Se o leitor confrontar a crónica anterior com a respeitante ao ano de 2015, verificará o contraste, na aludida crónica falava de restaurantes, aludindo às suas características e posicionamentos culinários. O leitor pode interrogar-se ante as minhas motivações ao optar pela não relevância de Beltrano ou Fulano preferindo a explanação de considerações gerais no tocante à orgânica de estabelecimentos onde se fabrica e vende comida.

O Homem também é composto de pulsões negativas, desejos recalcados, de insatisfações de todo o talante ao longo da sua vida. O Homem convive mal com o êxito do seu semelhante, daí ficar a rilhar os dentes quando o seu rival logra consideração devido aos seus merecimentos. Algumas pessoas, porque não apreciam os meus comentários e opiniões, gostavam de entrar na exígua classe daqueles que eu – eu – considero detentores de categoria para serem meus inimigos. Por essa razão as despeitadas e os despeitados, porque em determinado momento reparei neles, podem-se esfalfar, não fazem nem farão parte da referida classe.

Obviamente, no sector da hotelaria, restauração e afins não há nenhuma pessoa pela qual nutra aversão ou me provoque azia. No entanto, importa explicar a exigência que coloco nas observações expendidas no texto publicado na semana anterior.

A exigência escora nos esteios da satisfação do cliente tendo como pressuposto à qualidade e boa transformação em boa comida, o serviço de mesa além de solidamente informado ser amável e conhecedor das regras profissionais de civilidade e etiqueta, o ataviamento das mesas, qualidade das louças, vidros e cutelarias serem acima de qualquer suspeita no tocante a defeitos, à higiene e limpeza. Por último a relação comida servida e preço praticado pautar-se pela sensatez, não esquecendo os vinhos (os exageros repetem-se) e digestivos.

Não enuncio os restantes pontos de referência integrantes de uma grelha classificativa mediana porque as exigentes não levam em linha de conta as particularidades do funcionamento dos restaurantes e casas-de-comeres do Médio-Tejo.

Do impante papel das artes culinárias e gastronomia na economia das regiões julgo estar demonstrado mesmo para os eremitas e marginalizados do Mundo, tal papel tenderá a aumentar de modo imparável nos próximos anos muito em consequência do incremento turístico. Todos os relatórios e estudos destacam a importância da gastronomia. Sendo assim, e é, os empresários e demais profissionais do Médio-Tejo devem pensar na forte concorrência, devem perceber os desafios em consequência e os lucros ou perdas em jogo. Se persistirem no deixa andar, no comodismo, no «entre mortos e feridos, alguém vai escapar» não escapam a uma apagada e vil tristeza num primeiro andamento, à falência no segundo, o terceiro desapareceu do cesto das oportunidades.

Alguns leitores sabem eu pertencer à equipa que está a delinear o Observatório Nacional de Gastronomia, que irá surgir em Santarém, apesar do imperativo nacional, o mesmo ganha amplitude internacional concedendo a justa atenção às cozinhas locais, no entanto o completo reconhecimento das referidas cozinhas só se consegue através de uma capaz rede de representações dessas cozinhas.

Esperando ter dissipado dúvidas espero testemunhar e exaltar ridentes progressos no que tange à Nona Arte – A gastronomia do Médio-Tejo – dando luzimento à herança cultural que urge perseverar, investigar e enaltecer.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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