3ª conferência AO.RI organizada pela Tagus. Créditos: mediotejo.net

A pensar “nos anos da Inteligência Artificial, no futuro” talvez os historiadores “digam que existiam gentes que faziam objetos”. As palavras, sobre o tempo atual, foram do mestre Luciano Silveira, da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, na palestra “Aprender a pensar com as mãos”, durante a 3ª conferência AO.RI organizada pela Tagus – Associação para o Desenvolvimento do Ribatejo Interior.

O mestre lembrou o pensamento do fundador da instituição, onde trabalha há cerca de 30 anos, considerando que “as artes decorativas, muitas vezes consideradas como artes menores, são, na realidade a mais alta expressão da civilização e da elegância”.

A terceira edição desta conferência anual, subordinada a temas como a capacitação e o turismo associados às artes e aos ofícios, para inspirar os transmissores deste legado artístico e cultural do território, foi preparada pela Associação para o Desenvolvimento Integrado do Ribatejo Interior, juntamente com os Municípios de Abrantes, de Constância e de Sardoal, no Pego. Desta feita com a designação “Trilhos das Artes & Ofícios”, o evento também assinalou na quarta-feira, 19 de março, o Dia Mundial do Artesão.

Na conferência, os artífices foram reconhecidos como um “elo” entre o passado e o presente, mas também se falou, como referido, de futuro, nomeadamente pela voz de Nuno Alves, do Município do Fundão, que trouxe até ao Pego o Fab Lab, ou seja, um laboratório de fabricação digital, aplicado, por exemplo, à olaria.

3ª conferência AO.RI organizada pela Tagus. Créditos: mediotejo.net

Agarrando na explicação anterior de Pedro Silveira, igualmente do Fundão, que deu conta da existência de 14 “casas e lugares de sentir” distribuídas pelo concelho, onde se aprende sobre ofícios tradicionais, como a tecelagem e o ciclo do linho, fazer queijo, cestaria, olaria ou mesmo a construir e a tocar bombo, Nuno Alves destacou a evolução tecnológica aplicada ao artesanato, isto é, a fabricação digital, com prototipagem rápida e novas ferramentas, sem perder a capacitação e a identidade.

O Fab lab “tem uma vantagem, ou uma forma de funcionar que nós achamos que se aplica ao artesanato. Este nosso projeto tem a parte da experimentação e do contacto em que o Pedro leva todos os alunos à escola. Depois temos uma formação à medida e temos formação certificada. Percebemos que as pessoas tiram a formação e ou vão montar a sua oficina ou param. Quisemos transpor para estes espaços aquilo que chamamos Olaria Lab e Cestaria Lab onde as pessoas podem tirar a sua formação e nesse espaço, mediante marcação, podem continuar o seu trabalho”, explicou.

O Laboratório de Fabricação Digital começou com o projeto Agricultura Lusitana, das Aldeias do Xisto, “em que nós desenvolvemos trabalho com a Universidade de Aveiro e com as universidades de Design do País. Achámos que faria sentido estas novas máquinas ou estes novos serrotes, aplicá-los nas Casas”, designadamente na dedicada ao barro, à cestaria e, mais recentemente, aos embutidos, referiu.

Para a Casa do Barro “criámos uma impressora 3D Cerâmica que tinha um principal objetivo: a mesma pasta que usamos na roda seria a mesma pasta que usamos na máquina e conseguimos fazer isso, com uma pequena diferença; adicionámos chamote à pasta para ter mais estrutura e uma secagem mais rápida. Mantendo sempre as formas e tipologias de peças tradicionais”, explicou.

3ª conferência AO.RI organizada pela Tagus. Créditos: mediotejo.net

A conferência “Trilhos das Artes & Ofícios” é a primeira das atividades, para este ano, do projeto AO.RI, que tem o objetivo de promover e valorizar as artes e ofícios tradicionais do Ribatejo Interior, que representam as vivências, os saber-fazer ancestrais, a identidade e a cultura de Abrantes, Constância e Sardoal, que se pretende que faça parte da oferta dos produtos turísticos.

Nesse âmbito a coordenadora da Tagus, Conceição Pereira, apresentou a Rota Turística das Artes e Ofícios do Ribatejo Interior, com 25 pontos a visitar e 26 artesãos. Ou seja, um percurso turístico integrado de artes e ofícios do Ribatejo Interior e experiências imersivas. Para tal foi criado um percurso turístico integrado de interpretação e contacto com o “saber-fazer”.

A responsável referiu igualmente o programa Erasmus + Educação de Adultos e explicou os objetivos da mobilidade, como o proporcionar oportunidades de aprendizagem aos artesãos, apoiando o seu desenvolvimento profissional, reforçando a dimensão europeia do ensino e da aprendizagem, e promovendo valores como a inclusão, diversidade, tolerância e participação democrática.

Por outro lado, destacou, tal permite melhorar competências básicas e sociais, desenvolvendo a literacia, numeracia e competências digitais, aumentando a participação de adultos na educação, independentemente da idade ou do contexto socioeconómico, ou capacitar agentes dos territórios e promover o empreendedorismo, fomentando a autocapacitação, autoestima e sentido de iniciativa.

Conceição Pereira revelou que dez artesão do território da área de influência da Tagus irão à Estónia de 7 a 12 de abril deste ano, para conhecer de perto o trabalho artesanal daquele país do Leste europeu.

Aliás, Anna Liisa, da Estónia, fez uma intervenção na conferência, via online, para explicar o Folk Art, uma organização sem fins lucrativos, que valoriza, preserva e desenvolve o artesanato nacional e as tradições como um fenómeno cultural e como fonte de rendimento.

A Folk Art que é membro da Organização Europeia de Artesanato e da Associação do Artesanato Nórdico, alia o artesanato tradicional à inovação, nomeadamente à moda e ao design, explicou a responsável.

3ª conferência AO.RI organizada pela Tagus. Créditos: mediotejo.net

Outro objetivo da mobilidade do programa Erasmus + referido por Conceição Pereira passa exatamente por aumentar a sensibilização para a interculturalidade, melhorando as competências linguísticas em línguas estrangeiras e estimulando o contacto com novas culturas e formas de trabalho.

Uma das novidades anunciadas foi as oficinas do Mestre Aprendiz, uma iniciativa que visa celebrar as tradições e o ‘saber fazer’, pelas mãos dos últimos mestres destes ofícios, preservando a identidade e a cultura local, dinamizando, assim, a economia local, a oferta turística e o empreendedorismo.

Assim terão lugar no próximo mês de maio e junho três oficinas; uma de Registos ou Santinhos do Pego, dia 31 de maio, por Maria Joaquina Mascate, no salão nobre da Junta de freguesia do Pego, com duração de oito horas, outra de Bonecas de Perna de Cana de Constância, nos dias 3 de maio a 14 de junho, por Palmira Governo, nas instalações da CPCJ, em Constância, uma formação que terá a duração de 23 horas e 30 minutos, e uma terceira ação de Tecelagem em Tear de Linho na Cooperativa Artelinho, em Alcaravela, Sardoal, de 1 a 10 de maio, com duração de 16 horas.

Todas as formações aceitam formandos a partir dos 14 anos. A ideia passa por gerar atração para as faixas etárias mais novas, para que possam apostar na área, evitando-se que muitos dos usos e costumes desapareçam dada a idade avançada dos mestres artesãos.

3ª conferência AO.RI organizada pela Tagus. Créditos: mediotejo.net

A coordenadora da Tagus abordou ainda as ações do programa + Interior Turismo que pretende a capacitação dos agentes locais, com foco em práticas de hospitalidade, gestão de empresas turísticas e valorização dos produtos artesanais.

Também a estruturação de roteiros e pacotes, ou seja a criação de roteiros temáticos e pacotes turísticos flexíveis, com experiências autênticas. E ainda a digitalização da Rota para fomentar interação e colaboração entre os participantes e a certificação da Rota como ‘Turismo Sustentável’.

ÁUDIO | COORDENADORA DA TAGUS, CONCEIÇÃO PEREIRA

Presente na conferência esteve também a empresa Spira, de Vila Nova de Barónia, Alvito. Catarina Valença Gonçalves explicou a sua visão que comporta técnicas tradicionais orientadas para o futuro, ou seja, inovar, traçando quatro linhas de trabalho da empresa à escala nacional: imersões artes e ofícios; dias abertos artes e ofícios/novo design; bienal artes e ofícios/novo design; e prémio nacional artes e ofícios/novo design.

Notando que a Spira dedica-se, há 27 anos, a “aproximar as pessoas do Património Cultural”, assegurou que o mesmo em Portugal “pode gerar o triplo das receitas atuais”, e fez as contas, afirmando haver 56 milhões de potenciais visitantes, o que corresponderia a uma receita anual de 224 milhões de euros, gerando um emprego a tempo inteiro por cada 25 mil visitantes por ano.

“As artes e ofícios e o novo design podem contribuir diretamente para esse propósito”, disse Catarina Valença Gonçalves, acrescentando que “temos uma última janela de oportunidade de 10 anos máximo para explorar esta possibilidade de desenvolvimento harmonioso”.

3ª conferência AO.RI organizada pela Tagus. Créditos: mediotejo.net

Marcou presença, igualmente, José Rafael Antunes do Município das Caldas da Rainha, que falou da arte maior daquele território; a cerâmica, não descartando todavia outras artes. Referiu a Associação Portuguesa de Cidades e Vilas de Cerâmica e do 51º Congresso da Academia Internacional de Cerâmica, que decorreu em setembro de 2014, dedicado ao tema ‘A cerâmica no mundo mediterrânico: da antiguidade à contemporaneidade” e do trabalho realizado pela autarquia na valorização do artesanato.

A 3ª conferência AO.RI organizada pela Tagus contou com a intervenção do presidente da Câmara Municipal de Abrantes na abertura dos trabalhos.

“O nosso objetivo mantém-se claro; promover e valorizar as artes e ofícios tradicionais que representam as vivências e o ‘saber fazer’ ancestral deste nosso território e das suas gentes, tornando-as mais atrativas para as novas gerações”, começou por dizer Manuel Jorge Valamatos.

3ª conferência AO.RI organizada pela Tagus. Créditos: mediotejo.net

Afirmou que “o nosso artesanato tão bem representado pelos produtores típicos da Aldeia das Casas Baixas e a nossa gastronomia promovida aqui no Pego pela Confraria do Bucho e das tripas são pilares de identidade maior abrantina”.

Porém, segundo o autarca, “não basta preservar a memória, precisamos também de garantir que os nossos mestres sejam reconhecidos como um dos mais valiosos ativos na nossa região, ocupando cada vez mais um papel relevante na economia e na estratégia do desenvolvimento regional”.

ÁUDIO | PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE ABRANTES, MANUEL JORGE VALAMATOS

Também Paulo Teles Marques da CEARTE e Rita Jerónimo da Direção Geral das Artes falaram da relevância das artes tradicionais tendo a responsável da DGA destacado a importância de “assumir que as artes tradicionais têm o mesmo valor das restantes artes que defendemos no programa ‘Saber Fazer'”.

Esta iniciativa vem na continuidade dos trabalhos deste projeto desenvolvido pela Tagus, com o apoio do Centro2020, do Portugal2020 e apoiado pelo FEDER, e que foi finalista do Prémio Nacional de Artesanato 2023, na categoria Entidades Privadas.

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A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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