Renato Sousa Antunes é um dos diretores estratégicos da Casa Mendes Gonçalves. Foto: mediotejo.net

É numa das salas de reuniões dos escritórios da Casa Mendes Gonçalves que encontramos Renato Sousa Antunes, uns dias antes de partir para Espanha em trabalho. O movimento pela manhã, à entrada da vila da Golegã, muito deve à azáfama da zona industrial, com um entra e sai constante de camiões de mercadorias.

Entre mil e um compromissos de agenda, recebe-nos durante a única manhã livre que tinha em duas semanas. É após um café sem açúcar – cumprindo com o desígnio de se tornar mais saudável – que começa a abrir o livro da sua vida. Comunicar não é para si um problema, e isso comprova-se após quase duas horas e meia de conversa que voaram, tocando em vários temas, instituições, organizações e pessoas que têm marcado o seu percurso.

O diretor da área de mercados internacionais e estratégia da empresa foi no mês passado responsável pela área de marketing e comunicação da Casa Mendes Gonçalves, na Golegã – pausa para respirar entre as suas múltiplas responsabilidades no setor empresarial – e é também Mestre em Gestão pela Nova School of Business and Economics, com especialização em Estratégia e Negócios Internacionais. E como a vida dá voltas e voltas, quis o destino que voltasse ao mestrado, mas agora para dar aulas, como assistente convidado.

Mas… comecemos por situar-nos em termos de geografia, incluindo a sentimental. Rossio ao Sul do Tejo, concelho de Abrantes: é nesta freguesia à beira-Tejo que residiu permanentemente até aos 18 anos, até ir para a faculdade.

Largo D. Joana Godinho Soares Mendes, em Rossio ao Sul do Tejo. Fotografia: mediotejo.net

Dali foi para Coimbra, onde tirou a Licenciatura em Relações Internacionais, na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Depois de se licenciar, fez uma Pós-Graduação em Economia na mesma faculdade.

“Comecei a perceber que, embora gostasse muito da área da Ciência Política e das Relações Internacionais, faltava-me a ligação que eu achei que ia ter à lógica de comércio externo. As relações internacionais em Portugal são muito voltadas para a ciência política e relações entre Estados e, infelizmente, o programa não cobre nada das relações entre empresas/entidades privadas. Ao contrário do que acontece no Brasil e na Alemanha, onde há muito comércio externo no que toca às relações internacionais”, começa por dar conta.

Manteve sempre ligação à União Desportiva Rossiense e ao Rossio, apesar da ausência dos últimos anos. Jogou futebol, fez a formação na União Desportiva Rossiense, tinha na altura 5 anos. “Ainda nem podia jogar com o meu cartão, tinha de ser com o cartão de outro colega. Estive esse tempo todo muito ligado às associações. Marcou muito o resto do meu percurso.”

O Rossio da sua infância e juventude tinha outro dinamismo. “Era muito mais patente na rua, éramos mais do que hoje em dia. Tínhamos um grupo forte nos escuteiros, no futebol, no judo… havia muita gente envolvida na altura, algumas dezenas” de jovens, recorda.

Além de escuteiro, integrou o grupo de jovens e praticou Judo no Clube Os Patos, também rossiense. Diz que todas estas atividades e valências se mantêm, mas nota que “têm menos gente e vão tendo gente de outras freguesias, e cada vez menos gente do Rossio propriamente dito. É uma evolução que tem acontecido, infelizmente, no país inteiro. Quanto mais interior, pior”, lamenta.

Frequentou a escola primária no Rossio, seguiu para o Ciclo – a escola D. Miguel de Almeida – no 5º e 6º anos, e depois terminou o básico entre o 7º e 9º anos e o ensino secundário no Liceu, ou Escola Dr. Manuel Fernandes, ambas em Abrantes.

Reconhecendo a Coimbra uma componente académica e associativa muito forte, transportou essa ligação e fez sempre parte das associações e núcleos de estudantes do liceu à universidade, integrando também a Associação Académica de Coimbra.

Afiança que em Coimbra é muito fácil entrar-se nesse mundo, “que leva muito tempo daquele que seria para estudar”. Passou pelo Núcleo e depois esteve na direção geral da AAC, tendo feito um mandato em cada.

Renato sempre esteve ligado ao associativismo. Nesta foto com o pai, Fernando Antunes (secretário da mesa de Assembleia Geral da UDR), representa a União Desportiva Rossiense como promotor oficial para o distrito de Santarém do projeto internacional “Futebol de Rua”, dinamizado em Portugal pela Associação CAIS e inclui a FIFA como parceiro. Foto: DR

“Quando chegamos ao secundário há mil opções, muitas mais do que as que se podem escolher e há sempre muita coisa que se tem de deixar de fazer. Fui aprendendo a lidar melhor com isso ao longo do tempo, mas é uma das coisas que sempre me custou: selecionar as coisas que não se podem fazer. Ficam sempre muitas áreas por tocar e tenho gostos muito variados, isso não ajuda nada”, confessa, entre risos.

Há uma altura em que decide enveredar pela área que lhe interessava mais, as Relações Internacionais. Renato quis sempre perceber os conflitos, as relações entre várias culturas e pessoas com modos de vida diferentes, conta-nos.

Apesar de não ter prosseguido nessa área, afirma que o ajudou muito profissionalmente. “Mais tarde vim a perceber isso”, começa por dizer, ainda que reconheça que não tinha um caminho “super definido” em termos de que profissão iria seguir.

“Não era muito claro para mim o que queria fazer na prática, mas sabia que queria estudar aquela área na altura”, prossegue, sublinhando que sempre contou com “uma abertura grande dos pais para poder escolher aquilo que fizesse mais sentido” e isso ajudou.

Sendo “mais pragmático”, surge a decisão da primeira pós-graduação, juntando a parte económica e empresarial. “Ao longo do tempo vai-se percebendo que tem que se afunilar e decidir”, adianta.

Renato Sousa Antunes cedo soube que o caminho passaria pela área das Relações Internacionais. Com o tempo percebeu que teria de optar pela vertente de Gestão Internacional para alcançar uma carreira de sucesso no mundo empresarial.

Foi no contacto com o mercado de trabalho, após a licenciatura, entre 2010 e 2011, que Renato sentiu que tinha de procurar acrescentar mais-valias ao seu currículo, ainda para mais estando instalada a “primeira grande crise” que a sua geração viveu.

“A saída mais típica de relações internacionais na altura, e que seria o concurso diplomático nas embaixadas, estava congelada. Não houve durante alguns anos acesso ao concurso diplomático, e era algo em que eu até tinha algum interesse. Depois foi juntar o útil ao agradável. Tinha noção que as empresas e o mundo empresarial eram muito interessantes para mim.

Daí foi alimentando o “bichinho empreendedor”, derivado ao facto de os pais terem empresas e de sempre ter estado envolvido nos negócios de família de algum modo.

A pós-graduação surgiu como forma de tentar conciliar a componente de política internacional com algo “mais palpável”, que eram as empresas e economia.

Durante a pós-graduação mudou-se para Lisboa, e começou a trabalhar na Fundação Francisco Manuel dos Santos, na plataforma-base de estatísticas Pordata, tendo ali permanecido por três anos. Começou como formador, o equivalente a um business developer da fundação. Esse foi o contacto com o mundo do trabalho mais a sério.

Os pais tiveram papelarias e livrarias tradicionais, e entretanto mantêm uma tabacaria numa grande superfície. Releva desde logo a importância das papelarias de rua, mas reconhece que é difícil competir com os preços praticados pelos grandes grupos. Isto permitiu que Renato tivesse contacto com o mundo empresarial e tecido económico desde muito cedo e ficasse desperto para determinadas temáticas no setor do comércio e da economia.

“Nos meses de verão acabei por ajudar muito na papelaria, principalmente nas tarefas mais informatizadas. As encomendas dos manuais escolares começaram a ser 100% informatizadas, dei uma ajuda grande nisso. Nunca tive a ambição de trabalhar diretamente com os meus pais logo a seguir, até porque o meu percurso foi evoluindo; mas estive sempre ligado e ainda hoje acontece, continuo a dar umas dicas”, afirma.

“Percebi muito rápido a importância do tecido económico mais local e as dificuldades por que passava”, tendo a oportunidade de cruzar o que tinha aprendido em termos de aplicação internacional.

Após a primeira experiência profissional, sentiu que faltava algo. E não fez por menos: entrou num dos mestrados mais difíceis de aceder para quem não é da área de Gestão, o Mestrado em Gestão Internacional na Universidade Nova de Lisboa. “Foi um processo difícil. Continua a ser dos processos de recrutamento mais difíceis que já fiz, não foi para nenhum dos cargos que tive depois”, comenta.

Foi um ciclo de estudos muito exigente, e por isso dedicou-se a tempo inteiro e em exclusivo. Hoje, dá aulas nesse mesmo mestrado.

“Fez muita diferença, principalmente porque o estilo de ensino da Nova, em particular nas áreas de gestão e economia, é muito diferente de tudo o que tinha apanhado, mesmo em pós-graduação. Dá-nos uma tarimba e um ritmo que depois faz a diferença. Hoje dou aulas nesse mestrado, na área de Estratégia e Internacional, e digo isso aos meus alunos, que aquele método de ensino faz a diferença”, menciona.

Apesar de reconhecer ter sido difícil voltar a ser estudante a tempo inteiro, depois de já ter ingressado no mercado de trabalho, Renato Antunes admite que há sempre o risco de querer “deixar para depois”, porque já se trabalha e ganha o próprio dinheiro, mas estava determinado a levar o desafio até ao fim.

Feitas as contas, o saldo foi positivo e o caminho fez-se caminhando. Logo após o mestrado ingressou num novo desafio profissional. Esteve nos CTT, entre 2016 e 2017, num programa de trainees (estágios) na área de Marketing, Estratégia e Grandes Contas, o primeiro ano e meio de carreira após concluir o mestrado.

Uma carreira que se fez em velocidade cruzeiro, sempre norteada pela estratégia que se foi desenhando na cabeça de Renato, com duas ou três empresas na mira, sentindo que o mestrado serviu de “rampa de lançamento” da sua carreira profissional, permitindo apontar às funções e empresas que tinha em vista.

Um ano depois ingressou na Mercadona, fazendo parte da instalação em Portugal, durante o processo de expansão. Tal levou a que passasse muito tempo entre Porto e Espanha, dedicando-se à área do retalho alimentar – aquela que mais gosta.

“Queriam alguém que fosse responsável de relações externas no projeto de implementação em Portugal, que falasse com todas as instituições, desde Câmaras Municipais, órgãos do Governo, para abrir portas e definição do projeto de expansão para Portugal. Teve muito interesse para mim porque foi quase uma internacionalização ao contrário. Eu tinha estudado muito como levar empresas portuguesas para fora, e ali, no fundo, era trazer uma empresa de fora para Portugal. Um processo muito interessante e muito difícil”

Depois, num contexto de trabalho e operação em abordagem ao mercado internacional, integrou um processo de internacionalização na América Latina de uma seguradora na área da saúde, a Future Healthcare. O foco estava entre Equador, Colômbia e Peru.

Quilotoa, Equador. Foto: DR

“Foi o primeiro projeto que tive, mais baseado em internacionalização de serviços”, referiu, confidenciando que “correu bem demais”, com duas subsidiárias criadas. Chegou o momento de equacionar se iria ou não de vez para a América Latina. Na altura, não fez sentido.

Corria o ano 2019, no mês de junho, que se deu o regresso à região que, aliás, não estava nos planos. Ingressou na Casa Mendes Gonçalves – reconhecida empresa na Golegã detentora da marca Paladin – e teve desde logo o desafio de coordenar mercados estratégicos.

“Não estava nos planos voltar tão cedo. Era uma coisa que eu acalentava, porque sempre tive e continuei a ter uma grande ligação a Abrantes, ao Rossio e à UDR. Nunca mudei a morada, como digo sempre! Continuei sempre oficialmente cá. Felizmente tive a oportunidade de voltar. Já tinha tido alguns contactos com a empresa ao longo do tempo, acompanhava desde há bastantes anos, até por ser uma referência na região e por conhecer várias pessoas que tinham trabalhado na Mendes Gonçalves. Foi nessa fase que fez sentido.”

Renato acabou por entrar no projeto para reestruturar a área direcionada à exportação e internacionalização. Depressa nos explica que os produtos da Mendes Gonçalves, apesar de presentes em cerca de 40 países do mundo, apenas 8 ou 9 são considerados mercados estratégicos, pois o processo de exportação é menos profundo do que a internacionalização da marca.

Renato Sousa Antunes com o administrador da Casa Mendes Gonçalves, Carlos Mendes Gonçalves, durante visita recente à empresa por Pedro Magalhães, diretor de Comércio Internacional da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa. Foto: CCIP

Entre as marcas da casa, além da Paladin (relançada há dez anos e relacionada com inovação, flexibilidade, com surpresa para o consumidor e com produtos e combinações nada óbvios, mas virada para o retalho), surgem a Peninsular (produtos mais ligados ao Mercado da Saudade e setor HORECA com formatos maiores) e a Dona Pureza, que estão estrategicamente em 9 mercados, com diferentes abordagens, a nível internacional, algo que é relevante para uma empresa média portuguesa, segundo nos explica.

No final de 2019, passados alguns meses de ter entrado na empresa, ficou responsável pela equipa na área internacional.

Trabalha na coordenação na área e liderança da equipa e há um ano é também diretor de Marketing e Comunicação, acumulando as funções de liderança neste setor.

“A dada altura, para empresas familiares e tradicionais portuguesas que construíram ao longo do tempo marcas com relevância, como a Casa Mendes Gonçalves, torna-se importante estar internacionalmente com uma lógica de marketing. Sabermos o que queremos para cada marca, termos targets de consumidor bem definidos para cada uma delas, saber o que oferecemos de valor acrescentado ao mercado”

O conhecimento do terreno a cada viagem, aliado ao conhecimento dos mercados, leva a que os passos vão sendo dados com maior confiança e sem margem para grande erro. “Nós agora já não conseguimos fazer um lançamento só a pensar em Portugal. Quando pensamos um produto novo, um lançamento ou campanha de produto ou gama, temos obrigatoriamente de pensar em vários mercados – se não, estaria a fazer mal o meu trabalho. No mínimo temos de pensar nos mercados estratégicos para a marca em causa”, salienta.

Renato Sousa Antunes, na empresa com sede na Golegã. Foto: mediotejo.net

Este acumular de funções e a subida na carreira não significam pressão ou trabalho a mais, até porque Renato passou a gerir duas equipas na liderança dos dois setores, tanto do Internacional, como do Marketing. “Internamente o processo foi bem pensado, na minha ótica, porque permitiu balançar aquilo que era o trabalho alocado a uma função apenas”, refere.

Destaca o valor do trabalho em equipa, sublinhando a importância que tem o recrutamento e a delegação de competências e tarefas.

“Acredito muito que temos de recrutar sempre pessoas que saibam coisas que nós não sabemos. E, principalmente, com valências tão diferentes, desde gestores comerciais, gestores de marca e designers. Há uma panóplia de funções. É fundamental termos em quem delegar, sabermos delegar e deixar a decisão nas pessoas. Muitas das vezes isso não é tido em conta, e eu acho fundamental. Tem que lhe ser dada autonomia e responsabilidade nas suas funções”

Para o abrantino é humanamente impossível uma pessoa ter conhecimento de todos os processos, sendo certo que “a pior coisa que pode acontecer é chegarmos a um processo que conhecemos mal e tentarmos começar a decidir. Não é política que eu apoie”.

Foto: mediotejo.net

Para Renato esta é uma das grandes chaves de motivação, quando se fala em liderança de equipas e gestão de pessoas, a confiança e a valorização da voz do profissional. “É o que nos faz a todos vir trabalhar mais satisfeitos, termos noção do impacto que temos e daquilo que podemos decidir”, crê, entendendo que a decisão tem sempre conotada a metáfora do “funil”.

O regresso (inesperado) a casa

“É uma sensação muito boa!” Assim nos carateriza este retorno a casa, num ar de felicidade completo e impossível de disfarçar, com o rosto iluminado.

Como “bom filho a casa torna”, comprou casa em Abrantes e mantém-se “pertinho da família”.

Dada a carreira que foi trilhando e o investimento no percurso académico, pensou sempre que tão depressa não seria possível voltar. Mas a ligação à terra fez com que se mantivesse aceso este “desejo”. O facto de conseguir fazê-lo mais cedo do que esperava são “extra points”, diz.

Foto: mediotejo.net

“Assim que cheguei tive logo um mundo de funções e coisas para fazer, a começar pela UDR, faz parte e sabe muito bem”, e enquanto fala consegue-se adivinhar o rol de afazeres que lhe vão ocorrendo à mente, como atarefado assumido que é.

Neste espírito de “Pato Bravo”, fazendo jus à naturalidade rossiense, vê com responsabilidade o facto de voltar ao Interior do país e sente ter obrigação de ajudar a impulsionar esta região atormentada com fenómenos como a desertificação, o envelhecimento populacional, a falta de emprego qualificado, de incentivos proporcionais para fixar população jovem, de médicos de família, o défice no acesso a bens e serviços em relação aos grandes centros urbanos do litoral… e a lista continua.

“Acredito, primeiro que tudo, que somos os principais agentes de mudança. E por muito tempo que percamos a falar dos desafios do Interior, temos de ser nós a tentar ajudar a ultrapassá-los.

Há sempre duas maneiras de ver o copo: ou meio cheio, ou meio vazio. Acho que estamos cheios de oportunidades.

Pode ser mais difícil em vários processos, mas temos muitas coisas a nosso favor.

Depende de nós aplicar o que se sabemos, e é uma oportunidade extraordinária para quem consegue fazê-lo, dependendo do que pretende para a sua vida profissional e pessoal”

Nunca equacionou estabelecer-se na Golegã, não porque não goste da vila e das pessoas, mas pela proximidade à cidade natal, que permite unir o útil ao agradável.

“É muito fácil deslocar-me rapidamente, então com a A23 (embora a lógica das SCUTS seja discutível…) Demoro menos a chegar à Golegã vindo de Abrantes, do que demorava em Lisboa, a 5 km do trabalho”, assegura.

Para Renato há uma frase do neurocientista António Damásio que faz sentido neste ponto e que é muito utilizada na área do marketing: “Não somos máquinas de pensar. Somos máquinas de sentir que pensam.”

E prossegue com o seu raciocínio, demonstrando-se sempre muito interessado nas matérias de filosofia e sociedade. “As nossas decisões na vida são efetivamente muito emocionais, embora nós depois as tentemos mascarar ou arranjar pretextos racionais, ou quase, para as justificar. Tipicamente, comigo acontece, as grandes decisões até em termos de propostas de trabalho, são tomadas no primeiro segundo em que se ouve a proposta. Depois tentamos arranjar forma de justificar e que faça algum sentido. Há um pendor emocional muito grande – pelo facto de ser muito perto da minha terra e de eu saber que, se viesse para cá, viria necessariamente para Abrantes”, conclui.

O cordão umbilical nunca foi cortado apesar da distância, até porque a UDR permaneceu como elo de ligação ao Rossio ao Sul do Tejo. O associativismo corporizou-se em 2019 como nova tarefa e função, tendo assumido a presidência da União Desportiva Rossiense.

Coletividade que “precisa sempre de gente, e se for da terra melhor, para levar o barco até à próxima estação. O clube tem de continuar e a história tem de continuar a escrever-se”.

Isto apesar dos “mil desafios” para uma associação local como esta, que passou por uma “fase muito dura com a covid-19”.

Mas, garante, há uma fase anterior a esta, que afeta as coletividades do Interior, em terras muito envelhecidas, que têm poucos jovens e que levam a que estratégia seja equacionada e ajustada. “Foi algo que fomos fazendo, até porque é muito difícil envolver as pessoas. A maior dificuldade é de dinâmica, não em todas as terras, mas no Rossio isso acontece”, indica, explicando o seu ponto de vista sobre a tendência do desapego ao associativismo local.

“Cada um de nós tem a sua vida e cada um tem o poder de decidir em que investe as suas horas. Essa é provavelmente a caraterística mais negativa dos tempos que temos vivido. As pessoas estão genericamente a fechar-se mais sobre si mesmas, e a ver a sua responsabilidade social mais reduzida àquele que é o seu círculo mais próximo e família. As coletividades precisam muito do contrário. E é difícil, porque tudo o que tentamos fazer depende sempre das pessoas que estejam do outro lado, a assistir, a ajudar, a participar”, enumera.

UDR em Rossio ao Sul do Tejo. Créditos: mediotejo.net

Algo que considera influenciar negativamente esta situação é o facto de o Rossio estar “num meio termo que às vezes é ingrato, entre ser uma freguesia urbana, muito perto da cidade, o que leva a que haja uma noção menor de que as pessoas são efetivamente necessárias no dia-a-dia”. Pelo contrário, diz, esta situação torna-se mais clara numa aldeia mais isolada, sendo aí mais óbvio que todos têm que ajudar.

Independentemente disto, o objetivo é tentar manter a atividade o mais próxima possível da comunidade. Em 2021 a UDR fez 75 anos de existência, e existiram algumas cerimónias simbólicas, porque a pandemia veio atrasar as comemorações oficiais.

Ainda assim, chegou o tempo de implementar um “projeto grande para a escala da associação”, estando previsto o lançamento do livro sobre a história da associação.

Por outro lado, foi retomado o hóquei em patins, modalidade de glória nos anos 70, em que “o clube esteve para subir à Primeira Divisão pelo menos duas vezes”. Também se avançou com a reativação da secção de pesca.

“Estamos a tentar retomar o que foi mais diferenciador na União Desportiva Rossiense. O caminho é difícil com pouca gente, mas é um caminho bonito e o que nos importa é que o barco fique controlado e saia em condições de segurança para o futuro”, frisa.

Renato Antunes, presidente da UDR. Foto: mediotejo.net

Questionamos sobre a sua terra. Que Rossio se vê pelo olhar de quem se especializou na área da estratégia, relações externas e internacionalização de empresas, tendo em conta o atual estado de degradação e abandono de edificado industrial e urbano, e lembrando que o Rossio foi um dos polos industriais mais importantes do concelho de Abrantes, nomeadamente no século XX, contribuindo para o desenvolvimento da região.

“O Rossio foi um polo comercial fundamental para a região, principalmente quando o Tejo era uma das principais vias de comércio do país. E nota-se muito ainda, no traço das casas. Infelizmente muitas delas estão ao abandono hoje em dia. Vê-se um abandono grande daquilo que podiam ser as valências industriais, comerciais e residenciais do Rossio”, começa por dizer.

“É um problema difícil de resolver. Houve um abandono por parte das pessoas, deixando as associações, as empresas… Era uma freguesia muito relevante e acaba por estar a meio caminho, o que não ajuda nada. Está oficialmente dentro da esfera urbana mas está fora da união de freguesias principal. Não é cidade, embora depois para tudo o que são os planos de desenvolvimento seja considerada freguesia urbana. Tem esse compromisso difícil de equilibrar. Depois perdeu, em termos industriais, grande parte do pendor, desde a Fundição, tudo o que havia feito e construído à volta dessa lógica industrial mais pesada. Isso tem consequências muito graves, não só imediatas no emprego das pessoas, mas depois na dinâmica da própria terra como consequência”, explica, dando conta da sua análise ao estado de coisas.

Constata que “quanto menos empresas há, menos emprego há. As pessoas têm menos dinheiro, saem do Rossio, deixam de ali investir e consumir. As pessoas saem e tão depressa não voltam ou não voltam de todo. Ficam grandes locais, que já tiveram grande ênfase industrial, abandonados”.

Para Renato Antunes há uma certa dissonância, até porque “esta seria uma faixa bastante apetecível noutras zonas do país, numa zona ribeirinha à frente do rio; é das poucas freguesias que eu acho que tem casas ao abandono nessa faixa, que normalmente é muito privilegiada”.

“Há um trabalho grande para se fazer, de todos, e é preciso primeiro fazer as pessoas perceber que estão todas convocadas para mudar isso e ter uma estratégia estruturada para tentar mudar o curso das coisas. É sempre difícil. Numa lógica empresarial, dentro de uma estrutura ou organização, é relativamente mais fácil levar as coisas a bom porto porque efetivamente cada um nós sabe qual o seu papel, tem que o desempenhar porque o seu salário depende disso. Em termos associativos e cívicos é mais difícil convocar as pessoas”, considera.

Não tem dúvidas que “falta um compromisso geral” para com a terra, de forma aplicada. Falta o passo a seguir.

Rossio ao Sul do Tejo, Abrantes, maio de 2021. Fotografia: Paulo Jorge de Sousa

Os pais e irmão, que é oito anos mais novo, residem no Fojo. O irmão segue as pisadas dos pais e está envolvido nos negócios da família. Mas seguiu também o exemplo do irmão mais velho, mantendo-se sempre a jogar futebol. Hoje veste a camisola dos Dragões de Alferrarede, mas já passou pela UDR, e Renato crê que é um bom prenúncio para o futuro, pela ligação prática ao movimento associativo.

Reconhece que existem grandes disparidades entre a sua geração e as gerações mais novas, muito pelo acelerar dos tempos.

“As coisas atualmente mudam mais rápido do que antes. Nota-se uma noção diferente em tudo. A grande mudança que toda a lógica digital nos trouxe tem disso; há uma multiplicação da velocidade com que as coisas acontecem e mudam. Acho que está nas mãos dos mais novos serem ainda mais dinâmicos para com as suas terras e o desafio é muito grande, porque há muita coisa para fazer”, revela.

“É preciso que essa consciência cresça desde cedo”, afirma, indicando que os mais novos têm acesso a ferramentas muito melhores hoje em dia, porque em termos digitais são utilizadores mais proficientes e hábeis, nascendo em gerações mais conectadas aos dispositivos móveis.

O papel dos mais jovens ganha preponderância até na transformação digital nas associações, organizações públicas e empresas. É preciso uma transição digital rapidamente, como “de pão para a boca”, defende.

Comemoração dos 74 anos da UDR. Créditos: UDR

Isso porque as associações são “tipicamente envelhecidas, em terras também envelhecidas, e temos de tentar captar os jovens o mais cedo possível, também para alcançar essa transformação e digitalização dos processos. É fundamental. Normalmente são processos que se tornam mais fáceis, é a chave para o futuro”, admite.

Com o tempo contado na agenda para o emprego, associativismo e família, consegue sempre que sobre também tempo para o círculo de amigos.

E como foi a reação dos amigos à vinda para a terra? Uma boa parte saiu na altura em que também ele foi para a universidade e ainda não regressaram. “Viram com estranheza, mas positivamente. Até porque alguns deles gostavam de poder fazer o mesmo e têm alguma inveja. Mas hão-de conseguir, espero eu, rapidamente”.

Já os amigos que permanecem por Abrantes viram “com alguma surpresa”, mas a melhor parte de regressar é “ter as pessoas de sempre, perceber que há espaço para termos uma vida de qualidade e uma qualidade de vida muito superior do que em malhas urbanas maiores”.

“Regressar tem sempre a componente boa de reencontrarmos pessoas com quem nunca tínhamos perdido o contacto, mas que estavam muito dispersos ao longo do ano e os contactos foram sendo feitos digitalmente. Finalmente podemos voltar a fazer planos todos os fins-de-semana”, salienta.

Também os pais veem com orgulho esta ascensão rápida do filho mais velho, que sempre foi bom aluno e que “não era demasiado traquina”, e por isso, não tem assim tantas “histórias engraçadas para contar”.

Em Paris, numa das suas viagens, uma das atividades que mais lhe dá prazer. Foto: DR

Renato conseguiu aos 31 anos o melhor de dois mundos: o sucesso da carreira profissional deu para regressar e estar mais próximo da família… e da sopa da mãe.

Porém, como gosta de desafios, não consegue prever o futuro “taxativamente”.

“Vejo-me em condições perfeitas para continuar aqui agora, não só em termos profissionais, mas também na ótica do compromisso de qualidade de vida que conseguimos ter na região. Obviamente que faltam algumas coisas e há uma oferta mais limitada em termos culturais, de teatros, concertos, etc., e tipicamente temos de sair e ir a outros sítios. Mas vejo-me a continuar durante algum tempo cá, não sei se para sempre ou não. Para sempre é muito tempo…”, ironiza.

Até porque existem outras ambições, nomeadamente académicas: tem na sua to-do list fazer um doutoramento ou um MBA.

“O mundo hoje em dia dá-nos a possibilidade de podermos fazer várias coisas ao longo da vida sem pôr em causa o plano geral. Podemos, hoje em dia, equacionar uma formação de um a dois anos fora sem termos que mudar a vida toda para outro sítio e nunca mais poder voltar. Pelo menos a nível do espaço económico europeu, é relativamente fácil em termos essa abordagem. E com a digitalização cada vez maior do trabalho, pelo menos em algumas componentes, é possível ter aqui um bom enquadramento para continuar por cá”, releva.

A sua vida resulta de uma série de influências, escolhas, decisões e também das pessoas com que se foi cruzando no caminho.

Baños, Equador. Foto: DR

Para isso contribuíram os filmes que o marcaram, como o “Os condenados de Shawshank”, “A Lista de Schindler” e o “O Gladiador” – que admite já ter visto dezenas de vezes.

Por defeito de formação académica, a questão das guerras e dos conflitos e dos impactos mundiais sempre lhe interessaram.

Quanto à música, diz que é uma “pergunta difícil”, pois ouve “de tudo, desde música clássica, principalmente para estudar, até reggaeton“, aos fins-de-semana. “Tenho uma banda preferida de sempre, os Red Hot Chili Peppers – que já consegui ver em Portugal. Em termos de estilos, depende do mood e da oferta que há, com o Spotify e afins, é relativamente fácil aceder a estilos e lançamentos diversificados”, conta-nos.

A leitura é algo que o acompanha desde sempre, e faz até “algumas brincadeiras na escrita”. Atualmente lê a obra “Um Homem Chamado Ove”, do escritor sueco Fredrik Backman, e diz que lhe interessam romances ficcionados, mas relacionados com questões filosóficas e com a sociedade atual, desde os grandes clássicos “que deveriam parte de qualquer prateleira”, caso de “1984”, de George Orwell, ou as obras de Kafka.

“Gosto de ler obras clássicas, as mesmas, em alturas diferentes. Tiram-se sempre novas interpretações”, admite.

Mantém ligação ao desporto, e tem como hobbie mais regular a corrida, que consegue cumprir mais facilmente, além de manter a prática de uma futebolada por semana, num dos dias da semana, e mais recentemente voltou ao ginásio para se dedicar ao crossfit. “Gosto da lógica das aulas, apesar de nunca ter sido grande fã de máquinas”.

Equipa da União Desportiva Rossiense com o presidente em destaque. Foto: Arquivo mediotejo.net.

Também começou a interessar-se por percursos pedestres, algo que tenta fazer uma vez por mês, ao fim-de-semana, partindo à descoberta dos trilhos na região.

Questionado sobre as suas pessoas-referência, não tem dúvidas de que, com especial ênfase na sua infância, se destaca o avô paterno, Manoel (sim, dos poucos com O) Antunes, natural de Água Formosa, em Vila de Rei. “É a aldeia mais bonita da nossa região, e merece uma visita”, refere, com um sorriso muito aberto e luminoso, falando orgulhoso das suas raízes familiares.

O avô vivia no Fojo, e era ele quem ia buscar Renato à escola e o acompanhava nas horas livres após a escola. “Ia sempre com ele na bicicleta. Todos os ensinamentos mais básicos, até sobre questões mais políticas e sociais, vieram muito dele. Moldou-me muito nos primeiros anos da minha vida, a par dos meus pais, claro”, recorda.

Fora do espectro familiar, refere ter influência de grandes “líderes carismáticos europeus e americanos” que ajudaram a erguer o mundo e na construção da sociedade no pós-II Guerra Mundial, e também de líderes que estiveram à frente de movimentos sociais e na defesa de causas como Martin Luther King na luta contra o racismo e segregação. “Não é tanto pela individualidade em sim, mas pelas causas que representam e pela forma como conseguiram influenciar movimentos tão importantes e marcam tudo o que foi o mundo até aos dias de hoje”, argumenta.

Foto: mediotejo.net

Um dos seus lemas de vida aplica-se à forma como gosta de liderar as equipas e as pessoas: “Nunca esperar para estar 100% preparado para fazer alguma coisa”, considerando que esse seria o primeiro passo para nada fazer. “A melhor forma de aprender é a fazer, não há melhor forma de descobrir se se está preparado ou não do que tentar”, afiança.

Tem a Política como área de interesse, mas entende que “o sistema partidário em Portugal prejudica a política”.

“Acho que muito pouca gente sabe, infelizmente, o que é política, o que é a polis, ou o que quer dizer política etimologicamente. É logo um grande problema à partida para mim, que estudei isso. Sou um bocado chato com a parte teórica da área. Sou um grande fã de política e sou dos mais acérrimos críticos do sistema partidário em Portugal”, começa por dar conta.

“Não acredito no sistema partidário está feito de uma forma que é muito difícil de mudar. Não me revejo neste sistema”, insiste.

Ainda assim diz reconhecer que “a política é a atividade mais nobre que existe entre nós e que tem obrigatoriedade de melhorar a vida de todos os cidadãos da polis. É a atividade mais importante em que cada um de nós devia estar embrenhado e há muitas formas de fazer política. No associativismo, por exemplo. Faço todas as outras, não gosto dos partidos”

É um cidadão do mundo, não estivesse ligado às relações internacionais e à internacionalização de empresas e marcas.

Fotos: DR

Já dissemos que gosta de desafios? E ainda mais de os lançar e cumprir. Fechou o último, já com o conflito a rebentar na Ucrânia, com um interrail por oito países, onde passou por países como República Checa, Croácia e Itália.

Leva na bagagem as memórias de viagens, em trabalho e em lazer, mas as mais recentes tiveram um gostinho especial. Cumpriu com um desafio que impôs a si próprio: aos 30 anos ter viajado por 30 países.

Fotos: DR

A “viagem” ainda agora começou e Renato Sousa Antunes quer permanecer fiel ao seu lema de vida: “Nunca parar de me desafiar. É um bocadinho como a bicicleta, temos de pedalar sempre, senão caímos. Nunca parar de fazer coisas difíceis.”

Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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