Acordai se estais dormindo
Nesse sono tão profundo
À porta vos estão pedindo
P’rás almas do outro mundo
P’rás almas do outro mundo
Que elas não podem cá vir
Dai esmola se puderes
Nós cá estamos a pedir
Acabo de receber um vídeo da primeira noite das Janeiras na minha aldeia e é difícil não me emocionar. Oiço as vozes ressoando pelas ruas e volto à nostalgia das memórias dos serões feitos de coragem, boa vontade, perseverança e união.
Há décadas que assim é, ininterruptamente desde pelo menos há 40 anos, mas muito antes disso foi legado que passou de geração em geração, entrega generosa e desinteressada, sempre com o mesmo objetivo.
Não queremos vossas riquezas
Nem também vossas fazendas
Só q’remos as migalhinhas
Que sobram das vossas mesas
A esmola que vós dais
Não julgueis que as comemos
Elas são ditas em missas
Pelas almas que lá temos
A partir de agora e durante os próximos dias, o grupo da Queixoperra percorrerá as aldeias vizinhas, dezena e meia no total, de porta em porta, juntando todos os contributos, monetários ou outros, entrando aqui e acolá para comer uma filhó, deitar abaixo um copo de jeropiga ou uma fatia de bolo-rei, tantas vezes tão só para agradecer a hospitalidade, retribuir o carinho e o incentivo.
Mais do que o valor angariado, e que no final será repartido pelas capelas de todas as localidades visitadas, tenho cá para mim que é isto que motiva o grupo. Desengane-se quem pensa que é coisa pouca andar por aí ao relento, em pleno mês de janeiro, de terra em terra, a cantar ao desafio, só as vozes ecoando pelas ruas (a cada ano mais) desertas, escuras e tristes destes lugares. Não é mesmo.
Ó minha rica senhora
O verso vai a acabar
Venha dar a sua esmola
Se a senhora a puder dar
São Miguel pediu por nós
A Jesus dos altos céus
A esmola que vós dais
Seja pelo amor de Deus
Quer seja pelo reforço dos laços de amizade entre os seus habitantes e de boa vizinhança com as terras mais próximas, quer pela dimensão simbólica que lhe está associada, as Janeiras são, na minha opinião, uma das mais bonitas tradições da minha aldeia. A estreia de 2020 já está, amanhã há mais.

