No texto da semana anterior a propósito dos falhos de prática de boas maneiras – civilidade e etiqueta – lembrei os gastos em óleos essências no decurso do extraordinário banquete oferecido por ele a pretexto da inauguração do Palácio de Todas as Habilidades. O fantástico ágape durou dez dias e nele participaram 79574 convidados.
Só para dar uma ideia do colossal festim nele foram consumidos 1000 bois gordos, 1000 carneiros e cordeiros de estábulo (registem o pormenor do estábulo, há mais de dois mil anos), 14.000 cabritos, 200 bois dos estábulos da Senhora de Isthar (autêntico registo de certificação de qualidade), 1000 cordeiros de algo que não foi possível decifrar nas tabuinhas de cerâmica, 1000 cordeiros de Primavera (vejam a referência à sazonalidade), 500 cervos, 500 antílopes, 1000 patos grandes, 500 ganças selvagens, 1000 patas domésticas, 1000 codornizes, 10.000 tordos, 10.000 galinholas, 10.000 passarinhos, e 10.000 jerbos (roedores do tamanho de ratas), tudo isto no respeitante a carnes.
Os preceitos higiénicos eram realizados em locais próprios, afastados das zonas onde estavam as comidas, o incenso e o sândalo defumados perfumavam o ambiente e os convivas tinham à sua disposição óleos, sabões e essências a fim de retirarem do corpo excrescências e marcas de sujidade, não sendo esquecidos os perfumes. Os servos atarefavam-se na limpeza das «instalações sanitárias» e dos lavatórios, mas nas preciosas tabuinhas não consta nenhuma referência a palitos colocados nesses mesmos lavatórios de modo a todos poderem escarafuncharem os dentes sem causarem repugnância aos restantes convivas.
No tocante à retirada de detritos alimentares dos dentes aludi ao facto de o gebo envernizado por mau hábito de após o utilizar o conservar num dos cantos da boca, nas comissuras dos lábios. Para lá desse feio preceito, já vi numa conhecida cervejaria lisboeta um cliente retirar da aba do casaco um palito dourado, usá-lo e posteriormente colocá-lo no mesmo sítio.
Os hábitos de civilidade à mesa mudam de civilização para civilização, de qualquer forma alguns deles são de natureza universal, os específicos obrigam o visitante a procurar saber quais são os em uso no local onde se encontra de forma a evitar equívocos e constrangimentos.
Episódios grotescos e hilariantes estão registados em anais e livros de todos os géneros.
Por exemplo, Maozedong, o ditador chinês do livro vermelho guia da Revolução «Cultural», não apreciava tomar banho, preferia apenas esfregar a pela em tépidas e suaves toalhas, porque sofria de insónias tomava medicamentos para as debelar, por isso às vezes adormecia enquanto ceava. Nessas ocasiões os temerosos tomavam precauções a fim de lhes retirarem a comida da boca sem o acordarem. De outros tiranos e seus hábitos alimentares irei escrevendo.

