Investimento de 7 mil milhões de euros em Data Center no Pego gera surpresa, satisfação, críticas e ceticismo. Foto ilustrativa: DR

O projeto, que prevê a criação de 450 postos de trabalho, foi aprovado por unanimidade, mas, se o presidente de Câmara fala em “notícia extraordinária”, a oposição revela algum cepticismo e critica o timing da informação, em vésperas de eleições autárquicas.

A Câmara de Abrantes aprovou no dia 2 de setembro, por unanimidade, a atribuição de isenções de IMI, IMT e Derrama no valor global de 16,2 ME à empresa EDC ONE Lda., no âmbito de um projeto que pretende concretizar um investimento de 7 MME até 2030, na Zona Industrial do Pego, destinado à instalação de um Data Center – um centro de processamento e armazenamento de grandes volumes de dados informáticos, com servidores protegidos por sistemas de segurança física, energia e refrigeração, cada vez mais necessários para garantir operações online contínuas e seguras.

Tal como mediotejo.net então noticiou, o projeto – que ainda carece de outras aprovações finais do governo – prevê a criação de 450 postos de trabalho diretos e 700 indiretos e é apontado pelo município como um “investimento nunca visto na região” e uma “notícia absolutamente extraordinária” para Abrantes, ao dar nova vida às antigas instalações da RPP Solar, uma grande unidade de produção de painéis solares que nunca chegou a laborar.

“Trazemos aqui a esta reunião um Projeto de Interesse Nacional (PIN) a aprovar pela Câmara e, obviamente, a autorização para todas estas reduções de valores muito consideráveis a levar a efeito, tendo em conta um projeto que pretende criar 450 postos de trabalho diretos e 700 indiretos até 2030”, disse o presidente da autarquia, Manuel Jorge Valamatos, na reunião de executivo que declarou o projeto como de interesse municipal (PIM).

O projeto para o Data Center é apontado pelo município como um “investimento nunca visto na região” e uma “notícia absolutamente extraordinária” para Abrantes, ao dar nova vida às antigas instalações da RPP Solar”, fábrica de painéis solares que não chegou a vingar, localizada na Zona Industrial do Pego, nos terrenos contíguos à encerrada central a carvão.

O anúncio gerou dúvidas por parte da oposição, com o ministro das Infraestruturas a revelar, alguns dias depois, que “serão anunciados nas próximas semanas” alguns investimentos estrangeiros no país em “grandes data centers“ que “se querem deslocalizar para Portugal”. Miguel Pinto Luz não deu detalhes, mas oanúncio surge numa altura em que foi noticiado o interesse de um investidor de construir em Abrantes um grande data center, num investimento que deverá rondar os sete mil milhões de euros (ver AQUI).

Será neste terreno da antiga RPP Solar, junto à EN118, que poderá nascer um novo Data Center. Foto arquivo: mediotejo.net

Na reunião de Câmara Municipal realizada no dia 2 de setembro, o autarca socialista destacou a importância da requalificação das antigas infraestruturas e a nova dinâmica que o projeto daquele Data Center poderá trazer à Zona Industrial do Pego e ao concelho de Abrantes.

Manuel Jorge Valamatos, presidente da Câmara de Abrantes. Foto arquivo: mediotejo.net

ÁUDIO | MANUEL JORGE VALAMATOS, PRESIDENTE DA CM ABRANTES

ÁUDIO | Manuel Jorge Valamatos, presidente da Câmara Municipal de Abrantes

“Esta é, de facto, uma notícia absolutamente extraordinária para a Zona Industrial do Pego. Quero referir que estas instalações eram as antigas instalações dos painéis solares e que vão, obviamente, ganhar uma nova vida, esperamos todos nós”, declarou.

De acordo com o autarca, em causa está a instalação de um Data Center junto à Central do Pego, “uma estrutura ao exemplo daquilo que tem acontecido em Sines, que está a transformar e a desenvolver economicamente toda a região e o país. Estamos a falar de quadros qualificados, de pessoas na área da tecnologia. São, de facto, muitos postos de trabalho e uma nova dinâmica”.

A decisão, tomada por unanimidade mas com reservas e críticas posteriores por parte da oposição, surge para apoiar a concretização de um investimento de 7 mil milhões de euros até 2030, na Zona Industrial do Pego, destinado à instalação de um centro de processamento e armazenamento de grandes volumes de dados informáticos, com servidores protegidos por sistemas de segurança física, energia e refrigeração, cada vez mais necessários para garantir operações online contínuas e seguras.

Nesse sentido, a Câmara de Abrantes aprovou, por unanimidade a atribuição de isenções de IMI, IMT e Derrama no valor global de 16,2 ME à empresa EDC ONE Lda., no âmbito de uma candidatura a Projeto de Interesse Municipal (PIM).

Ainda durante a sessão, Valamatos anunciou que este é “um primeiro de vários projetos que estão em fase de licenciamento”, acrescentando que a aprovação surge no tempo da empresa e não por conveniência política.

As expectativas moderadas, as críticas e as dúvidas da oposição

Em declarações ao mediotejo.net, o vereador do PSD, Vítor Moura, criticou o timing da proposta e manifestou algum ceticismo relativamente ao anunciado, mesmo que, indicou, tal seja entendido como “alguma contradição com o sentido de voto favorável” ao apresentado.

“Uma proposta deste tipo não podemos ser nós a inviabilizá-la. Temos de votar favoravelmente”, afirmou, tendo indicado “alguma preocupação relativamente às características da deliberação e, sobretudo, do perfil da empresa” proponente, que “tem um ano de existência”, que “tem um capital social de cinco mil euros e fala em investir sete mil milhões” de euros”.  

Vítor Moura (PSD), vereador na Câmara de Abrantes. Imagem: mediotejo.net

ÁUDIO | VITOR MOURA, VEREADOR DO PSD NA CM ABRANTES

“Arriscámos naquela deliberação em conceder a esta empresa 16 milhões e tal de isenções de impostos. Se os tais 450 postos de trabalho previstos, diretos, e mais os 700 indiretos, se concretizarem, está justificado”, disse, tendo indicado haver “pouca informação” disponível.

“Achei que não era o momento oportuno [para pedir mais informações], mas não deixámos de ter preocupação. E manteremos essa preocupação e esperemos que tudo acabe bem, que é isso que interessa para o nosso concelho”, declarou, tendo criticado “o timing” do anúncio perto das eleições autárquicas.

Em resumo, concluiu, “o PSD votou favoravelmente a isenção de taxas, mas tem reticências e algumas dúvidas sobre a concretização do projecto”.

O vereador do movimento ALTERNATIVAcom, por sua vez, disse ao nosso jornal que votou a favor da isenção de taxas e da declaração de interesse municipal mas “com mais dúvidas do que certezas” sobre o projecto anunciado.

“O sentido de voto que tinha preparado era a abstenção, devido ao capital social” do proponente, “montante de investimento, o facto do CAE da empresa ter sido alterado há um mês, e também pelo facto de termos tido, num passado recente, alguns casos mais ou menos com este cenário e que depois não se concretizaram”, disse Vasco Damas, que decidiu aprovar a deliberação para “não haver aproveitamentos políticos” em véspera de eleições.

Vasco Damas, vereador do ALTERNATIVAcom na Câmara de Abrantes. Foto: mediotejo.net

ÁUDIO | VASCO DAMAS, VEREADOR ALTERNATIVAcom NA CM ABRANTES

“No decorrer da reunião (…) aquilo que eu achei foi que, apesar de todas as dúvidas que tenho, se me abstivesse ou se votasse contra, poderíamos ser acusados de estar a ser uma força de bloqueio para o desenvolvimento da cidade e do concelho e não sei como é que esta situação seria aproveitada em termos políticos contra nós”, declarou.

Nesse sentido, concluiu, e “tendo em conta que aquilo que nós votámos foi um conjunto de isenções se o investimento se concretizar e que não prejudica o município, eu acho que estamos a criar condições para que a cidade e o concelho tenham, em conjunto, o desenvolvimento que todos queremos. Eu desejo que este investimento se concretize mas, infelizmente, sou muito cético e tenho muitas dúvidas, só lamento não as ter deixado lavradas em acta com declaração de voto”, concluiu Vasco Damas.

Questionado pelo nosso jornal sobre as dúvidas da oposição e se recebeu garantias de investimento por parte da empresa, o presidente da Câmara disse que o projecto e intenção de investimento foi apresentado ao município “há mais de um ano” e que o mesmo tem um “suporte financeiro internacional” para um “investimento muito ambicioso que acontece porque existe ali o ponto de injecção” de energia no Pego.

“Com o encerramento da central a carvão criam-se aqui excelentes condições para que outros projetos possam acontecer, porque não são só as empresas que vão produzir energia e colocar na rede, são também as empresas que podem aproveitar este ponto de injeção para ter energia, e muita energia, e a custos, obviamente, mais acessíveis”, declarou, tendo feito notar que “este é o início de um processo que vai demorar o seu tempo a concretizar-se” tendo revelado ter “boas expectativas” sobre o mesmo.

Câmara de Abrantes – reunião de executivo. Foto arquivo: mediotejo.net

ÁUDIO | MANUEL JORGE VALAMATOS (PS), PRESIDENTE DA CM ABRANTES

“O processo que agora aprovámos em reunião de Câmara, de Projeto de Interesse Municipal (PIM) e as isenções que são ali propostas, tem a ver precisamente com a transação e com a compra dos terrenos, que são privados, e queremos que ele possa vir a ter também essa característica de Projeto de Interesse Nacional (PIN) para que os procedimentos sejam todos mais céleres”, explicou Manuel Jorge Valamatos.

Tendo feito notar que, do valor de 16 ME de isenções aprovado, “cerca de 14 ME têm a ver com a operação propriamente dita”, Valamatos salientou que “só com o processo laboral é que elas se podem verdadeiramente verificar. E seria muito bom que estas isenções acontecessem porque seria sinal que a fábrica já estaria a trabalhar e a produzir”, declarou, tendo, no entanto, feito notar que a concretização do mesmo não está nas mãos do município.

“Há sempre receio que os projetos possam parar por qualquer razão, uma vez que não são projetos municipais mas sim projetos de investidores. Aquilo que nós desejamos é que este não pare e que avance e que se concretize. Agora, nós levamos as informações à reunião de Câmara em função também do que são as solicitações dos investidores e das empresas. Neste caso, levámos à reunião de Câmara uma informação que vem de uma empresa a solicitar o PIM e as respectivas isenções e foi isso que fizemos”, declarou, tendo indicado outros processos em curso.

“Há vários projetos que estão a acontecer e a avançar, e nós, à medida que as empresas nos solicitem um conjunto de informações ou um conjunto de reações, nós fazemos. E é isso que estamos a fazer”, concluiu.

Sustentação da aprovação de isenção de taxas municipais à empresa EDC ONE, LDA,

Em resposta a um pedido de informação do mediotejo.net, a Divisão de Desenvolvimento Eeconómico da Câmara de Abrantes indica ter dado parecer positivo à candidatura da empresa EDC ONE, LDA, ao abrigo do disposto no Art.10º do Regulamento “Projectos Empresariais”, para um conjunto de apoios municipais abrangidos no referido Regulamento, por reconhecimento do seu projeto enquanto Projeto Empresarial de Interesse Municipal, sendo esta a base de sustentação da proposta de deliberação apresentada em reunião de executivo pelo presidente da autarquia.

Câmara Municipal de Abrantes tem em mãos um projeto de investimento privado de 7 mil milhões de euros Foto arquivo: CMA

Segundo a informação enviada ao nosso jornal, a empresa “cumpre o artigo 2.º do Regulamento, sendo que se propõe a implementar um projeto de desenvolvimento com tradução na criação líquida de emprego no concelho de Abrantes”, tendo ainda dado conta dos vários pontos analisados na candidatura e do cumprimento dos requisitos de elegibilidade da entidade proponente.

Por outro lado, acrescenta, e “de acordo com o n.º 11 do Regulamento Projetos Empresariais” verificam-se os seguintes pressupostos, necessários para a aprovação da candidatura aos apoios solicitados:

“- Encontra-se legalmente constituída e cumpre as condições legais necessárias ao exercício da sua atividade;

– Possui a situação tributária regularizada perante a Administração Fiscal e a Segurança Social;

– Não possui qualquer dívida ao Município de Abrantes;

– Dispõe de contabilidade organizada de acordo com o normativo contabilístico legalmente aplicável;

– Não se encontra em estado de insolvência, de liquidação ou de cessação de atividade, nem tem o respetivo processo pendente;

– Não possui salários em atraso”, concluiu.

Retrato da empresa EDC ONE lda.

A empresa EDC ONE Lda., com sede na Maia, foi criada em julho do ano passado com um capital social de 5.000 euros, para atuar na área da “gestão de ativos imobiliários”.

Surge agora como possível investidora de 7 MME na construção de um Data Center em Abrantes, depois de uma alteração societária realizada no dia 20 de agosto, passando a ter como atividade registada a “concepção, construção, operação e manutenção de data center e de infraestruturas de telecomunicações e de energia associadas”.

Nos contactos desenvolvidos pelo mediotejo.net, fonte ligada à empresa indicou estar “para breve” uma apresentação pública do projeto e esclarecimentos sobre o investimento que se propõe fazer em Abrantes.

Zona industrial do Pego

Em 2022, no âmbito do encerramento da central a carvão, foi adjudicado à Endesa um projeto de energias renováveis no Pego, atualmente em fase de implementação, com um investimento de cerca de 600 milhões de euros.

Este projeto integra soluções de produção solar, eólica e de hidrogénio verde, utilizando 224 MW dos cerca de 600 MW disponíveis no local.

Espaço da Central do Pego é pólo de atração de investimento para novas empresas na área das energias renováveis Foto arquivo: David Pereira/mediotejo.net

A Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) anunciou, entretanto, a abertura de um procedimento concorrencial, no último quadrimestre de 2025, para atribuição de 300 megawatts (MW) de potência de injeção na rede elétrica, no nó do Pego, procedimento que “recorrerá à potência excedentária do leilão lançado em 2021″.

A iniciativa, segundo a DGEG, “vem igualmente reforçar a relevância estratégica da região do Pego como zona-chave para a transição energética e o desenvolvimento económico sustentável do país”.

C/LUSA

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

Entre na conversa

1 Comment

  1. Seria de esperar que em um investimento de milhares de milhões o município recebesse a sua quota-parte, tendo em conta que provavelmente até acabará por ter de fazer investimentos directa ou indirectamente relacionados com essa infra-estrutura e os trabalhadores que se deslocam para a mesma, pelo que esse dinheirinho em impostos faria grande jeito.

Deixe um comentário

Leave a Reply