Birras, berros, choro e ranho, ameaças, castigos, o jantar tantas vezes salvo do esturro por um triz, a água do banho sempre a arrefecer, vá, depressa, tudo na mesa a desoras, trabalhos de casa terminados fora d’horas, despacha-te a comer, está na hora de ir para a cama, mais birras, choro, protestos: todos os dias entre as sete e as dez da noite, mais ou menos coisa, reina o caos lá em casa.
As minhas filhas passam cerca de dez horas na escola. D-E-Z. A mais nova, ainda no Jardim de Infância, diz que quando for para a escola dos crescidos não vai fazer trabalhos de casa. E eu percebo-a; talvez esteja na altura de revermos – todos – este famoso método de estudo.
Não está certo exigir às crianças foco e dedicação depois de tantas horas na sala de aula e outras tantas nos ATL’s, como se as rotinas das famílias tivessem congelado no tempo e dispuséssemos hoje das condições de vida de há 50 anos. Quanto a mim, os TPC são um método desatualizado, pouco produtivo, desgastado.
Quantos pais têm hoje em dia horários que lhes permitam ajudar os seus filhos e acompanhá-los nas tarefas escolares? Quantos chegarão a casa com disposição e energia para transformar esse momento em tempo de qualidade com as crianças? Poucos, certamente, e este, creio, é o ponto fulcral desta questão.
Há dias em que os famosos TPC são um verdadeiro martírio e tudo porque, no meu entender, é pouco o tempo disponível para os fazer. E nisto, talvez os pais das crianças em idade escolar, sobretudo no Ensino Básico, devam começar também a debater-se por melhores condições laborais, porventura com um horário flexível, ajustado à realidade atual e à sobrecarga de tarefas de pais e filhos.
É verdade que os deveres escolares invadem o tempo das famílias roubando-lhes tempo para conviverem e descobrirem novas formas de aprendizagem e aquisição de conhecimento. Não é verdade que tenhamos de viver sobrecarregados, constantemente cansados, arreliados.
Nas últimas férias da Páscoa a minha filha não fez os TPC. Nem uma página. Nada. Mandámo-la para a aldeia e deixámos na cidade todos os livros e cadernos. Foi um esquecimento semi-intencional, confesso. Há mil e uma formas de aprender, é certo, e a que advém da curiosidade infantil é possivelmente a mais feliz e eficaz de todas elas.
Se a escola não quer saber disto, paciência. E é pena o Ministério da Educação não valorizar essa coisa saudável que é não ter nada para fazer. Chega de contas, cálculos, leitura, gramática e afins ao serão, todos os dias, nas férias, a torto e a direito.
Os TPC têm vantagens e desvantagens, não tenhamos dúvidas, mas é urgente revermos a matéria dada, fazer a prova dos 9 à sua eficácia, avaliar se faz realmente sentido esta carga de trabalhos. Haja bom senso, se faz favor.
Nos dias que passou na aldeia a minha filha não deixou de estudar, pelo contrário; consta que leu o jornal do avô (e as placas toponímicas que foi encontrando nas viagens que fez), aprendeu a técnica da ordenha e da produção de queijo fresco, descobriu várias plantas espontâneas no meio dos morangueiros, pôs em prática as regras rodoviárias quando a deixaram sair para andar de bicicleta, ficou a conhecer as tradições pascais da Beira Baixa e, ao que parece, até consultou o dicionário (para procurar o significado da palavra tédio). Há lá coisa melhor que o aborrecimento das férias?
