empresa, que será feito nas próximas duas semanas”, indicou.
Lembrando que “o processo não começou agora”, referiu uma “conduta de esgoto, uma baixada elétrica que assegure as necessidades do equipamento e uma conduta de água” criticando o facto de ter sido “colocado um relvado sintético novo” numa obra inaugurada pelo executivo à época, da CDU, sem resolver “essas três questões. A casa começou pelo telhado”, afirmou o presidente da autarquia.
Recorde-se que em entrevista ao mediotejo.net Wilson Leite, responsável pela formação de centenas de atletas que já passaram pelas “suas mãos”, falou sobre o passado, o presente e o futuro do clube da Casa do Povo de Montalvo, mostrando esperança que o número de jovens a treinar possa aumentar e tristeza perante a falta de balneários num Campo de Jogos que é municipal.

Recorda-se igualmente que em 2019, a Casa do Povo de Montalvo foi contemplada com um apoio de 15 mil euros por parte do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) para a ampliação dos balneários do Campo de Futebol Municipal, no âmbito do Programa de Reabilitação de Instalações Desportivas (PRID).
Na época foi anunciado que o projeto que apresentava um orçamento global na ordem dos 40 mil euros, a Casa do Povo de Montalvo a contar também com um apoio financeiro da Câmara Municipal de Constância na ordem dos 50% (cerca de 20 mil euros) para a concretização da ampliação dos balneários no campo de futebol, com relvado sintético. Os contentores para balneários foram instalados em 2021, três anos depois tardam em ficar concluídos.
Esta sexta-feira 23 de fevereiro, no período de intervenção do público, Arsénio Cristóvão enquanto cidadão e ex-vereador no mandato em que foi construída a infraestrutura desportiva em causa, decidiu manifestar-me “num gesto de solidariedade para com o Wilson Leite, bem como desta forma, alertar a autarquia e a comunidade constanciense em geral, para o estado de abandono, fruto da flagrante falta de manutenção, em que se encontra o campo de futebol”, explicou no início da sua intervenção.

Atualmente o técnico orienta “cerca de vinte miúdos às segundas e quartas feiras e por vezes aos fins de semana com ‘balneários’ sem condições mínimas de funcionalidade e conforto, com um piso sintético em mau estado, havendo zonas de relva queimadas pelo sol, os portões abertos 24 horas por dia, permitindo que adolescentes sem calçado adequado utilizem o sintético deteriorando-o, com painéis de rede deteriorados presos por arames, principalmente por detrás das balizas dos campos de futebol de sete, enfim, quem por lá passa, diz o técnico, pensa tratar-se de umas instalações abandonadas”.
Arsénio Cristóvão “pensava que a entrevista dada pelo treinador Wilson Leite e complementada por mim, funcionasse como um alerta para o executivo camarário e o acelerador para uma rápida intervenção na correção das situações apontadas, mas infelizmente o efeito desejado não funcionou, preferindo o senhor presidente ir para a Antena Livre descarregar sobre os ‘outros’ aquilo que é da sua responsabilidade, lembrando-o que foi eleito em 2017 e estamos em 2024”, disse.
Afirmou igualmente que “no verão de 2021, ano em que foram adquiridos os balneários, a autarquia ficou conhecedora de todos os elementos técnicos dos aparelhos a alimentar no complexo desportivo, tais como; a potência do motor da bomba elevatória das lamas dos sanitários para o coletor principal, a potência dos termoacumuladores para aquecimento das águas dos banhos, a potência do motor da bomba de rega mais a potência dos projetores de iluminação do campo de futebol. Perante o descrito, a autarquia tinha reunido todas as condições para com rigor contratar a potência adequada. Perante estes factos como pode vir atribuir culpas aos anteriores mandatos pelo atraso na conclusão dos balneários? ”, questionou.

Para Arsénio Cristóvão a conclusão os balneários no Campo de Jogos de Montalvo foi considerada pelo presidente “como obra não urgente, apostando em investimentos que na sua opinião eram prioritários, não tendo em conta que naquela infraestrutura estavam investidos cerca de meio milhão de euros, possuindo um campo com um piso sintético classificado pela FIFA e UEFA com cinco estrelas, sendo reconhecido pela AFS como um dos melhores pisos do distrito” de Santarém.
Notou o ex-vereador da CDU que “ao longo do tempo, época após época, e com os balneários por construir, foi ver a debandada de jovens que tinham iniciado o seu percurso na Escola de Futebol de Formação da Casa do Povo de Montalvo, para clubes da região, onde ainda hoje evoluem. Na época de 2016/2017 o numero de jovens cifrava-se em cerca de oitenta. Hoje, são cerca de vinte […] Também o Aldeiense que militou na 2.ª divisão do distrital da AFS com uma equipa sénior e júnior acabou por abandonar. Primeiro a equipa sénior e um ano depois a equipa júnior […] Com esta desistência, os fregueses de Stª Margarida da Coutada que acompanhavam o clube, deixaram de marcar presença no campo de futebol em Montalvo, perdendo-se com isso o convívio sempre salutar entre munícipes do mesmo concelho, que o rio Tejo separa mas que o futebol conseguia unir”.
A obra Campo de Futebol iniciou-se no mandato de 2009/2013 com o objetivo de ser terminada no mandato 2013/2017. Relativamente aos balneários referiu que a sua construção “foi motivo de muitas opiniões” abordando-se diversas questões “como a sua localização, tipo de construção, zona a implementar, potência elétrica a disponibilizar consoante o tipo aparelho para aquecimento da água para banhos, etc., etc.., enfim um conjunto de situações normais de quem procura realizar obras sem dinheiro, e em tempo de vacas magras”.
Arsénio Cristóvão recordou que “a União Europeia impôs uma intervenção da Troika em Portugal que coincidiu com a saída do primeiro-ministro do governo de então, José Sócrates do PS, e a entrada do primeiro-ministro Passos Coelho do PSD. Essa intervenção foi motivada pela grave situação financeira em que se encontravam as finanças públicas do País, tendo levado a que fossem impostas medidas de contenção, tanto ao nível das candidaturas de apoio aos fundos comunitários, como na admissão de pessoal, tendo sido imposto às autarquias o sistema de 2 em 1, ou seja, por cada dois trabalhadores reformados só podia entrar um para o quadro de pessoal”, explicou.
Justificou “os momentos muito difíceis” vividos pelo município com a caída “a pique da receita própria” uma vez que “ao nível de obras particulares no concelho, praticamente deixaram de entrar projetos na autarquia”.
Ainda assim foi “construído o campo de futebol sintético, executada a vedação, instalada a iluminação elétrica e respetivo quadro elétrico, tendo-se ainda procedido a alguns melhoramentos nos balneários tanto no interior como exterior, a fim de melhorar o conforto dos atletas e dar alguma dignidade ao espaço”.
Em resposta às criticas do presidente da Câmara ao executivo anterior, dizendo que “qualquer um de nós, quando faz uma casa, uma empresa ou que equipamento for, a primeira coisa que assegura é que exista uma conduta de esgoto, que exista uma baixada elétrica que assegure as necessidades do equipamento e uma conduta de água. Foi colocado um relvado sintético novo e estas três questões ficaram por resolver. A casa começou pelo telhado”, Arsénio Cristóvão afirmou que Sérgio Oliveira “sabe perfeitamente bem que os ramais em causa foram construídos, creio que no verão de 2021, estamos em 2024, é presidente da autarquia desde 2017 e vem dizer que o atraso da entrada em serviço dos balneários se deve à falta de umas condutas de água e esgotos e há execução de uma baixada elétrica?”, interroga.
Quanto às acusações relativas à falta de “baixada elétrica, que o executivo de 2013/2017 não mandou fazer, informo o senhor presidente que um pedido de aumento de potência tem custos e que na altura nada justificava realizar tal ato, tendo em conta que a potência contratada à EDP Distribuição, designação na altura da empresa fornecedora de energia elétrica, era adequada à potência instalada na infraestrutura desportiva, campo de futebol”, argumentou.

E pergunta se “entre 2017 e 2021, possivelmente já com o local e tipo de balneários escolhidos e os aparelhos para aquecimento das águas dos banhos instalados, nunca pensou solicitar à E-REDES o pedido de baixada que vem agora acusar o mandato de 2013/2017 de não o ter feito?”. A pergunta ficou por responder, apesar de Sérgio Oliveira voltar a assumir as suas responsabilidades quanto ao atraso na entrada em funcionamento dos balneários.
“Não retiro nada do que disse em entrevista à Antena Livre; os balneários começaram a ser feitos pelo telhado. Porque em qualquer construção que se faça, a primeira coisa que se garante é saneamento básico, eletricidade e uma conduta de água”, insiste o autarca.
Acrescentou que “nem a Câmara Municipal pode licenciar um projeto de uma habitação ou outra construção qualquer se não houver garantia de acesso a esses serviços. Portanto não retiro nada”.
Recusando “alongar-se mais sobre essa matéria” afirmou “nunca ter visto o projeto de campo de futebol” relativo à obra na Cabral Moncada que Arsénio Cristóvão referiu no seu documento de cinco páginas, e no final entregue ao presidente da Assembleia Municipal de Constância, António Luís Mendes.
Sérgio Oliveira, parafraseando Winston Churchill, recorreu a uma frase que entendeu enquadrar-se na presente situação: “Existem pessoas que acham que podem dizer o que quiserem, quando alguém responde àquilo que disseram ficam indignados. Portanto, apenas respondi àquilo que foi saindo na comunicação social e que me chegou. Posso-lhe dizer que há certas coisas que já não leio porque só prejudica a minha saúde e confesso que o artigo que escreveu para o mediotejo.net não li. Alguém veio ao meu gabinete perguntar se tinha visto. Respondi: não vi, não vou ver ”.
Relativamente às afirmações “do futebol ter menos meninos, do futebol acabar, das associações acabarem com o futebol aquilo que nos foi transmitido pelo Aldeiense, nunca foi que a razão principal para terminar com a equipa de futebol fosse a questão dos balneários, quer a mim quer ao vereador Pedro (Pereira). Nunca essa questão foi colocada. O que nos preocupa é a situação da Casa do Povo de Montalvo, o futebol não existe se não houver dirigentes associativos e neste momento a Casa do Povo de Montalvo está com uma crise diretiva, está como uma comissão de gestão porque foram marcadas eleições e não apareceu ninguém para tomar conta dos destinos da associação. Não pode ser a Câmara Municipal a assumir essa responsabilidade”.
O presidente deixou claro não ter qualquer intenção de “ofender” ou “melindrar” Arsénio Cristóvão. Voltando a assumir que “o processo dos balneários não correu bem por vários fatores, que sei quais são. Mas na posição em que estou nunca ninguém me vai ouvir passar culpas para outros, nem vereadores, nem técnicos, nem de ninguém. A culpa quando as coisas correm mal é do presidente da Câmara, e quando correm bem é do presidente da câmara, dos vereadores e dos técnicos”.


Há cinco anos, contactado pelo mediotejo.net, o presidente Sérgio Oliveira confirmou o apoio de 50% da autarquia a este projeto de ampliação dos balneários, tendo referido que o espaço desportivo foi beneficiado recentemente ao nível da iluminação (4 mil euros) e vai ter um sistema de rega do relvado sintético com um investimento na ordem dos 9 mil euros e cujo processo de contratação está em curso, para além de benefícios em termos de arranjos exteriores.
Dois anos depois a Casa do Povo de Montalvo preparou uma candidatura ao Programa de Reabilitação de Instalações Desportivas (PRID 2021), um programa do Instituto Português do Desporto e Juventude, I.P. destinado a clubes e associações desportivas, constituídas sob a forma de associação sem fins lucrativos, com o intuito de requalificar instalações desportivas para promover a prática desportiva.
Nessa candidatura eram elegíveis despesas que abrangessem intervenções de “renovação, reabilitação e conservação de instalações dos clubes”, nomeadamente a nível de pavimentos desportivos, coberturas, vestiários e balneários, instalações sanitárias, redes e equipamentos de gás, água e eletricidade, vedações, acesso a mobilidade condicionada, melhoria de eficiência energética, ampliação das instalações, remoção de fibras de amianto, entre outras.
Para a Casa do Povo de Montalvo instalar balneários no campo de futebol, entre os documentos necessários para instruir a candidatura, “os apoios que têm para a parte não financiada”, conforme elucidou na época o presidente Sérgio Oliveira, em declarações ao mediotejo.net.
Nesse sentido, o executivo camarário deliberou então, por unanimidade, em reunião de Câmara a atribuição de um apoio “à volta de 35 mil euros, que é a parte não comparticipada”, referiu o autarca. Isto porque a parte comparticipada, de acordo com as normas do Programa de Reabilitação de Instalações Desportivas “não pode ultrapassar 50% do total das despesas que se considerarem elegíveis na análise técnica do orçamento apresentado pelas entidades candidatas, no valor máximo de cinquenta mil euros”.
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