Por motivos académicos, decidi pedir a demissão da presidência da União Desportiva Rossiense. Está aí à porta mais uma formação superior que, desta vez, vai levar-me para fora de Portugal por longos períodos. Por mais orgulho que tenha no que fizemos, custa-me muito (mesmo muito!) deixar a liderança da União.
Além disso, é com uma dor ainda maior que assumo que me custou tanto (ou ainda mais!) guiá-la; a pandemia aconteceu, é um facto, mas foi só mais um pretexto para a falta de compromisso e de envolvimento das nossas pessoas e das gentes Rossienses. O problema de falta de apoio e de sentido de responsabilidade para com a comunidade é profundo e estrutural – mas já lá irei.
Ao fim de quase 4 anos de presidência, é com tristeza que constato que a esmagadora maioria dos elementos da lista que apresentei a eleições falhou em toda a linha – à nossa União e a mim, pessoalmente.
Muita gente sente a União de forma apaixonada e diferente. Comigo começou em 1996, com 5 anos, altura em que ainda tinha de jogar com o cartão de um colega de equipa que já tivesse completado 6 anos – a idade mínima para sermos federados na Associação de Futebol de Santarém. Passei por diferentes posições e por diferentes treinadores; lembro-me, por exemplo, de ser central com o professor Beirão, com o Mr. Trapatoni e, no início, também com o Zé Neves – com quem fui passando a trinco com o tempo. Lembro-me de jogar na equipa B no início e de ter de trabalhar e lutar muito para chegar à equipa A. Mesmo muito.
Havia, como sempre houve, muitos jogadores melhores e tecnicamente mais dotados do que eu. Desde esse início periclitante, e à medida que cresci, fui aumentando gradual e exponencialmente o meu nível de compromisso para com o treino, principalmente porque aprendi – pela e com a UDR – uma máxima que guardo para a vida: o trabalho duro bate (quase) sempre o talento, especialmente quando o talento se faz acompanhar de preguiça e/ou falta de humildade. Dos infantis/iniciados em diante, nunca mais ninguém me tirou o lugar pois nunca mais ninguém trabalhou mais do que eu nos treinos (e nos jogos).
Continuei, e continuo, a ter muitas limitações futebolísticas e de outras índoles mas, desde essa altura, entro a 1000% em todos os projetos pessoais e profissionais em que me envolvo; desde essa altura, houve muitas mais ocasiões em que parti como não-favorito; também desde essa altura, não mais me lembro de uma ocasião em que não tenha chegado ao final com honras de vencedor. Em tudo na vida. Obrigado, UDR, pela fabulosa escola de vida que foste para mim!
Por entre o mar mais ou menos revolto de dificuldades e faltas, houve também coisas – principalmente pessoas – boas. Poucas, mas boas. Muito boas. Às quais devo um agradecimento gigante.
Faz quase 8 anos desde que fui eleito vice-presidente da União, o mais novo de sempre a ocupar tal cargo. Tinha acabado de fazer 24 anos e havia sido convidado por várias pessoas relevantes para a comunidade que me viam, segundo diziam, como uma espécie de candidato natural à presidência num futuro próximo, por uma série de razões – muitas delas imprecisas – principalmente relacionadas com a minha carreira académica e profissional. Sou Rossiense de gema (aliás, mais do que o Rossio, só sinto o Fojo!), pelo que não tive como não aceitar o repto, mesmo estando distante e tendo muitas limitações de tempo pois trabalhava em Lisboa, onde estava também a começar a formação académica mais exigente que fiz até hoje.
Sensivelmente 4 anos depois dessa data, a 11 de junho de 2019, e acabado de regressar de vez a Abrantes, assumi a presidência da União – uma vez mais, o mais jovem de sempre com tal atribuição. Começou nesse dia a aventura agridoce que me (e nos) trouxe até aqui. Foram 2 mandatos muito mais exigentes e difíceis do que seria de esperar; com, por exemplo, uma pandemia global como não há memória pelo meio. As pessoas afastaram-se como nunca: de tudo, de todos e, também, das suas coletividades. Além disso, o Rossio tem um problema intrínseco e crónico no que toca à mobilização das suas pessoas, mesmo em torno de causas comuns que nos afetam diretamente a todos.
Como acontece com qualquer jovem de 28 anos eternamente apaixonado pela sua terra, era óbvio para mim que, juntos – sempre juntos! – e com a lista certa, conseguiríamos mudar isso. Somando isso à minha aparente aptidão, pelo menos profissional, para gerir pessoas e equipas, era claro para mim que tudo seria diferente connosco. Assim, fiz a lista em que acreditava piamente, aquela que me (e nos) dava mais garantias; desde logo, de que todos os que estavam, estavam de corpo e alma e a trabalhar para um objetivo comum, mesmo com as limitações de tempo e disponibilidade que todos nós – adultos – temos.
Nada mais errado. Ao fim de quase 4 anos de presidência, é com tristeza que constato que a esmagadora maioria dos elementos da lista (aliás, das duas listas) que apresentei a eleições, falhou em toda a linha – à nossa União e a mim, pessoalmente. Pessoas do Rossio, todas elas sem excepção.
Talvez o divórcio das pessoas para com o Rossio já não seja defeito, seja feitio. Talvez nos reste aprender a viver com isso e, talvez idilicamente, sei-o agora, tentar mudá-lo pouco a pouco.
Ainda assim, com meia dúzia (ou aliás, muitas vezes, com metade de meia dúzia ou menos) de carolas, fizemos dois mandatos praticamente completos de que muito me orgulho.
Começámos como tínhamos de começar, pelo equilíbrio da tesouraria e das finanças do clube. O modelo algo austero que usámos no início, e também durante a pandemia, provou-se acertado. Mesmo à custa de algumas atividades laterais e através da suspensão temporária de algumas secções/modalidades, conseguimos equilibrar o cash-flow e todas as contas, assegurando que todos os compromissos eram saldados a tempo e horas e que a balança entre o deve e o haver era permanentemente positiva. Temos hoje uma situação financeira totalmente estável, algo que me deixa muito confiante num futuro sólido e auspicioso para a nossa União.
A seguir, pegámos nos estatutos, cuja estrutura e conteúdo já não estavam conformes a legislação atual dedicada às associações. Mais um tema tão burocrático quanto essencial que ficou arrumado para os próximas décadas. E assim por diante.
Operacionalmente, a União tem hoje 4 secções e/ou projetos estruturados e a funcionar em pleno: (1) o hóquei em patins – com grandes probabilidades de regressarmos às competições nacionais já na próxima temporada; (2) a pesca – onde dois atletas nossos já dão cartas a nível nacional; (3) o futebol sénior recreativo – que dá outra cor aos fins-de-semana no nosso Rossio; e (4) o futebol de rua – projeto internacional de cariz social criado pela FIFA e promovido em Portugal pela associação CAIS, do qual somos o promotor oficial (e único!) para o distrito de Santarém.
Além disso, o livro comemorativo dos 75 anos da UDR – outro marco basilar do nosso projeto – está a avançar a bom ritmo, principalmente desde que a pandemia voltou a permitir a investigação jornalística de fundo que tal o mesmo requer. Também as relações com os nossos parceiros estratégicos – onde se destacam a CMA, a União de Freguesias e a Fundação Estrada, bem como todas as restantes entidades com que trabalhamos e trabalhámos nos últimos anos – estão saudáveis e têm sido bastante frutíferas.
Por entre o mar mais ou menos revolto de dificuldades e faltas, houve também coisas – principalmente pessoas – boas. Poucas, mas boas. Muito boas. Às quais devo um agradecimento gigante.
Tenho de começar pelo meu pai, que fez muito mais do que um pai, ou um melhor amigo, tem de fazer. Que fez absurdamente mais do que um mero elemento do conselho fiscal tem de fazer. Que fez tudo, literalmente TUDO, por mim e por este projeto para o qual o arrastei. Felizmente, uns compensaram os outros. E o meu pai é um desses, que fez o papel de uns 5 ou 6 de forma exemplar. Obrigado, pai, por nunca me deixares cair – nem a mim, nem à União.
Ao Zé Flávio, que é provavelmente a melhor pessoa que alguma vez conheci no Rossio e que tem um coração do tamanho do mundo. Ao meu querido Zé que nunca, mas NUNCA, virou a cara ao trabalho ou ao nosso projeto. Que nunca me falhou, nem a mim nem à União, por mais que lhe tenham falhado a ele – e foram muitos os que lhe falharam ao longo destes anos. Foi um gigante durante estes quase 4 anos e fez o trabalho de outros cinco ou seis. Obrigado Zé, é um orgulho enorme ser teu amigo.
A quem vai continuar ao leme, especialmente ao Nuno e ao Bruno, mais do que agradecer, desejo-lhes muita sorte para o que aí vem; pela minha experiência, vão precisar dela. Têm todas as condições para fazer um trabalho melhor do que o meu. A UDR merece e o Rossio precisa, mais do que nunca. Muita força.
À rapaziada do hóquei, da pesca, do futebol de rua, do futebol e a todos os nossos amigos e conhecidos que se tornaram amigos, que nos ajudaram nos diversos eventos e nas mais variadas ocasiões, um obrigado de coração. No mesmo sentido, deixo um agradecimento sentido aos nossos parceiros-chave, já acima listados.
Por último, um desejo: que a nossa União continue a estar à altura da sua tão nobre história e que continue a honrar o gigante legado de tanta gente boa que por cá passou e que deixou a sua marca indelével ao longo destes 76 de existência.
Até sempre.
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