“A vida é breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver.”
– José Saramago

Nasci numa família de camponeses sem terra, em Azinhaga, uma pequena povoação situada na província do Ribatejo, na margem direita do rio Almonda, a uns cem quilómetros a nordeste de Lisboa. Meus pais chamavam-se José de Sousa e Maria da Piedade. José de Sousa teria sido também o meu nome se o funcionário do Registo Civil, por sua própria iniciativa, não lhe tivesse acrescentado a alcunha por que a família de meu pai era conhecida na aldeia: Saramago. (Cabe esclarecer que saramago é uma planta herbácea espontânea, cujas folhas, naqueles tempos, em épocas de carência, serviam como alimento na cozinha dos pobres). Só aos sete anos, quando tive de apresentar na escola primária um documento de identificação, é que se veio a saber que o meu nome completo era José de Sousa Saramago…

José de Sousa (pai) tinha servido como soldado de artilharia na I Guerra Mundial, em França, e depois de regressar à Azinhaga quis libertar-se da vida dura no campo. Em 1924 agarrou a oportunidade de ser polícia em Lisboa e mudou-se com a família para a capital: a sua mulher, Maria da Piedade, e os dois filhos, Francisco, de 4 anos, e José, com dois anos.

Poucos meses depois de nos termos instalado na capital, morreria meu irmão Francisco. Embora as condições em que vivíamos tivessem melhorado um pouco com a mudança, nunca viríamos a conhecer verdadeiro desafogo económico. Já eu tinha 13 ou 14 anos quando passámos, enfim, a viver numa casa (pequeníssima) só para nós: até aí sempre tínhamos habitado em partes de casa, com outras famílias. Durante todo este tempo, e até à maioridade, foram muitos, e frequentemente prolongados, os períodos em que vivi na aldeia com os meus avós maternos, Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha.

O escritor, em criança. Créditos: Fundação José Saramago

A infância em Lisboa foi de pobreza e Saramago via a capital como uma cidade hostil, da qual se sentia excluído em todos os aspetos. A Azinhaga era, e foi sempre, o seu chão.

“Foi daqui [da Azinhaga], quando ainda não tinha dois anos, que meus pais, migrantes empurrados pela necessidade, me levaram para Lisboa, para outros modos de sentir, pensar e viver, como se nascer eu onde nasci tivesse sido consequência de um equívoco do acaso, de uma casual distracção do destino, que ainda estivesse nas suas mãos emendar. Não foi assim. Sem que ninguém de tal se tivesse apercebido, a criança já havia estendido gavinhas e raízes, a frágil semente que então eu era havia tido tempo de pisar o barro do chão com os seus minúsculos e mal seguros pés, para receber dele, indelevelmente, a marca original da terra, esse fundo movediço do imenso oceano do ar, esse lodo ora seco, ora húmido, composto de restos vegetais e animais, de detritos de tudo e de todos, de rochas moídas, pulverizadas, de múltiplas e caleidoscópicas substâncias que passaram pela vida e à vida retornaram, tal como vêm retornando os sóis e as luas, as cheias e as secas, os frios e os calores, os ventos e as calmas, as dores e as alegrias, os seres e o nada. Só eu sabia, sem consciência de que o sabia, que nos ilegíveis fólios do destino e nos cegos meandros do acaso havia sido escrito que ainda teria de voltar à Azinhaga para acabar de nascer.”

Como não tinha livros em casa, foram os manuais escolares de Português que lhe abriram as portas para a fruição literária. Só aos 19 anos conseguiu comprar os primeiros livros, com um empréstimo de 300 escudos, e como não tinha estante guardou-os num armário da cozinha.

Também por essas alturas tinha começado a frequentar, nos períodos nocturnos de funcionamento, uma biblioteca pública de Lisboa. E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou.

Fez os estudos secundários em Lisboa, que por dificuldades financeiras não prosseguiu, e começou a trabalhar como serralheiro mecânico numa oficina de reparação de automóveis. Em 1944, já tinha mudado de atividade e trabalhava num escritório da Segurança Social. Casou com Ilda Reis, então datilógrafa nos Caminhos-de-ferro, de quem viria a ter a sua única filha, Violante Saramago Matos, em 1947.

Nesse ano publicou o primeiro livro, o romance “A Viúva”, que, por conveniências editoriais, saiu com o título “Terra do Pecado”, e que a Porto Editora vai republicar neste 16 de novembro, com o título original.

No final dos anos 50 tornou-se responsável pela produção na Editorial Estúdios Cor, função que conjugaria com a de tradutor, a partir de 1955, e de crítico literário, na revista Seara Nova. José Saramago exerceu ainda as profissões de desenhador, funcionário da saúde e da previdência social, editor, tradutor e comentador político no Diário de Lisboa (1972-73). Foi também diretor-adjunto do Diário de Notícias (1975). Neste período foi acusado de participar no “saneamento” de jornalistas, que exigiam mais pluralismo, no chamado “verão quente” de 1975, do qual o escritor se procurou sempre distanciar, afirmando não ter responsabilidades no assunto.

Nesta altura já se tinha separado de Ilda Reis, o que aconteceu em 1970, e vivia com a escritora Isabel da Nóbrega, com quem manteve uma relação durante 16 anos, período durante o qual escreveu os romances “Deste Mundo e do Outro” (1971), “Levantado do Chão” (1980), “Memorial do Convento” (1982), “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (1984) e “A Jangada de Pedra” (1986), entre outros.

O livro chama-se ‘Levantado do Chão’ porque, no fundo, levantam-se os homens do chão, levantam-se as searas, é no chão que semeamos, é no chão que nascem as árvores e até do chão se pode levantar um livro.”

Membro da primeira direção da Associação Portuguesa de Escritores e presidente da assembleia geral da Sociedade Portuguesa de Autores em 1985-1994, José Saramago viveu, a partir de 1976, exclusivamente do seu trabalho literário, primeiro enquanto tradutor e depois enquanto autor.

José Saramago e Pilar del Rio. Créditos: Fundação José Saramago

Em 1986 conheceu a jornalista espanhola Pilar del Rio, com quem se viria a casar em 1988. Além do amor que os uniu até à morte do escritor, ela teve um papel fundamental na carreira e afirmação internacional do Nobel, além de ser a sua primeira revisora e tradutora de todas as obras para espanhol.

Em 1989 Saramago publicou “História do Cerco de Lisboa” e, em 1991, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, o seu romance mais polémico, que conta uma história alternativa da vida de Jesus Cristo, sob um ponto de vista moderno e crítico da religião. 

“A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus. Nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele.

Em consequência da “censura exercida pelo Governo português” sobre o romance – palavras de Saramago –, vetando a sua apresentação ao Prémio Literário Europeu sob pretexto de que o livro era ofensivo para os católicos, o escritor transferiu, com Pilar, a residência para a ilha de Lanzarote, no arquipélago de Canárias, em fevereiro de 1993.

“O Evangelho Segundo Jesus Cristo” viria a ser distinguido com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, em 1992, no mesmo ano em que “Levantado do Chão” foi galardoado em Itália com o Prémio Internacional Ennio Flaiano.

Em 1992 publicou também a peça “In Nomine Dei”, ainda escrita em Lisboa, e que lhe valeu o Grande Prémio de Teatro da Associação Portuguesa de Escritores no ano seguinte, da qual foi extraído o libreto da ópera “Divara”, com música do compositor italiano Azio Corghi, estreada em Münster (Alemanha), em 1993. 

Antes disso, José Saramago já tinha colaborado com o compositor, que musicou a ópera “Blimunda”, inspirada no “Memorial do Convento”, que se estreou em Milão (Itália), em 1990, e que terá nova apresentação neste dia 16 de novembro, em Lisboa, com encenação de Nuno Carinhas. 

“Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido. Era uma vez.”

Em 1993, o escritor começou a escrever um diário, a que deu o nome “Cadernos de Lanzarote” e do qual estão publicados cinco volumes. Dois anos depois publicou o romance “Ensaio sobre a Cegueira”.

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”

Recebendo o Prémio Nobel da Literatura, em 1998. Créditos: Nobel Prize

Em 1995 foi-lhe atribuído o Prémio Camões. Em 1998 venceu o Prémio Nobel de Literatura.

No discurso proferido em Estocolmo, na cerimónia de entrega do Nobel, José Saramago lançou um apelo para que os cidadãos, da mesma forma que reivindicam os seus direitos, reivindicassem também os seus deveres. A partir dessa proposta foi elaborada por mais de dois mil especialistas em diversas áreas uma “Carta Universal dos Deveres e Obrigações dos Seres Humanos”, que foi entregue em 2018 à ONU, para ser dada a conhecer mundialmente.

“O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses.

Após a atribuição do Nobel, a Fundação Círculo de Leitores instituiu um galardão literário bienal com o nome de José Saramago e a expectativa em torno de um novo trabalho do autor aumentou, até que, no ano 2000, chegou às livrarias “A Caverna”, a que se seguiu “O Homem Duplicado” (2002).

Antes, em 1997, tinha publicado “Todos os Nomes” e “O Conto da Ilha Desconhecida”. O “Ensaio Sobre a Lucidez”, publicado em 2004, foi apresentado pelo escritor como “uma fábula, uma sátira e uma tragédia” e causou controvérsia por preconizar o recurso ao voto em branco como sinal de desagrado dos eleitores perante o Governo.

“Este país preocupa-me, este país dói-me. E aflige-me a apatia, aflige-me a indiferença, aflige-me o egoísmo profundo em que esta sociedade vive. De vez em quando, como somos um povo de fogos de palha, ardemos muito, mas queimamos depressa.”

Em 2005, o escritor – que dizia não ser pessimista, “o mundo é que é péssimo” – lançou também um novo romance, “As Intermitências da Morte”, que apresentou como “uma reflexão filosófica sobre a vida” e onde coloca questões como: “Quais as implicações de uma vida mais longa? Quanto tempo passaria a durar a velhice? Em que se tornaria o corpo humano?”, “Como se pagariam então as reformas, problema que já agora se coloca?”.

Em 2007 foi criada em Lisboa uma Fundação com o seu nome, para defender e divulgar a literatura contemporânea, e no ano seguinte foi assinado um protocolo com a autarquia lisboeta para a cedência da Casa dos Bicos, que permanece até hoje como sede da Fundação José Saramago. Na sua Azinhaga natal foi criado um pólo da Fundação.

Créditos: Fundação José Saramago

José Saramago recebeu vários prémios nacionais e internacionais, bem como doutoramentos Honoris Causa por universidades portuguesas e estrangeiras. A sua vasta obra encontra-se traduzida para mais de trinta línguas.

“As perguntas: ‘Quem és?’ ou ‘Quem sou?’ têm respostas fáceis: a pessoa conta a sua vida e assim se apresenta aos outros. A pergunta que não tem resposta formula-se de outra maneira: ‘Que sou eu?’ Não ‘quem’, mas ‘quê’. Aquele que fizer essa pergunta enfrenta-se com uma página em branco e o pior é que não será capaz de escrever uma palavra que seja.

Criador de um universo muito próprio, entre o real e o fantástico, Saramago acreditava, à semelhança de Laurence Sterne, que talvez interceptasse pensamentos que os céus destinavam a outros homens.

Marcante foi também a forma como reinventou a sua escrita. Aconteceu quando trabalhava no romance “Levantado do Chão”. De repente as palavras não “tinham pressa de chegar”, o discurso ordenava-se naturalmente, sem seguir as regras da pontuação, como contou em entrevista a Ana Sousa Dias, na RTP2. Percebeu que tinha encontrado a sua voz, e construiu todos os seus romances nessa singular oralidade, usando apenas a vírgula e o ponto – “sinais de pausa”, como lhes chamava.

“Começou-lhes a chover para o fim da tarde, com o sol meio palmo acima dos cabeços baixos, à mão direita, estavam portanto as bruxas a pentear-se, que este é o tempo que escolhem. O homem fez parar o burro, e com o pé, para o aliviar da carga no teso da encosta breve, empurrou uma pedra até à roda da carroça. Esta chuva, que ideia terá dado ao regedor das celestes águas, não é da estação. (…) Era uma chuva regular, daquelas que vêm para muitas horas, caindo e alagando, chegou e não se vai embora, e quando a terra já não pode com tanta água, nem cuidamos de saber se é o céu que nos molha, se a terra que nos encharca. O homem tornou a dizer, Raios partam, são os desabafos da humanidade quando outros de melhor consonância se não aprenderam. (…) A mulher olha o céu, é um jeito antigo e rural de ler esta grande página aberta sobre a nossa cabeça, agora a ver se estava aclarando o ar, e não estava, antes mais carregado de tinta escura, não temos outra tarde.

José de Sousa Saramago morreu aos 87 anos, no dia 18 de junho de 2010. Quem procurar o seu túmulo, não o encontrará. Em vez de pedra num campo de morte, descobre-se vida no meio do bulício da capital – é uma oliveira centenária da sua Azinhaga que se “mudou” para Lisboa para abraçar com as suas raízes as cinzas do escritor, enterradas com um livro e terra de Lanzarote, no largo em frente à Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago. Ao lado da oliveira, um banco convida à leitura, contemplando o Tejo.

É na terra onde esta oliveira da Azinhaga fixou raízes, depois de transplantada para Lisboa, que foram depositadas as cinzas do escritor. Créditos: Fundação José Saramago

Numa cerimónia realizado um ano após a sua morte, a escritora Lídia Jorge disse: “Que este lugar passe a ser local de paragem dos apressados. Que este seja o banco onde se sentam os cansados. (…) Sabemos que, ao mesmo tempo que te deixamos na terra, não te deixamos na terra, nós todos levantamos-te do chão. (…) E o mesmo sucederá no futuro, cada vez que abrirmos os teus livros e lermos as tuas palavras e imaginarmos as figuras que tu mesmo imaginaste. (…) Enquanto formos vivos, recordar-te-emos sempre. Não temos outra eternidade para te dar.”

Apesar de não parecer gostar muito dos ares de Lisboa, tal como Saramago (deixou de dar azeitona, por exemplo), a oliveira da Azinhaga ali permanece, fiel à sua missão de cuidar da memória do escritor que tanto amava estas árvores da sua aldeia.

*Com Agência Lusa

Patrícia Fonseca

Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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1 Comentário

  1. José Saramago, um génio, que olha para o mundo de uma forma abrangente, rica, profunda, muito esclarecedora, capaz de abrir a nossa mente e o nosso espírito. Vou ler e reler os seus livros!!!

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