Foto: auntmasako, Pixabay

O popular dito – não te armes em carapau de corrida – tem o significado de advertir o visado para não se armar naquilo que não é, pois os carapaus são peixes de grande valor sápido sem cozinhados com maestria, muito estimados não só pelos gatos, também por mulheres e homens desprovidos de preconceitos velhos e relhos dos tempos em que as classes ociosas viviam dentro da fórmula das hipócritas púbicas virtudes e vícios privados. Essa gente aparentava detestar os carapaus, no entanto, os populares e nessas épocas muito baratos carapaus aconchegavam-lhe os estômagos no recato das residências outrora faustosas e fartas por via de rendas e vendas de património herdado vindo de presas aflitas e empresas falidas. A fórmula – carapau para o gato – vem daí, os bichanos agradeciam a deferência e exultavam com tão boa guloseima. Os tempos mudaram, os carapaus encareceram, as normas comunitárias impedem a delapidação dos cardumes, os jaquinzinhos fritos atingiram estatuto de vedetas culinárias e já são objecto de atenção por parte de chefes e cozinheiros da ribalta. Quem diria!

Os gatos deixaram de usufruir de sustento qual maná, os turistas também gostam de charrinhos (apoda açoriano) seja na companhia de substancioso arroz de tomate, seja acamados em saladas de várias índoles, seja ao modo dos antigos operários – de cebolada, frios, em escabeche – acolitados por casqueiro (pão militar) e copos de três cheios de carrascão retirado dos pipos das carvoarias e tascas que se travestiram um pouco por todo o lado.

No pedómetro da Nazaré ainda se vêm exemplares a secarem ficando «tesos como um carapau», depois de demolhados consomem-se cozidos coadjuvados por batatas do mesmo modo, cebola picadinha e polvilhados com pimentão, além de trazerem o sal da cozedura. Experimentem.

Além de fritos de acordo com a canónica tríade – seca, estaladiça e dourada –, fico contente quando os degusto assados no forno acobertados com cebola e num molho composto por vinho branco, azeite, louro, rodelas de cebola, um dente de alho picado, uma folha de hortelã, uma rodela de laranja e grãos de pimenta, de qualquer cor. Na companhia de molho vilão de igual modo, só que fritos.

A marcha da Mouraria não ganhou o concurso na noite do Santo dos amores, todavia ganhou o carapau na qualidade de elemento principal das comezainas.

Armando Fernandes

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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