A questão das cotas étnicas constitui uma problemática com tudo e mais alguma coisa para constituir assunto controverso. Que não deve existir discriminação étnica, de género ou de qualquer outra natureza, é algo pacifico; pelo menos enquanto princípio social e filosófico. Que “a” solução (ou até “uma” solução) para combater a mesma, seja a implementação de cotas no acesso aos cargos públicos e afins, já não é assim tão pacifico.
Tem (é um facto) a vantagem de chamar a atenção paras as situações sociais que justificam a sua existência. Tem, ainda, o proveito de, mesmo que por decreto, implantar processos de acesso mais equilibrados entre grupos sociais maioritários e minoritários.
Poderá tornar, assim, mais representativo e diversificado, o corpo de integrantes nos organismos públicos executivos ou representativos; nacionais ou regionais. Mas não deixa de acarretar eventuais injustiças nas competências em presença, face a um fator diferenciador potencialmente alheio às respetivas capacidades.
Um assunto problemático, este.
Alegam, alguns, que as mentalidades não se modificam por decreto e, estas situações, tendem a constituir-se como preservações de injustiças.
Contrapõem outros que, mesmo que por meios artificiais, sempre se estabelecem pressupostos de equitatividade que, em última instância, contribuirão a médio prazo para o atenuar das desigualdades.
Será?
E até que ponto podem, situações destas, provocar implícitos ressentimentos, que xenofobias ocultas ou adormecidas, potenciem? Mesmo que disfarçados!
É algo, convenhamos, difícil de provar. Mas que o bom senso aconselha a ter em conta.
Na parte que me toca, embora sem ser grande entusiasta da ideia (e tendo em consideração que este aspeto só através da mudança de mentalidades pode alterar-se) acabo, de alguma forma, por me sentir tentado a aceitar as mesmas.
Até porque acho que é preciso fazer alguma coisa para igualizar condições. Discriminatórias na origem, de diferenciadas formações médias na prática social .
E o mais fácil, afinal, é ignorar.
É contudo uma aceitação condicional. Pois, mais importante (bem mais importante) que decisões destas que, muitas vezes, possuem razões de mera circunstancialidade política, é desenvolver ações concertadas e continuadas que, embora não possuam resultados imediatos e eleitoralmente eficazes, possam, gradualmente, extirpar as razões que, afinal, as justificam.
E que as cotas não constituam o fim e o princípio das ações a desenvolver, enquanto conveniente fator pretextual e apaziguador de consciências.
