Ao exemplo de anos anteriores realizou-se em Lisboa, no restaurante da macedense Dona Justa e do abrantino Sr. Nobre, na passada quinta-feira o jantar de Butelo e Cascas, debaixo dos auspícios da Câmara Municipal de Bragança. Mas o que são butelos e cascas?

Pelo facto de muito boa gente não saber a natureza destes produtos comestíveis trago-os à colação no intuito de satisfazer a curiosidade de possíveis interessados.

O buitêlo era um enchido empregando-se o estômago do porco e recheado de sobras extraídas do marroncho na altura da desmancha, sendo bem condimentadas empregando-se colorau queimante adquirido nas povoações espanholas fronteiriças. O denominado buitêlo (confira-se a excelente obra Comunitarismo Agro-Pastoril em Rio de Onor) servia de petisco aos rapazes da Lombada (Bragança) por alturas do Entrudo e no decorrer dos ritos de passagem (leia-se Belarmino Afonso sobre o tema).

As transformações produtivas elevaram o buitêlo à categoria de butelo, passando à categoria de enchido substancial e cukos ingredientes são: costelas pequenas do porco (mendinhas), osso da suã do bácoro, o rabo e a barbela do animal mais amigo do homem (come-se da ponta da cabeça ao rabo), alhos, colorau e sal. Deve ser cozido em duas águas, fervido primeiro, cozido lentamente na segunda água.

As cascas acompanhamento habitual (tal como batatas cozidas) do butelo são nada mais, nada menos, as vagens dos feijões após terem estado a secar na altura de serem colhidas. Secas ao sol, espalhadas por cima de mantas de farrapos ou panos. Depois de secas guardam-se de forma a não ganharem insectos ou outros bichos.

Na altura de serem consumidas as cascas ou casulas (ficam parecidas às casulas sacerdotais) colocam-se de molho de um dia para o outro de forma a cozerem sem grandes dificuldades. É um produto fruto da necessidade e do engenho dos carentes.

O jantar de exaltação do butelo e das cascas reúne um conjunto de nordestinos (bragançanos na maioria) que se radicaram em Lisboa e adjacências as quais nunca esquecem a «Pátria nordestina» e as suas raízes ancestrais, é m período de franca e ridente convivialidade. Este ano tive o prazer de ficar ao lado do meu amigo José Luís Seixas, distinto advogado e um dos fundadores do CDS, dada a feliz circunstância de a Mulher do nosso patriarca Professor Adriano Moreira ter ficado na nossa frente a política à portuguesa foi prato forte enquanto nos detivemos a saborear várias representações culinárias do Nordeste que não enuncio a fim de evitar invejas ou azedumes estomacais.

Como bem sublinha o sempre arguto, atento e bem informado Professor Adriano Moreira, nós transmontanos não temos culpa de outros não o serem. E, não prossigo!

Armando Fernandes

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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