Pão de centeio. Foto: DR

Na semana passada serviram-me entre outros pães uma fatia de pão escuro, pesado, um pouco ácido e áspero. Era de centeio. Logo recordei a minha meninice na aldeia transmontana onde o pão de cada dia era o centeio cultivado nos terrenos pobres, escarpados, polvilhados de castanheiros.

O centeio às vezes recebia o aconchego da farinha de trigo, era o pão de mistura. Algumas pessoas elaboravam bolos gulosos, porém a minha avó preferia a farinha de trigo e a manteiga para esse efeito.

Só muito mais tarde vim a saber e saborear pão de centeio na qualidade de bom acompanhante de ostras, mariscos, peixes fumados e ovas, quem diria!

Na aldeia se recebia uma «emulsão amanteigada» de toucinho constituía guloseima de truz, uma fatia de presunto grande merenda e por aí adiante pois as pessoas, mesmo de centeio, tinham de ser parcimoniosas. Não por acaso um dos maiores prosadores da língua portuguesa escreveu Pão Partido em Pequeninos, obra do Padre Manuel Bernardes, infelizmente para a larga maioria dos portugueses não é do seu conhecimento. Bem sei, escreve genialmente, ao nível de António Vieira e Francisco Manuel de Melo.

O centeio é rico em vitamina D, ferro e enxofre, sendo originário da Anatólia e Turquia, generalizou-se na Europa na Idade do Ferro.

Armando Fernandes

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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