Grilled ribeye beef steak with red wine, herbs and spices on wooden table. Still life

Escrevo esta crónica no dia 31 de Janeiro, dia da saída do Reino Unido (para já) da Comunidade Europeia. A nossa mais antiga aliada (e pérfida, leiam John Bull) regressa às ilhas, ao primado do individual, às suas excentricidades e humor ora sarcástico, ora desenvolto para lá dos limites da urbanidade.

Tenho pena, no entanto, ficam as representações culturais da sua culinária conhecida debaixo da expressão à inglesa. Por preguiça não explico detalhadamente o seu significado em matérias de cozeduras de carnes, peixes e legumes, certamente os interessados não deixarão cair o conselho em saco roto e, por isso mesmo, irei dormir sossegadamente visto estar em plena madrugada.

O leitor conhece várias palavras inglesas que significam produtos alimentares ou modos de serem cozinhados. Um dos mais conhecidos é o bife, na primitiva representação escrevia-se «steakbeef» ou seja filete de carne de vaca, das várias partes do animal banido pelo reitor da Universidade de Coimbra nas suas cantinas, caso do acém, alcatra, pojadouro ou vazia.

Normalmente, canonicamente, os bifes cozinham-se grelhados ou fritos, servem-se cortados em formato de tornedó, existindo centenas de receitas de bifes, uma delas o renomado bife à portuguesa, receita vilipendiada a torto e a direito. Vários restaurantes e cervejarias adquiriram merecida fama dada a suculência dos bifes servidos nessas casas de comer.

Há anos entrevistei afamada cozinheira que me descreveu as peripécias porque passou para «roubar» a receita do famoso bife à Nicola (o da anedota do Bocage), que posteriormente a modificou e serviu durante muitos anos no desaparecido café Portugal sito em Santarém. De resto na cidade escalabitana também eram elogiados os bifes de A Brasileira e do Café Central.

Por estas bandas, de vez em quando, aprecio os bifes cavalgados por ovos no restaurante do Sr. Ramiro, rodeados de batatas fritas na hora cortadas às rodelas. As proporções e altura dos bifes diferem de restaurante para restaurante, uns são mínimos, outros são máximos, alguns não são coisa nenhuma, nem na qualidade da carne (sola de tacões), nem no tamanho e altura, nem nos acompanhamentos.

Estultícia seria nomear, ficariam de fora muitos e cometia injustiças, o leitor fará o favor de aquilatar.

Eu sei que nestes tempos de – vale tudo – o termo bife aplica-se a outras carnes e a peixes, só que nem respeitam a finura do filete, menos ainda o peso, que classicamente devem ser entre os 100 e 150 gramas. A finalizar este texto recomendo uma pesquisa relativa aos bifes à Faustino ou à Jansen, caso consigam as receitas façam o favor de praticar.

PS. Pessoalmente prefiro os bifes da fila da vaca, a vitela, porém não é fácil encontrá-los.

Salvo melhor opinião os bifes de vaca ou vitela ganham substância se forem acompanhados com bom vinho tinto.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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