Depois de profundas obras de requalificação, a antiga Casa Memorial Humberto Delgado (inaugurada em 1996 na aldeia de Boquilobo, onde o “general sem medo” nasceu), será a partir de agora um centro de estudos sobre o republicanismo e a oposição à ditadura portuguesa.
Em 2018, o município assumiu a gestão da Casa (propriedade da Junta de Freguesia da Brogueira) para poder avançar com obras de recuperação e criar um novo espaço onde, além da memória do general Humberto Delgado, se pudesse honrar também o exemplo dos vários torrejanos envolvidos na luta contra a ditadura, entre 1926 e 1974 – onde se destaca, por exemplo, a jornalista e escritora Maria Lamas.
O ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, recordou ainda outros portugueses que lutaram pela conquista da liberdade, como Aristides de Sousa Mendes, Mário Soares, Álvaro Cunhal e Salgueiro Maia.
No seu discurso, no domingo de manhã, frisou que a democracia “não é um tema setorial, é [uma] prática que deve atravessar a nossa sociedade, a nossa vivência e o nosso dia-a-dia”. Uma ideia que se pretende reforçada, quando o país se prepara para assinar os 50 anos do 25 de Abril.

“Falar de Humberto Delgado é falar em bravura, liberdade e democracia”, disse na cerimónia Manuel Carvalho Júnior, presidente da União de Freguesias de Brogueira, Parceiros da igreja e Alcorochel. O autarca ressalvou a importância de manter viva a memória do general, “que os nossos jovens aos poucos vão esquecendo”.
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O Centro de Estudos Humberto Delgado tem o apoio científico do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) do ISCTE, Instituto Universitário de Lisboa.
Ao mediotejo.net, Pedro Ferreira, presidente da Câmara de Torres Novas, referiu a importância destas “parcerias com entidades de referência”, e particularmente neste projeto, uma importante “aposta cultural, turística e educacional” do município.
O piloto-aviador que criou a TAP, ousou desafiar Salazar e acabou assassinado pela PIDE

Humberto Delgado nasceu a 15 de maio de 1906 na aldeia de Boquilobo, em Torres Novas, tendo frequentado o Colégio Militar entre 1917 e 1922, e a Escola do Exército, onde se formou em Artilharia em 1925. Em 1928 optou pela carreira na aeronáutica, segundo o curso de oficial piloto aviador.
Em 1942 participou nas negociações com Inglaterra para a cedência das bases nos Açores durante a II Guerra Mundial e, em 1944, foi nomeado para liderar o Secretariado de Aviação Civil. Um ano depois fundou a TAP – Transportes Aéreos Portugueses.
Contudo, é a partir de 1958 que a maioria dos portugueses fica a saber quem é Humberto Delgado, quando ele se apresenta como candidato independente à Presidência da República. Acabara de regressar a Lisboa, depois de alguns anos como adido militar na Embaixada de Portugal em Washington, e quando começou a falar publicamente na urgência de derrubar o governo, Salazar comentou com Marcelo Caetano que o outrora “menino-prodígio” da aviação nacional tinha vindo “estragado” da América…
Durante a campanha eleitoral, ficou para a História a resposta dada ao jornalista Lindorfe Pinto Basto, da agência France-Press, quando este lhe perguntou:
– “Sr. General, se for eleito Presidente da República, que fará do Sr. Presidente do Conselho [Salazar]?”
– “Obviamente, demito-o!”
A vitória viria a ser declarada para o candidato do regime, Américo Tomás, e Humberto Delgado exilou-se no Brasil. Em 1965 deslocou-se a Badajoz para o que pensava ser um encontro com opositores ao regime, mas à sua espera estavam elementos da PIDE. O general foi morto a tiro e a secretária que o acompanhava morreu estrangulada.
Só depois do 25 de Abril de 1974 foi possível fazer a transladação para Portugal (para o Cemitério dos Prazeres, em Lisboa) e, em 1990, os seus restos mortais foram colocados no Panteão Nacional.
Em 2015, no 50.º aniversário do seu assassinato, a Câmara Municipal de Lisboa propôs ao governo que o aeroporto da capital se passasse a chamar “Aeroporto Humberto Delgado”, o que veio a ser oficializado em 2016.




