Estas linhas são bem capazes de escaldar, ferventes que estão por terem saído do lume agora mesmo, e talvez também estejam insossas, senão mesmo ligeiramente envinagradas. O caso não é para menos, como verão, e a culpa é do jantar.
– Ó mãe, então aquelas pessoas estão todas constipadas?
– Não, elas estão é com medo de morrer. Por isso é que têm uma máscara, responde a irmã.
As notícias entram por ali adentro e estendem-se sobre a bancada da cozinha, sem pedir licença, nem um espirro prévio como aviso, nada, e ambas fixam as imagens com atenção. As imagens são servidas mal temperadas, desenxabidas, cruas para quem ainda acredita que os caldos de galinha têm o poder de curar quase tudo.
– Morrer porquê? Na China não há canjinha? Ó mãe, hoje podes fazer canjinha?
– Canja não, mãe, tu não sabes fazer canja. Eu só gosto da canja da avó O.
– Mas eu quero! Não quero ficar doente e morrer. Eu ainda nem fui à Disney!
Jantámos pois uma canjinha a preceito, daquelas que reconfortam o corpo e embalam a alma, e espantam medos e coronavírus. Modéstia à parte, estava bem boa, apesar das queixas da mais velha. Fi-la como faz a avó O, apenas com o fígado e moela de uma galinha poedeira criada no campo a boiar na panela e uns fiapos de carne e umas, poucas, massinhas. Estava preciosa, dizia a mais nova, enquanto a mais velha:
– Eu só gosto da canja da avó O. Tu não sabes fazer nada!
Nasci numa família de gente sem jeito para a cozinha, é verdade, circunstância que ainda hoje lamento e tento contrariar enchendo as estantes com livros de culinária e os anos com experiências gastronómicas.
Sei de cor onde comi uma fabulosa empada de lebre e onde servem o melhor cabrito estonado, em que restaurante provei uma cabidela de coelho divinal e no qual descobri as maravilhas de um pregado escalado. Lembro-me igualmente do dia em que fiz as melhores codornizes que já comi na vida e do penoso jantar em que decidi preparar um arroz selvagem com vieiras. Uma desgraça.
Cozinhar é um ato de amor, sim, mas exige talento e persistência, e é provável que esta última apure o do meio. É por isso que ainda não desisti de conseguir igualar a canja da avó O, cozinheira de mão-cheia e mestre na arte de servir sabores antigos. Superar vai ser difícil, digamos que tenho noção.
A canja desta crónica não leva cebola, nem cenoura, milho pimento ou hortelã, muito menos os famosos cubinhos, só galinha criada ao ar livre e umas pedras de sal no caldo, que deve ferver sem pressas. Ora, desconfio que foi isso que me faltou agora mesmo: tempo. Talvez este seja o segredo da famosa canja da minha sogra e não apenas um pormenorzinho sem importância.
Acontece que o tempo, como sabem, está pela hora da morte. As mães com filhos pequenos que o digam. Muita sorte não ter enfiado tudo na panela de pressão e já está. Ou ter servido um certo arroz selvagem com cogumelos e vieiras.
– Tu não sabes fazer nada! (As coisas que uma mãe ouve)
Aposto que ainda tinha a barriga cheia do lanche, duas fatias mal torradas de pão de forma, e uma bebida deprimente a imitar sumo de laranja natural. Ao menos que fosse pão caseiro torrado nas brasas, como me fazia a minha avó Amélia.
O que me valeu foi ver a mais nova a espreitar para dentro da sopeira e a perguntar fervorosamente se podia repetir. Está deliciosa, mãe, dizia ela com convicção. E tinha razão, ainda por cima.
