Foto: mediotejo.net

Depois de ter plantado a primeira oliveira na Azinhaga, a 16 de novembro de 2021, António Costa voltou um ano depois a agarrar numa enxada para ajudar a plantar a 100ª oliveira para José Saramago, na aldeia-berço do Nobel da Literatura português.

Saramago tinha uma ligação especial a estas árvores, que o faziam recordar a sua aldeia natal. Sinónimo de resistência e sabedoria, é junto aos pés de uma oliveira centenária, transplantada da Azinhaga para o largo em frente à Casa dos Bicos, em Lisboa, que repousam as cinzas do escritor.

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“100 Oliveiras para José Saramago” é um projeto da Fundação e da família do escritor, apadrinhado por um agricultor da região, Manuel Coimbra, que prontamente, em 2019, ofereceu as cem oliveiras. A ideia foi apresentada à Câmara da Golegã e à Junta de Freguesia da Azinhaga em 2019, e, nos últimos dois anos foram plantadas 98 oliveiras, sobretudo numa das ruas principais, a rua Vítor Guia, e outras espalhadas pela aldeia. A ladear a rua, cada oliveira representa uma personagem das inúmeras obras de José Saramago. A 100.ª foi hoje plantada por António Costa, no âmbito das celebrações do Centenário do nascimento do escritor.

A 100.ª oliveira foi hoje plantada por António Costa. Foto: mediotejo.net

“A minha aldeia era rodeada de olivais, com oliveiras antigas de troncos enormes. Elas desapareceram. Senti-me como se me tivessem roubado a infância. Hectares e hectares de oliveiras desapareceram para dar lugar a culturas mais lucrativas. A aldeia não mudou tanto, foi a paisagem que mudou. E essa mudança radical na paisagem foi, para mim, uma espécie de golpe no coração.”

— José Saramago

“Não seria possível assinalar o centenário do nascimento do primeiro Nobel da Literatura portuguesa sem vir à terra onde ele nasceu (…), cresceu e partiu. Mas ao partir, a Azinhaga não deixou José Saramago e ele levou a Azinhaga consigo. Levou o Rio Almonda, levou o lagarto verde, levou as oliveiras, levou a sua família, os seus conterrâneos, levou a história das gentes da Azinhaga”, disse o primeiro-ministro esta tarde.

António Costa destacou o importante papel da escrita de Saramago para a história das “gentes” da terra. “Tenho a certeza que aquilo que José Saramago mais gostaria que hoje fizéssemos no seu centenário, mais do que o lembrar a ele, era seguramente, perpetuar a sua obra. Perpetuar a sua obra é perpetuar as causas por que lutou e as gentes a quem ele resolveu dar voz”.

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Saramago “fez parte daquela geração dos netos que aprenderam histórias dos avós, que lhes contavam, que não lhes sabiam escrever nem ler as histórias em livros. Mas ele quis que as gerações futuras, os avós das gerações futuras, soubessem escrever e soubessem ler aos seus netos (…). Ele quis contar a história das pessoas que não podiam contar a sua própria historia. E em cada um destes personagens, daqueles que existiram mesmo, como os seus avós, ou daqueles que ele ficcionou (…) a verdade é que ele quis contar a vossa história, a história dos vossos pais, avós, a história do povo da Azinhaga”, acrescentou.

No final do discurso, António Costa salientou a importância de perpetuar a memória do autor. “Porque nós esquecermos Saramago, esquecermos todos aqueles que tendo nascido nalguma Azinhaga não chegaram a prémio Nobel, [seria esquecer] aqueles que permitiram a Saramago contar a história que fez dele o primeiro prémio Nobel da Literatura Portuguesa”. Concluiu, ainda, com um agradecimento aos conterrâneos do escritor por “terem feito de José Saramago o homem cujos 100 anos hoje nós celebramos”.

Ana Matos, neta do escritor, ao lado do primeiro-ministro António Costa e Vítor Guia, presidente da Junta de Freguesia da Azinhaga. Foto: mediotejo.net

A cerimónia contou ainda com a interpretação musical de um poema de José Saramago por Nuno Barroso.

Ana Matos, neta do escritor e curadora da delegação da Fundação José Saramago na Azinhaga, falou no final com o mediotejo.net, explicando como surgiu a iniciativa de plantar 100 oliveiras, há cerca de cinco anos. Num passeio pela aldeia, o seu pai, Danilo Matos, acompanhado por Vítor Guia, presidente da Junta de Freguesia de Azinhaga, relembraram “a mágoa que o José Saramago deixou escrita, não só nas ‘Pequenas Memórias‘ mas em vários momentos em que se referiu (…) à agricultura massiva. Fez referência que, de facto, tinha muita pena de vir à Azinhaga e já não encontrar as oliveiras centenárias”.

“100 Oliveiras para José Saramago” é um projeto da Fundação e da família do escritor, apadrinhado por um agricultor da região. Foto: mediotejo.net

A neta de um dos maiores expoentes da literatura portuguesa destacou a simbologia inerente às oliveiras, tantas vezes presente na obra de Saramago. “A oliveira não só é um produto desta região, um produto que José Saramago refere muitas vezes nas suas próprias memórias, mas em si mesma é um signo de resistência e de sabedoria. Portanto, o facto de haver também toda essa simbologia em torno desta árvore, fez com que nós fizéssemos esta homenagem das 100 Oliveiras para José Saramago”, explica ao mediotejo.net.

Assinalou, ainda, a beleza do projeto que perpetuará a memória de Saramago, eternizado na rua Víctor Guia em Azinhaga, no município da Golegã. “Eu acho muito bonita. Vai ser uma iniciativa que vai ficar. No bicentenário do nascimento de José Saramago, aqui estarão estas oliveiras para o celebrar”.

ÁUDIO | Ana Matos, neta do escritor e curadora da delegação da Fundação José Saramago na Azinhaga.

A responsável pela iniciativa incluiu nos seus agradecimentos as muitas pessoas que tornaram a iniciativa possível, como Manuel Coimbra, que ofereceu as oliveiras, e a equipa de jardinagem que diariamente cuida das árvores.

Cada uma das 100 oliveiras recebeu o nome de uma personagem saramaguiana, identificada junto às suas raízes. Os nomes das oliveiras foram desenhados pelo designer Leonel Duarte e pintados à mão por uma ceramista e pintora cerâmica da região, Filipa Betes. A centésima árvore foi batizada em homenagem à sua avó materna, de seu nome Josefa.

“Em cada uma destas oliveiras voltará a habitar o espírito do avô Jerónimo e da avó Josefa, e o lagarto verde voltará a ser visto entre os troncos retorcidos destas oliveiras”, deixou escrito, em jeito de desejo, a Fundação José Saramago.

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Jéssica Filipe

Atualmente a frequentar o Mestrado em Jornalismo na Universidade da Beira Interior. Apaixonada pelas letras e pela escrita, cedo descobri no Jornalismo a minha grande paixão.

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