Sobre a história da minha aldeia não há registos dignos de nota, feitos de grande monta, sequer notas de rodapé em qualquer livro secular, muito menos monumentos ou lápides. Escondida num vale, horizonte incerto, mal servida de estradas e vergada sob o peso da terra, ficar e sobreviver foi desde sempre o maior feito dos seus habitantes.
Ao longo dos anos, só a oralidade e a transmissão do saber têm perpetuado a memória de outros tempos, porventura mais tristes e desgraçados, embora se conversasse mais, se cantasse mais, se assobiasse e dançasse muito.
Tirando um médico, nada faltava na minha aldeia antigamente. Tudo lá havia, mais ou menos, incluindo pobreza e miséria. Cabeços e hortas tinham e geravam vida, riqueza quanto bastasse. Novos e velhos eram muitos, animais também, menos eram as casas, as telefonias, as bicicletas.
Os carreiros, azinhagas e caminhos eram percorridos a pé, quase sempre por pés descalços, menos vezes por sapatos ou tamancos, ainda que velhos e remendados. Não havia iluminação pública, não havia saneamento básico e não havia, aparentemente, grandes razões de queixa.
As mulheres pariam em casa, sabe Deus como, tantas vezes sozinhas e sem qualquer apoio médico. Os homens, esses, não perdiam a jorna no dia do nascimento de mais um filho e não iam a correr à vila fazer o registo. Só por doença grave não iam ao ganha-pão e só por doença grave vinha o médico a casa, que o tempo não era para essas mordomias e tudo o mais se arremediava. E havia entreajuda.
Na loja do Silvestre nada faltava, nem sequer os tecidos ‘da moda’, estampados para todos os gostos, chitas e popelinas para blusas, cotim para umas calças, fazenda para alfaiates e costureiras trabalharem com mestria. Nas prateleiras, mercearias várias,guloseimas para a cachopada, tabaco para os homens e tudo o que era essencial para a casa.
Em tempos, a minha aldeia teve também um sapateiro, um alfaiate, um barbeiro, uma afamada cozinheira, um cesteiro e gateiro, um carpinteiro, um ferrador, vários moleiros e pastores, e até um ‘professor’. A necessidade aguçava o engenho e a solidariedade fazia o resto.
Entretanto chegou a água canalizada e a eletricidade, e depois a internet. Já não há arados nas hortas nem badalos nos montes, ferraduras para substituir ou sapatos para remendar. Na minha aldeia, são agora poucos os rebanhos e poucas as pessoas, restam apenas as memórias e os utensílios desses tempos.
Testemunho de uma época ainda não muito distante, são objetos mudos de um tempo com tanto para contar, mas que muitos já não reconhecem, não sabem para que serviam ou como funcionavam.
Para esses, e para todos aqueles para quem o conhecimento não estorva nem ocupa lugar, aqui fica uma sugestão cultural: está patente até ao final deste mês na Casa da Cultura da Sertã a exposição Profissões de Antigamente, uma mostra – nascida na minha aldeia há dois anos – que inclui fotografias e ferramentas, estórias e memórias das profissões da aldeia de Queixoperra.
Lá estão a dobadeira da Lorena, os livros e a ardósia do Jerónimo Alves, o serrote e o formão do João Sabino, os cestos de vime do Zé ‘Croado’, os alqueires e a mó do Ricardo Marques, a loiça da boda da Lúcia Casola, a balança do Silvestre, e muitos outros pequenos objetos capazes de contar, esses sim, a história da minha aldeia. Vale a pena passar lá.
