Balanço não de balancé, sim de anotações acerca de acontecimentos ocorridos no ano passado enchem as agendas das redacções dos órgãos de comunicação social. Também me ocorreu balançar passivos e activos no tocante a comeres e beberes em nos concelhos de influência do Médio-Tejo, ainda relativo à gastronomia, a nona Arte, que ali e acolá se pratica. Não fulanizarei porque posso provocar azias a pessoas do nicho da exaltação de pseudos-saberes escorados na dourada ignorância.

Há dias Pacheco Pereira aludiu à nova ignorância variante da velha e relha, no intuito de apimentar a crónica aludo à Douta Ignorância, obra maior do formidável polemistas, humanista, filósofo e cardeal Nicolau de Cusa. Se empresários, proprietários, chefes e demais pessoal da área da hotelaria, restauração e afins tivesse paciência para estudar um poucochinho (o termo está em moda) algumas observações contidas na célebre obra perceberiam quão perigoso é julgarem-se instruídos ou sabedores só porque obtiveram um elogio, uma menção ou um talher classificativo o qual confundem com uma estrela porque lhe dá jeito e às vezes proveito.

A maioria das ementas que leio aduzem como especialidades as receitas locais, observando melhor logo verificamos o logro pois entram referências vindas dali e de acolá, da serra e da falperra, inclusive de países equatoriais e tropicais. Um forrobodó!

A mesma análise no respeitante às técnicas culinárias executadas nos sítios onde nos amesendamos revelam pobreza nas cozeduras empregues, disformidades no respeito pelas sazonalidades, atropelo nos tempos de execução prevalecendo o …para quem é basta assim. E, basta, porque os clientes na sua esmagadora maioria saem impantes especialmente quando saem de barriga a abarrotar e palito na comissura dos lábios.

Sem sermos masoquistas estendemos o balanço aos restantes elementos constantes na ementa – entradas e saídas, como quem diz sobremesas – a falta de imaginação, o mimetismo e a facilidade do costume reforçam a ideia de pobreza. As entradas raramente acompanham a singularidade da estação, prevalecem os «mimos» de índole global sem ao menos existirem cuidados na sua apresentação, os produtos autóctones ficam nas árvores, nos passais e nas hortas onde persistem.

Não é neste capítulo, é total, todos quantos participaram nas refeições comemorativas do centenário de elevação de Abrantes a cidade caso se lembrem, acredito que verificaram a prevalência do existente em todos os supermercados em detrimento dos produzidos, nascidos e criados no concelho e redondezas.

No tocante a sobremesas a pastelaria é de cunho industrial, sim há tigeladas, palha de Abrantes e…adeus minhas encomendas. Alguém me sabe informar de qual é o restaurante que apresenta uma mediana tábua de queijos? Peço pouco: quatro queijos de origem portuguesa. Apenas.

No referente ao serviço de mesa impera o amadorismo, pese embora a boa vontade dos trabalhadores faltam-lhe sólidos conhecimentos sobre as matérias inerentes à sua função. Até no círculo da civilidade e etiqueta. Dirá o leitor: então não existem restaurantes qualificados? Raros e fruto do livre arbítrio e entusiasmo de quem lá trabalha. A presunção de que abrir um restaurante está ao alcance de um qualquer leigo ainda persiste, existindo exemplos de autêntica negatividade.

Nos dias de hoje as artes culinárias e a gastronomia detêm enorme importância nas economias. Pensem nisso!

Bom Ano.

  1. O balanço continua na próxima crónica.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

Deixe um comentário

Leave a Reply