Vista sobre rio, em Ponte de Lima. Reza a lenda que o rio Limia (dos romanos) era apelidado pelos gregos por Lethes, que significa esquecimento. Fotografia: Paulo Constantino

Escrevo-vos enquanto ouço a intensidade da precipitação no solo, na ânsia de evitar que a seca me contagie de sedes insaciáveis que toldam o pensamento com miragens de oásis infindos.

Ainda ecoa o lamento de quem tudo pode perder quando tudo tinha por garantido.

É precisamente quando as desgraças invadem as nossas fronteiras e destroem as nossas vidas que pegamos na primeira arma à mão para nos defendermos, sem podermos voltar atrás e evitar o caminho que aqui nos trouxe.

Estamos cada vez mais longe do ponto de não retorno para evitar o agravamento das alterações climáticas que alimentam uma seca insaciável, cada vez mais intensa e repetida.

Quanto mais tarde reagirmos mais tempo iremos sofrer. Armemo-nos para mitigarmos as alterações climáticas com um novo modo de vida que reduza as emissões de gases com efeito de estufa, que não destrua a biodiversidade de que faz parte o ser humano, que racione o que é finito, que se sustente em verdadeiras energias ecológicas e renováveis.

Não nos deixemos iludir pela miragem da sede que insaciavelmente nos grita por mais barragens, mais betão, mais fragmentação de habitats, mais submersão de árvores, mais produção sem destino certo e com beneficiados conhecidos, mais consumo daquilo que é finito e não chegará para todos os usos.

Não nos esqueçamos que as barragens não geram água e que quando a manta é curta, tapa-se a cabeça, mas destapam-se os pés.

Precisamos de um caminho que não nos faça arrepender e querer voltar atrás. Um caminho orientado pelo vislumbre de um futuro melhor, não de riqueza nem de bens que rapidamente são destruídos, mas pleno de felicidade e de vida.

Apesar da redução da precipitação, na bacia do Tejo, quer faça chuva quer faça sol, ainda não nos faltou a água suficiente para todos os usos atuais.

Mas a persistência em continuar pelo caminho errado irá agravar e mudar este estado de graça, impondo-se uma ação imediata para gerirmos bem a água disponível, para cuidarmos da floresta autóctone, da vegetação e da biodiversidade, para apostarmos em energias renováveis que não estrangulem o caudal dos rios ao ritmo da produção hidroelétrica.

As decisões humanas devem ser orientadas pela ecologia de modo a alcançarmos um equilíbrio que nos permita termos um bom clima, boa água, bons solos, bom ar, tudo o que é imprescindível para sobrevivermos.

Infelizmente a guerra já está ao virar de cada esquina, com proprietários agrícolas, engenheiros, empreiteiros, financeiros, banqueiros, comentadores, políticos armados até aos dentes em estado de dissuasão e prontos a semearem a destruição daquilo que gera vida.

Não precisamos de guerras, mas sim de soluções que assegurem a vitalidade do bem comum e não apenas os fortes interesses de alguns.

Por isso iremos MARCHAR, MARCHAR NA CARAVANA PELA JUSTIÇA CLIMÁTICA por 400 km do nosso Portugal, de 2 a 16 de abril, descendo ao longo de todo o rio Tejo até ao seu estuário, em Lisboa, onde culminará numa grande manifestação no Parque das Nações.

Marcha connosco contra os novos açudes e barragens no rio Tejo! O Tejo merece!

Glória aos Heróis! Героям слава!

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