Wilson Leite é treinador na terra que o viu crescer, Montalvo, há mais de 20 anos. Foto: mediotejo.net

Apaixonado pelo futebol e pela formação desportiva dos mais novos, Wilson Leite nunca abandonou a terra que o viu nascer e crescer. Residente em Montalvo (Constância), o técnico conta com mais de duas décadas ao serviço da secção desportiva da Casa do Povo de Montalvo, atividade que realiza “por amor” e sem qualquer vencimento.

Contando com um Curso de Treinador de Grau 1 e ainda diversas formações ao nível desportivo, com especial enfoque no futebol, atualmente é treinador dos petizes e traquinas na equipa de Montalvo, atividade que concilia com o cargo de treinador dos seniores no Tramagal Sport União.

O técnico afigura-se como um importante pilar na formação das camadas jovens, mantendo viva a prática do futebol na freguesia de Montalvo. Aos 40 anos, o treinador já dedicou mais de metade à formação de jogadores nas equipas da Casa do Povo de Montalvo, atividade que espera que se mantenha futuramente.

No entanto, Wilson Leite considera que tal não será possível sem um maior apoio por parte da Câmara Municipal de Constância, da Junta de Freguesia de Montalvo e da própria direção da Casa do Povo.

Descrevendo-se como uma “pessoa do desporto” e um “jovem da terra”, Wilson Leite enveredou pela carreira de jogador muito cedo tendo representado diversos clubes da região. Os primeiros pontapés foram dados no CADE – Clube Amador de Desportos do Entroncamento, seguindo-se uma passagem pelo União de Leiria e, mais tarde, pelo Grupo Desportivo Ferroviários, também no Entroncamento.

A carreira desportiva levou-o ainda até Mação, à Associação Cultural e Desportiva Aldeiense (Santa Margarida da Coutada), a Abrantes e ainda ao Gavião, onde deu os primeiros passos enquanto treinador.

“Iniciei ainda antes de terminar a carreira de jogador, no Gavião. Estive também no Pego, no Aldeiense e neste momento estou no Tramagal, em simultâneo com Montalvo”, contou o técnico ao mediotejo.net.

Wilson Leite, treinador da equipa de futebol da Casa do Povo de Montalvo. Foto: mediotejo.net

Quanto ao clube que mais o marcou, Wilson Leite aponta o Tramagal Sport União (TSU), clube onde atualmente treina o escalão de séniores e onde afirma sentir-se “em casa”, seja pelas pessoas, “pela história do clube, pela envolvência que os adeptos têm com o clube”, pelo apoio por parte da direção e pelas condições de trabalho que lhe são proporcionadas. “Sinto-me mesmo realizado no Tramagal”, sublinha.

A paixão pelo futebol e pela prática desportiva levou-o a descobrir o gosto por ensinar e apoiar na formação dos “miúdos da terra”. “Dou tudo em prol dos miúdos e em prol da terra para manter aqui a atividade física, tanto nos miúdos como nos séniores”.

“A minha grande paixão foi mesmo ver o desenvolvimento dos miúdos, aí começou tudo. É uma sensação muito boa estarmos a treinar miúdos com 5/6 anos, agora vê-los com 20 anos e podê-los treinar e ver o seu crescimento. É isso que me faz vir para aqui todos os dias como se fosse o primeiro”, afirma Wilson Leite.

A Casa do Povo de Montalvo conta, atualmente, com duas equipas em atividade: os petizes e traquinas, com idades compreendidas entre os 4 e os 10 anos, e os veteranos, atletas com 35 anos ou mais. Cada equipa conta com cerca de 20 atletas inscritos, embora o número de atletas já tenha sido bastante superior.

“Já treinei aqui infantis, benjamins, iniciados, mas somos pouco apoiados e, infelizmente, essas equipas tiveram de terminar. Já tivemos aqui 70 miúdos e neste momento temos 20 e poucos. Era um clube que podia crescer muito se tivesse outras condições”, indica.

Perante o decréscimo sentido ao nível dos jogadores inscritos e do número de escalões em atividade, o que Wilson Leite aponta como sendo um resultado direto da falta de condições que o clube tem para oferecer, o treinador fala num “caminho” sem continuidade garantida.

“Nasci aqui em Montalvo, vivo cá e sempre fiz tudo para trazer jovens, para valorizar não só a nossa terra como o concelho também. Vejo isto como um caminho que não sei mais quanto tempo irá durar”, refere, sem esconder algum desalento e preocupação.

“Já tive várias propostas de outros clubes que estavam interessados (…) e eu sempre disse, enquanto houver futebol jovem na minha terra continuarei a treinar. Luto todos os dias por haver, porque se não fosse eu a lutar por isto, tenho a certeza que já tinha acabado aqui em Montalvo”.

Para além da “falta de interesse” por parte da Câmara Municipal de Constância, Wilson Leite aponta a falta de apoio na globalidade como o principal entrave à sobrevivência da atividade com as camadas jovens.

“Na nossa equipa da Casa do Povo sempre houve falta de apoio. Eu conheço minimamente os clubes que gerem aqui futebol à nossa volta (…) e no nosso concelho há muito pouca ajuda ao clube. Depois as pessoas cansam-se, a direção da Casa do Povo está cansada neste momento do futebol. Para eles, neste momento, o melhor era talvez terminar”.

“Pela autarquia o mesmo. Já temos quatro meses de treinos e de atividade e eu nunca vi aqui nem presidente da Câmara, nem vereador do desporto (…). Ando eu aqui a levar isto para a frente para que isto não termine e para que os miúdos saiam da escola e tenham uma atividade, e eles gostam mesmo disto”.

Para além da falta de apoio, Wilson Leite aponta dificuldades que se fazem sentir ao nível das instalações e do próprio equipamento. “Nós temos um campo sintético, apesar de já estar muito batido e devia ser penteado, regado no Verão e não é”.

O “campo miserável” é marcado por uma envolvência repleta de ervas, por portões que não fecham e por balneários sem as condições adequadas para acolher os jogadores da casa e as equipas adversárias.

A autarquia chegou a instalar novos balneários, junto aos atuais, há cerca de dois anos, instalações que ainda se encontram por inaugurar. “Foram postos cá há cerca de dois anos e foi-me garantido de que seriam inaugurados por mim, numa equipa sénior que eu treinava aqui na época. Já saí dessa equipa há dois anos e ainda estão por inaugurar”, afirmou.

“Neste momento não tenho balneários, condições, não sei se tenho água quente para poderem tomar banho. Já adiei vários jogos por causa disso”, referiu ainda o técnico.

A própria captação de atletas para treinar no clube é dificultada pelas atuais condições que este oferece. “Não é fácil cativarmos miúdos para aqui quando existem tantos clubes à volta com melhores condições. Se viermos ao campo e lhes apresentamos as condições que temos neste momento, claro que nem os pais os inscrevem”.

“Essa é a nossa maior dificuldade. Mas eu estou cá e vou dar sempre a cara para que dias melhores venham”, refere Wilson Leite.

Sendo o principal responsável pela preparação e execução dos treinos, o treinador conta com a ajuda que refere ser uma “mais-valia” por parte de “rapazes da terra” e dos próprios pais dos atletas, para poder “levar isto para a frente”. “É o que se vê, aguentamos até dar”, afirma.

“Eu gosto muito dos miúdos e de os ver crescer, é por isso que estou cá há tanto tempo. Não vou deixar que o futebol em Montalvo morra por eu ter de abandonar. Não, não vou deixar que aconteça”, garante.

Como máximas desportivas, defende o “fair-play” entre os jogadores e o “jogar por amor” ao desporto e não com o objetivo de ganhar a todo o custo. “Claro que no desporto temos de ganhar sempre, mas também temos de saber perder. Isso numa equipa, num jogador e num treinador é fundamental. Primeiro aprender a perder e depois, sim, aprender a ganhar”, defendeu.

Durante os treinos procura formar jogadores “corretos”, que aprendam as regras, a técnica mas, acima de tudo, que “aprendam a jogar e a divertir-se”. “No fundo, isto é diversão para eles” e um escape desportivo.

“Tento passar a mensagem de que não há adversários. Hoje um miúdo está aqui e tem um colega como adversário, amanhã está no mesmo balneário que ele, não pode haver picardias. Hoje está a defrontá-lo, daqui a um ano está na mesma equipa e o futebol é mesmo isto. Desde pequeninos que tento passar essa mensagem, de que isto é apenas futebol e é para eles se divertiram, praticarem desporto e não há rivalidades”, defende Wilson Leite.

Ao longo das duas últimas décadas já ajudou a formar centenas de atletas, afirmando que é isso mesmo que o move, ver o crescimento e a sua evolução enquanto jogadores. “Começamos a ganhar um carinho por eles” e a amizade também se constrói em equipa.

“Ano após ano podemos dizer que para o ano não vimos, que estou cansado e perco muito tempo da minha vida para estar aqui, mas depois no ano seguinte volta tudo ao início e venho com todo o gosto. Estou cá e começo a ver os miúdos, alguns que nem um chuto sabem dar na bola, chega-se a meio da época e já sabem, já cresceram e evoluíram. É isso que me move, esta paixão”, destaca o técnico.

Foto arquivo: Luís Ribeiro/mediotejo.net

O seu papel enquanto treinador é conciliado com a sua atividade profissional, requerendo muito trabalho e disponibilidade temporal para poder preparar os treinos.

“Algumas pessoas não têm noção do trabalho que nós treinadores temos. Eu falo por mim, um treinador que goste e que se aplique não é só chegar aqui e dizer que vamos correr, ou fazer isto e aquilo. Dá mesmo muito trabalho e não é fácil. Por vezes andamos no nosso dia-a-dia, no nosso trabalho profissional, a pensar como vamos fazer o treino hoje, como vai correr”, conta.

Quanto à rotina diária, Wilson Leite afirma existirem dias em que sai de casa às 07h00 e apenas regressa por volta das 23h00, horário em que ainda irá jantar e “mexer em coisas do futebol, para preparar o dia seguinte. Não é muito fácil. É trabalho de domingo a domingo, são todos os dias futebol”, afirma.

Embora tenham contado com uma carrinha da Associação, na época passada, para o transporte de jogadores, atualmente as deslocações são asseguradas pelos pais e pelo técnico de Montalvo.

Ana Paula, mãe de um dos atletas, é presença assídua durante os treinos. Em declarações ao mediotejo.net, afirma que o filho não precisou de incentivos e que este é um importante momento da rotina semanal para o seu desenvolvimento e crescimento.

Ana Paula, mãe de um dos atletas. Foto: mediotejo.net

“Eu não preciso de incentivar o meu porque ele adora isto. É uma maneira de se manter concentrado e gastar energia. É bom praticar desporto e como é perto de casa, dá sempre jeito. É uma mais-valia para Montalvo e Constância, porque há aqui miúdos de Constância também”, destaca.

Os pais mostram-se disponíveis para auxiliar a equipa e o próprio treinador, realizando as mais diversas atividades, seja na preparação de lanches, angariação de fundos e até no transporte dos mais novos.

“Por exemplo, quando têm os torneios, nós é que fazemos as sandes. Os pais juntam-se aqui todos, abrimos o bar para conseguir ganhar algum dinheiro. Levamos os meninos aos jogos, porque eles não têm transporte, são os pais que levam as crianças”, conta a mãe. “Nós fazemos tudo pelos filhos, chega-se a todo o lado”, acrescenta.

Barquinha Gonçalves é o pai da única menina em campo, no momento em que o mediotejo.net assistiu ao treino da equipa da Casa do Povo. Ao nosso jornal, contou que tudo é feito com “um bocadinho de esforço por amor, porque se for por sacrifício não dá”.

A jovem atleta desde cedo manifestou o gosto pela prática desportiva e por se manter em movimento. Depois de ter pedido para ingressar na equipa de futebol de Montalvo, o pai rapidamente acedeu e hoje é um dos membros do grupo de pais que acompanha o treino dos filhos.

Barquinha Gonçalves, pai de uma das atletas da Casa do Povo de Montalvo. Foto: mediotejo.net

“É uma atividade extra e eles aprendem. Além disso, têm ali o Wilson que os incentiva e os orienta”, destaca. Para o futuro fica a esperança de que o treinador se mantenha ao serviço e continue a manter vivo o futebol na freguesia de Montalvo.

“Esperemos que ele continue, porque isto é por carolice. Ninguém tem vencimento, as pessoas estão aqui mesmo por gosto. Que se divirtam e que sejam felizes, é o que nós pais pretendemos para os nosso filhos”, sublinha.

Depois de duas décadas na formação de jogadores, Wilson Leite recorda que a presença e disponibilidade dos pais durante os treinos têm sofrido algumas alterações.

“O ano passado, em competição, tinha um grupo de pais muito bom, que ajudava no que podia, mas mais também não podiam fazer. Nestes últimos anos, têm ajudado. Inicialmente, quando tudo começou, tinha pais que numa época inteira nunca os conseguia ver. Ia buscar os filhos a casa e trazia-os para o treino e no fim ia levá-los. os pais não tinham preocupações e também não apareciam.

Foto: mediotejo.net

Enquanto existir futebol em Montalvo, Wilson Leite promete continuar a contribuir “da forma que puder”, mas espera contar com o apoio da Casa do Povo de Montalvo, da Junta de Freguesia de Montalvo e, principalmente, da Câmara Municipal de Constância.

“Eu estou muito desgastado, já são muitos anos. Treino outras equipas onde tenho todas as condições e eu chego aqui e não tenho ninguém. Tive sim, durante cerca de 14 anos, uma grande ajuda que foi um senhor que esteve cá comigo e era praticamente o pilar do futebol e desde que deixou isto ficou praticamente encarregue a mim. Eu é que tenho de suportar tudo”, refere o técnico, sem se lamentar mas apelando por mais incentivo à atividade desportiva e por mais carinho e apoios para as camadas jovens.

Para o futuro, deixa o desejo de aumentar o número de equipas e de melhorar as condições e o aspeto do campo. “Desejo também que as pessoas se envolvam mais na Casa do Povo de Montalvo, no desporto e no futebol em concreto. Esse era o meu maior desejo, ver estes miúdos crescer e terem continuidade para poderem prosseguir a prática do futebol”, conclui.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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