Saiu a edição do Guia Gastronómico do Expresso, Boa Cama, Boa Mesa. Relativamente ao Distrito de Santarém as novidades são relativas, Cartaxo e Ourém, prevalecendo uma insólita obscuridade ao não serem assinalados restaurantes que reputo dignos de menção, caso do ‘Dom Vinho’ no Sardoal, o ‘Dois Petiscos’ e ‘Pigalle’ em Santarém, a significar esquecimento do júri ou, pior do que isso, incharam critérios abstrusos devido ao facto de outras casas de comeres bem menos qualificadas estarem assinaladas.

Na cidade do gótico o restaurante ‘Ó Balcão’ conquistou o Garfo de Ouro, sem surpresa para mim pois em devido tempo e por várias ocasiões assinalei os progressos técnicos culinários de Rodrigo Castelo, assim como a sua «gula» em estar em todos os acontecimentos que na minha opinião banalizam o seu talento.

A estabilização do restaurante ‘Cisco de Almeirim’ merece aplausos porque mantém o mesmo padrão de qualidade e exigência, dos «novos» falta-me ir ao ‘Convite’ em Ourém, dos restantes deixo correr o tempo a fim de consolidar ou mudar de parecer.

Nada a dizer em desabono, antes pelo contrário, acerca da justa referência ao restaurante ‘Cascata’ em Alferrarede. O apagamento na cidade de Abrantes não me surpreende: a eternização das ementas, a inconstância no tratamento dos produtos e os apagões no serviço resultam nos ocasos. De qualquer forma, como acima assinalei, discordâncias relativamente a outros restaurantes admito a possibilidade de outros estarem na mesma posição.

No cômputo global a situação é negativa, eu sei que o Distrito é grande, no entanto, o mutismo relativamente a Alcanena, Alpiarça, Benavente, Chamusca, Coruche e Mação, ainda o facto de a não ser Almeirim, Constância, Rio Maior e Santarém terem nesse universo mais do que um restaurante salienta o minguado leque de escolhas de relevo no Distrito.

Bem sei, como já em devido tempo escrevi, estes guias são concebidos e elaborados por pessoas dotadas de defeitos, paixões, gostos e in(certezas) a gerarem controvérsia. De qualquer modo indicam, sugerem, classificam ao modo do crítico individual (assim parece) quando a pluralidade tem o dever de conceder valimento ao anexim – no meio é que reside a virtude – e, se a dita pluralidade se impôs, temos de nos interrogar sobre as causas da pouca evidência da restauração na Província.

Já opinei o suficiente acerca do acima afirmado, no meio do cinzento firmamento restaurativo reluzem estrelas de opulenta clientela no fenómeno Almeirim, outras em Santarém e Rio Maior cujos bons efeitos vou apreciando. Assim aconteceu, novamente, na quarta-feira passada ao degustar no ‘Dois Petiscos’ uns soberbos ovos escalfados e ervilhas com rodelas de paio.

A resenha contida neste guia devia obrigar as entidades de Turismo a analisarem a causa de, existindo milhares de casas de comeres no território ribatejano, só a ínfima maioria ter sido assinalada.

Pode-se argumentar ao estilo de encanar a perna à rã, pode-se aludir como faço a paixões, desajustes e desconhecimento da Província, todavia uma coisa é evidente – a preguiça – a qual ressona rompante em cima da cama (esteira penso eu) e sonha o óbvio, abrir um restaurante é uma questão de espaço, se possível num rés-do-chão, ter três divisões, sala de refeições, cozinha e casa de banho, comprar o essencial e o homem com jeito e a mulher a ajudar e eis a demonstração do trivial panorama da restauração.

Estou a ser muito severo? Vão, vejam, provem, degustem e depois digam-me!

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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