Foi num restaurante sito na freguesia de Freixianda que comi pela última vez, há mais de vinte anos, um filete de carne de cavalo. Na famosa preparação steak tartáro, a carne dos equídeos é considerada a mais saborosa, comungo dessa opinião, no entanto, os talhos hipofágicos são em reduzido número porque as pessoas continuam a manter reservas ao seu consumo.
Valha a verdade que, apesar dos cavalos terem salvo milhares e milhares de vidas no decurso de sangrentas batalhas (as campanhas napoleónicas são disso exemplo), o consumo legal da sua carne só foi legalizado em França no ano de 1856, primeiramente abatendo-se os animas de tiro, posteriormente as raças destinadas a esse fim, preferindo-se os poldros.
A polémica relativa à entrada da sua carne no universo da gastronomia desencadeou discussões acesas, por isso mesmo o famoso Parmintier, na companhia de notáveis personalidades da inteligência francesa dessa época, levaram a efeito um banquete no qual tudo quanto foi servido, desde as entradas até à sobremesa, continham elementos provindos da dita carne, mais adocicada é certo, porém refractária à tuberculose e à ténia.
Nos vários receituários que possuo referentes aos cavalos enquanto fornecedores de carne, esta matéria-prima culinariamente é tratada da mesma maneira que a dos bovinos.
A enorme transformação, ocorrida nos últimos setenta e cinco anos (fim da II Guerra Mundial) levou ao incremento dos transportes ferroviários e rodoviários, assim como no que tange a conflitos armados, por tais razões os efectivos cavalares foram drasticamente reduzidos. Se dúvidas existirem, verifiquem-se as estatísticas das Juntas Distritais do regime salazarista, especialmente as do distrito de Santarém.
Caro leitor: o cavalo é elemento não só simbólico na província ribatejana, apesar de assim ser, o progresso científico e técnico levou a poucas pessoas encararem o milenar animal na categoria de alimento primordial.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, cantava Manuel Freire, por isso os cavalos destilam. Saltam, enfrentam toiros, surgem nas feiras e festas de regozijo, nos momentos de luto nacional, nos funerais de Estado e estadão, ou não tivessem sido e são signos significantes de poder, riqueza, luxo e ostentação.
