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As comparações são odiosas, firmam os fleumáticos leitores e discípulos do famoso Dr. Johnson, notável pensador, poeta e ferino observador da sociedade inglesa. Sendo assim, e é, estabelecer comparações entre as práticas culinárias de há escassos cinquenta anos e as de hoje é querer esconder o sol com uma peneira, porque desde a matricialidade dos produtos até às técnicas de preparar os comeres, passando pelas convivialidades, o fosso de separação das duas datas é enorme.

A pandemia, por si só, produziu tremendas alteridades porque mata. Porque antes da senhora da Gadanha fazer o seu macabro trabalho, a peste traz com ela sofrimento, lágrimas e raivas dada a impotência no seu erradicamento. Esta virulenta evidência leva os poderes a estabelecerem normas sanitárias que favorecem o florescimento da banalidade global das efemérides com a consequente tristeza conformada dos comeres dessas mesmas datas nomeadas e festivas.

Arranjar um ganso, um galo ou um peru alimentados com couves e farelos passou a ser raridade ou segredo bem guardado. O mesmo se desenrola no tocante à formidável constelação de fritos e doces regionais. Porque a sua confecção dá imenso trabalho, as pessoas estão cansadas e amedrontadas e os amesendados na noite luminosa foram reduzidos ao ínfimo de cada família nuclear.

Em face de tão robusta verdade manda o bom senso, economia e forçada imobilidade reduzirem-se os comeres natalícios. Os felizes detentores de galinhas velhas façam das mesmas canhas com enxúndia, dourem-nas no forno, quem possuir perus e peruas não se esqueçam de embebedar as aves a fim de a sua carne ficar mais tenra, os gansos devem merecer condimentos do terrunho antes de irem receber os efeitos de fornos de lenha bem aquecidos.

No tocante a coelhos escuso-me de lembrar preparos culinários, no naipe das sobremesas voltem a confeccionarem arroz-doce com canela em floreados e leite-creme queimado a preceito.

Vinho a condizer, suspiros de saudade, telefonemas mata tempo e sonhos felizes sugiro e, aproveito o ensejo, para voltar a desejar Boas Festas.

Armando Fernandes

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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